Miss demasia

Meu erro foi não ter usado a palavra saudade ao invés de ‘miss’.

Nesse ponto e em muitos outros não dispenso o português.

Nem sou lá tão orgulhosa mesmo. Não mais, não tanto. Já perdi pessoas e momentos por faltar com as palavras, hoje perco por tê-las deixado vazar pelo buraco gigante que tenho no filtro entre o cérebro e a boca.

É que sempre fui dada ao exagero, de emoções, de afeto, de não respeito a quem não devo. Blake dizia ser sabedoria, velho Buk insistia que são insanos os equilibrados, já eu tenho um tipo de inveja dos não exagerados.

Às vezes penso essa coisa de saudade é o que existe além da falta. Talvez seja algo dizendo que sim, já estivemos muito perto uma dia e não digo proximidade física desses corpos que sabemos, embora o tocar de pele e o trocar de olhares sejam encurtadores de distância internas muito eficientes. Mas penso que só faça efeito naqueles que já têm pré-instalado um cano que liga os reservatórios dos sentidos.

Pode ser que tudo que penso e digo seja um exagero inflado, uma romântica desmedida, caramelo salpicado, granulado vermelho, açúcar empedrado. Só não é mentira.

Daí, só pra ter certeza de que fui exageradamente clara: eu tenho sim, saudades. E não é tão pequena quanto eu, ela é uma atleta, corre descalça, atravessa cordilheiras, cruzando a Argentina, subindo o Uruguai, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina cada vez que você vem me visitar num lapso de pensamento.


Santiago do Chile, primavera de 2013