1º de agosto para Pachamama

Vale Sagrado — Chinchero, Peru

Nunca achei que iniciar uma viagem pudesse ser tão difícil. Eu que sempre achei ser íntima de colchões de grama e tetos de estrelas senti a dureza de partir de casa e repartir o coração com um sobrinho recém-nascido, uma irmã recém-mamãe e uma paixão recém-sentida.

Mas com coragem, mala mal feita e roteiro nada definido, fomos!

Durante a viagem me perguntaram, por que o Peru? E 15 dias depois, embora fascinada pela cultura inca e a presença constante de Inti, o deus Sol, respondi: Pachamama. Na língua quíchua Pacha é universo, tempo, lugar, e Mama é, naturalmente, a energia materna, vital e feminina. A presença da sagrada Terra em suas alquimias, que está nos frutos que comemos, nas medicinas e minérios que nos curam e nas montanhas que aninham os mais diversos povoados. Não tenho dúvidas que foram essas anciãs imponentes e amorosas que me moveram o coração de volta às terras andinas. Há 2 anos estive no Chile, e antes mesmo de pousar já senti o peito derreter com a visão das cordilheiras, mas foi mesmo com pés na terra que senti ensinamentos valiosos estavam por vir. Hoje já não consigo pensar em uma viagem como descanso. Meu espírito quer trabalhar. Meu ser vibra pela arte de dizer, contar os segredos de um chão que pulsa, infinito. Que está à espera de um olhar para se fazer conosco um só corpo. Um matrimônio. Una madre que, sobretudo acolhe. Que “ama nossos pés e teme nossas mãos”.

Minha peregrinação no mundo nunca acaba. É roda viva e constante. Enquanto eu respirar eu vou caminhar, com profundo amor e gratidão por cada passo, cada canto, cada ser vivente que encontro. Com o imenso desejo de ouvir, sentir e dizer que sim, somos ligados por uma energia criadora e fantástica.

O agora é nosso único tempo.
Quero ser meu melhor nele.

[Viagem entre Cusco, Machu Picchu, Ollantaytambo, Chinchero, Paracas e Huacatina — ao sul e costa sul do Peru, inverno de 2015.]