São oito horas e nada está pronto.

Eu não acredito que tudo vai mudar mais uma vez. Não acredito que tudo vai mudar pela segunda vez em dois anos. Deve ser por isso que são oito horas da manhã de sexta e não há nada arrumado. O caminhão chega às quinze, mas, às oito horas eu ainda não acredito.

Deve ser por isso que nada está pronto. Muito menos eu. Deve ser por isso que há somente uma mísera caixa meio cheia de livros ao lado da minha cama. Perguntará o senhor gentil do caminhão:

“Você não tem bagagem?”

Ao que eu responderia:

“Bagagem é tudo o que eu tenho. É só que a carga está pesada demais e eu não consigo carregar”.

Nada está pronto e, no entanto, há um caminhão que em breve estará aqui pra levar embora a vida que eu conheço. Sabe, eu acho que é justamente isso. Se são oito horas e eu ainda não acredito é porque é difícil acreditar que eles estão indo embora. E ela. Mais do que tudo, é difícil acreditar que ela vai embora.

Eu não devia estar dizendo isso, mas se estou sendo sincero, eu devo admitir que já senti raiva dela. Cansado que estive de ver minha vida virada do avesso. Cansado que estive de ver que, todas as vezes que a minha vida mudou, era dela a aventura. Cansado de não parar.

Acho que é por isso que são oito horas e eu ainda não acredito. Desta vez fui eu quem mudou a minha vida e eu não posso acreditar. Há até mesmo uma certa beleza, se você refletir: como em todas as outras vezes, dessa vez ela também puxou minha mão. Como uma força da natureza, que leva tudo o que está no caminho, ela puxou minha mão e disse:

“Não solte, senão você acaba ficando pra trás”.

Mas eu soltei. De alguma forma, quando ela puxou eu fiquei pra trás. São oito horas e eu ainda não acredito, mas acho que eu, que já fui folhas no vento, ao que parece, tenho agora raízes pra mostrar.

“Mãe, eu acho que eu vou ficar”.

O que estava escrito naqueles olhos ternos, que eu aprendera a amar muito tempo atrás, não era surpresa, era algo mais concreto. Confirmação, eu diria. Um receio fora confirmado. Ela sabia que eu ficaria antes mesmo de perguntar. Talvez ela sempre tenha sabido. Talvez, sem saber, ela tenha me criado pra isso. Mães sabem demais.

São oito horas e nada está pronto. É que eu fiquei tão acostumado a me deixar levar que agora que eu estou dando um passo sozinho, tenho medo de não saber andar. Estive tão costumado a ir embora e segui-la, sempre em frente, que eu, agora, não tenho certeza se eu sei ficar.

“Nada está pronto, você diz?” pergunta ela, com um sorriso de desdém.

“Nada. Você só me ensinou a ir embora. Sempre atrás do que achas que te falta. Você nunca me ensinou a ficar. Eu, agora, graduado em abandonar e deixar pra trás, acho que não fui alfabetizado em encontrar um lar”.

Penso que nesta altura ela riria, e resoluta diria:

“Do que você está falando? O seu lar foi o mesmo desde que nasceu”.

“Não é possível.” penso eu. “Como é possível então que eu tenha amado em tantos lugares se o lar foi o mesmo desde que eu nasci?”

“Lar não é um lugar”.

Ela estava certa. Eram 10 horas da manhã e resolvi levantar. Aquelas caixas não se enxeriam sozinhas.

“A tua bagagem coube nas caixas que eu te dei, Lucas?”, ela deve ter me perguntado, por volta das quinze horas. O caminhão já esperava lá embaixo.

“Sim. São quinze horas e está tudo pronto. Eu estou pronto.”

“Você não precisa ir, sabe. Pode ficar mais um pouco. Ainda é tão cedo”. Ela mantinha os olhos baixos. Não conseguia me olhar nos olhos, era como se tivesse medo de olhar pra mim.

“Eu bem que gostaria de ficar. Mas o caminhão não vai me esperar. São quinze horas e eu estou pronto”.

Ela, por mim, olhou pra mim. E manteve um olhar fixo, como se estivesse à procura de algo.

“Perdeu algo aqui, mãe?” brinquei.

“Perdi”. Ela pensou. Pensei ter visto um menino doce e meio medroso que conheci há mil anos atrás. Mas era engano. Você é uma pessoa completamente diferente.

São quinze horas, eu estou pronto, e minha mãe disse:

“Eu te amo, querido”.

“Eu te amo, mãe”.

Eu pensei: ela tem razão. Eu sempre morei no mesmo lugar.

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