Às vezes dói, às vezes dói tanto que fica uniforme. Um tipo de mancha roxo-esverdeada, sem cabeça nem cauda, sem horizonte, teto ou chão.

Dor que se quer pode ser diluída, não é massa nem líquida. É genuína, matéria prima.

Não dá pra saber que horas veio e pra onde vai, se é que vai. Parece que morou sempre assim e aqui simplesmente é.

Busco motivos pra essa existência, só pode ser patológico. Percorro a lista de doenças na família, me encaixo em seis de meia dúzia. Na maior parte delas não carrego culpa, como a pertinente análise de fatos, busca de razões e compreensão de sentimentos e a incessante procura de sentido para a vida. Às vezes também tento culpar o passado, a sociedade, a escola, mas nunca cheguei a lugar algum com toda essa culpabilidade.

Ando nutrindo uma auto-indigesta-rejeição, já que todo mundo aprende que ser humano saudável é sorriso. Superação, homem-super com ação. Vencer na vida como se o todo chão fosse pódium.

Vitória? Imagino uma moça no topo de uma escada caracol feita de troncos de gente. Eu sinto, muito, é que não consigo impulsionar os pés nesses degraus de umbigos e minhas pernas estão cada vez mais bambas pelo peso que carrego no peito.

Subir, na vida, já não me parece um bom caminho.

Que nome tem? Porque eu não sei, doutor, mas anda muito clara essa dor, pode até ser um cisto, que nasceu do tanto que insisto em saber porque eu existo.

Enquanto isso, continua a doer essa resistência na busca de razão para minha existência.

[inverno de dois mil e treze, still on and on]

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