Em cartaz, Julieta

Sabe casquinha de ferida? A maioria das pessoas já arrancou antes de cicatrizar e guarda a marca o resto da vida. Há também quem não cuide do machucado e fica igualmente marcado.

Parece que palavras e casquinhas têm efeito semelhante.


Desde que me demiti do último emprego me dei um presente: pelo menos uma vez por mês ir ao cinema nas tardes de segunda. Poderia ser pra trazer um pouco de brilho para esse dia que é o mais insosso desde gênesis mas é por ser mais barato mesmo.

Gosto de ir sozinha pra escolher a poltrona mais escondida, poder encharcar a manga da blusa com lágrimas sem precisar disfarçar, ficar na sala até subir a última linha dos créditos, prolongando ao máximo o delicioso hiato na vida que o cinema causa. Dessa vez tive muita sorte de comentar com minha mãe que ia ver o filme novo do Almodóvar. Grande parte por ela que aconteceu essa paixão pela telona e (ufa!) compartilhamos a última mania.

Só me dei conta o quanto seria importante assistir Julieta ao lado da própria mãe quando paguei correndo os bilhetes, enfiei tudo amassado no bolso da jaqueta, peguei a mão dela e “vamos que já tem 8 minutos de trailer”.

Claro! Depois do filme eu teria dessas chances maravilhosas de bancar a detetive dos casos de família não resolvidos. Tinha lido por cima a sinopse: Uma mãe que nada sabe sobre a filha… Parece história da carochinha contemporânea, só que não, foi muito melhor. É o tipo de filme que te envolve de tal forma que você mal respira, pra não correr o risco de perder um cisco de diálogo. Aliás, não tem um só filme desse cara (dos que vi) que não seja uma história que me faz ruminar o assunto por dias e dias e às vezes até ajuda a solucionar coisas antigas.

Dessa vez veio ao ponto!

O meu caso com o lance da ferida foi ter meio que apagado o que passou. Aí fica aquele ematoma invisível que causa um reflexo estranho toda vez que é tocado, sem dar muitas pistas do real impacto.

Meus pais se separaram quando eu tinha 18, minha irmã 21. Minha mãe que sempre foi muito linda, vaidosa e cheia de vida, estava diferente há muito tempo. Usava o mesmo corte chanel nos cabelo, fumava cada vez mais, com o olhar cada vez mais distante e até pra sair só se vestia com agasalhos esportivos.

Passei anos achando que estava tudo ok, afinal todo mundo vivo, gordinho, corado. Sei lá, a mente engana à beça e essa coisa de lembrar acaba sendo mais sobre fotos ou das coisas que nos contam do que sobre o que aconteceu de verdade.

Essa fase da separação pra mim é uma nuvenzinha que aparece toda vez que alguém pergunta: “E seu pai?” A cabeça roda o filme, mas a resposta é pronta: “Ah, ta lá, ele é um pouco ausente né, mas tudo bem, ele é super carinhoso”.

O que posso dizer é o que ouvia e sentia desde criança. Sentia cada vez mais falta de assistir TV com a cabeça deitada no ombro dele enquanto fazia e desfazia um rolinho com o cordão do seu roupão laranja, também lembro de cair na risada quando brincava com seu bigode “pai, você não tem boca”. Lembro bem da sua figura mas não ficou quase nada das atitudes nem das palavras. A frase que deixou sua voz gravada era o que dizia todos os dias pra minha mãe: “Benhê, tô indo no seu Viana, quer alguma coisa?”

Seu Viana era o boteco véio da esquina de casa, que tinha uns tatus empalhados na parede e prateleiras que iam até o teto cheio de garrafas de tudo que tipo, empoeiradas e amarelas, algumas com cobras e insetos dentro. Era um desses bares que de um lado era o balcão, com dezenas de garrafas e banquetas cativas que correspondiam à metade dos homens da rua, o outro lado, separado por uma coluna, era uma espécie de vendinha mequetrefe que nunca tinha o que a gente precisava. Hoje vejo a puta noção de marketing que tinha seu Viana. Pra família do alcoólatra era uma mercearia e pros caras que passavam o dia bebendo tinha essa desculpa que ia comprar tal coisa e aí só voltava quando anoitecia. Seu Viana, ligeiro, deve ter ficado milionário, porque era cada conta quilométrica que ficava presa com durex no vidro do caixa, sem falar que podia cobrar uma fortuna num pão Pullman, quem morou na periferia sabe, o mercadinho mais próximo fica sempre uns 15 quarteirões de distância.

Engraçado que todo dia minha mãe pedia pra comprar coisa lá e me perguntava do portão se o pai tava vindo almoçar. Nem preciso dizer que não.

A coisa começou a apertar depois que o pai perdeu o emprego e passou a beber também nas tardes de segunda, terça e quarta e assim vai (talvez no mesmo intuito meu com o cinema). Com o dinheiro da recisão tentou abrir um negócio de bebidas quentes (risos), não demorou 3 meses e tomou maior calote do “amigão de bar”, além de tomar o estoque nos zilhões de churrascos de inauguração. Depois disso parece que ele perdeu qualquer prazer pela vida. Do outro lado minha mãe, de quem só lembrava o sorriso por fotos, demorou sei lá quanto anos para tomar coragem de pedir o divórcio. Me contou que foram 3 tentando convence-lo que seria melhor pra todo mundo, a resposta era sempre não, acompanhadas de afirmações típicas de macho ferido: “você tem outro”, “pense nas crianças”, até chegar no absurdo “os incomodados que se mudem” ou “se você sair você perde a casa”. Claro que o motivo nunca foi minha mãe trabalhar há uns 7 anos, das 7 às 7 para garantir o pagamento do carnê da casa, da comida na mesa, da escola e das penduras no seu Viana.

Ela sempre amorteceu dores, jamais se permite abalar, acho admirável essa sua entidade indestrutível, mas vira e mexe tenho vontade de pegá-la no colo e dizer que se ela quiser pode chorar, o quanto precisar, por tudo! A conversa pós-filme foi um desses momentos.

Nessas horas penso, será que isso ficou lá onde deveria estar, nos fim dos anos 90?

Hoje os barzinhos descolados que frequento não me remetem muito ao seu Viana mas seus clientes às vezes lembram a mim e meus amigos. Ok, não tenho uma família me esperando em casa, só duas gatas que notam que cheguei quando balanço a caixinha de biscoito, mas o que me preocupa é essa semelhança, ainda que de vez em quando. Me preocupa ser do tipo que não se preocupa com ninguém, que não tem horas pra voltar, que só vai embora quando fecha o bar. Claro que eu diria pra qualquer pessoa que fizesse essa comparação: “Naaaaão, que isso. Meu pai bebia todo dia eu só vou uma vez por semana”, mas ainda assim me vejo incomodada por reproduzir o vício que machucou tanto.

Talvez seja uma afronta, talvez só saudades mesmo, afinal o mais próximo que chego dele é mantendo viva em mim a parte que o representa.

Aí a gente toca na ferida toda vez que quer sentir aquela dor que já conhece.

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