Notas sobre trampos, intercâmbio e clichês

Felicidade? Oi? Quem?

Desconheço essa entidade.

E quem nunca cometeu o clichê dessa questão?

Talvez a saiba de longe, de uma visão pixealizada da adolescência ou aqueles hologramas que se formam dos livros de auto-ajuda que nunca terminei de ler.

Não é que me considere 100% miserável, salvo os velhos e falsos pensamentos suicidas ou qualquer uma das depressões que coleciono. Fora isso até acho que tenho, como se diz, uma boa vida. Tenho bons amigos, boas viagens, uma linda família e bons shows na bagagem.

Outro dia disseram que tenho sorte com empregos. Grande bosta e mesmo que fosse eu não vejo sorte alguma, porque é cada perrengue que passo que vou te contar. Desde suportar ego inflado de chefe, assédio moral e sexual, até já ter trabalhado umas 18 horas por dia diagramando revista que não acrescenta em nada da vida de ninguém, me alimentando de pizza há semanas e tirando cochilos rápidos no sofá da recepção de uma editora pra poder aguentar o batente na manhã seguinte. E houve tempo que me orgulhava em dizer que era funcionária de tal ou qual empresa.

Diferente do tempo em que fiz um intercâmbio em Dublin. Uns dois meses depois que cheguei me arranjaram um bico pra limpar uma casa de estudantes. Há quem diga que faxina é um emprego ruim mas ali criei minhas próprias técnicas de diversão: ouvir Strokes era o estímulo para passar aspirador em 5 minutos, The Cure era a trilha de atenção para deixar o banheiro brilhando. Cherish, da Madonna, funcionava bem na hora de lustrar os móveis. Era uma casa linda, enorme, 4 banheiros, 2 banheiras, 2 escadas, 1 sóton. Só ficava puta quando tinha louça de festa do dia anterior, porque vamos ser sinceros, lavar louça de uma festa que você nem participou não dá.

Depois disso fui vender jornal na rua. Usava um uniforme engraçado, um conjunto de borracha laranjão cheio de faixas refletoras pra ninguém atropelar a gente. No começo é foda, precisa economizar muito porque não tem como saber quando se vai conseguir um emprego fixo. Comia feijão enlatado com molho de tomate que custava 30 cents de euro, a metade do que ganhava a cada jornal vendido. Voltava felizona pra casa com o saco cheio de moedas. A gente jogava tudo em cima da cama e contava umas três vezes pra ter certeza. Metade era nosso, metade da empresa. Achava bem justo.

Na minha antiga vida de designer gráfico eu nunca tinha diagramado jornal, mas também nunca tinha pensado em vender eles entre os carros e ficar de boa com isso, ansiosa por viver cada dia.

Conheci gente muito bacana no trânsito, havia quem passasse todo santo dia e diz as mesmas coisas, gente que te fala algo que muda sua vida. Ganhei várias bananas, balas, revistas, músicas, palavras de carinho, promessas de trabalhos melhores ou só um bom dia, boa tarde cheio de energia. Nunca percebi esses pequenos prazeres nos escritórios que trabalhei. Talvez fossem os andares que precisava subir sem nem olhar para as sutilezas da vida.

Resolvi que queria sair das ruas quando um puto dum babaca me atirou uma bexiga com água na nuca, no auge da minha tpm. Chorei tanto, me senti o excremento do parasita do cocô do cavalo do bandido, mas melhorou logo que a menstruação chegou. Além do que isso me deu forças para batalhar e conseguir umas horas em uma lanchonete, que era o que eu queria. Durou pouco, meu inglês ainda não era bom o bastante para entender o dialeto irlandês bêbado pós-balada e minha habilidade em equilibrar pratos e copos também nunca foi lá essas coisas. Pior que a maioria das pessoas pensa que ser gaçonete é fácil mas não é não, requer muita destreza e profissionalismo.

O dia em que tive a certeza de que não podia desistir de sorrir foi quando fazia café num restaurante de shopping. Em uma manhã de pouco movimento o gerente me deixou atender os clientes na porta, adorava recepcionar a galera, ficar observando as pessoas, se vinham sozinhas, com amigos, como escolhiam o que iam comer. Aí teve uma mina que deixou 10 euros de caixinha porque eu sorri pra ela, pode isso? Só sorri, cara. Ela tomou um café de 2 euros, deixou 12 e um bilhete que dizia: “Thank you, your smile made my day”. Achei a coisa mais fofa da vida, mas quem disse que a vida é rosa? Me fodi um bocado nesse mesmo lugar. Carregava caixas pesadíssimas, pelando de quente com umas 60 xícaras de porcelana recém-lavadas, no braço, atravessando o corredor do restaurante que tinha umas 60 mesas e ai de mim se não aguentasse ou parasse no meio do caminho. “O cliente está aqui em busca de uma experiência gastronômica, você precisa ser o mais invisível e silenciosa possível”, dizia o gerente indiano. Acabei trazendo uma tendinite no ombro e várias queimaduras de presente. Mas o porquê de sempre sorrir é uma herança que nada apaga.

Um dos garçons, que era da Lituânia, não gostava de mim, falava que eu não precisava daquele emprego, que eu tinha cara de quem tinha grana (?), que devia voltar pro Brasil ou pedir dinheiro pra minha mãezinha, blá blá blá. Porra! Nunca passei necessidade e sou grata todos os dias por isso, mas desde os 14 que estou no corre, não sabe do rolê do outro melhor nem abrir a boca. Mas acabei não dizendo nada pois ainda não tinha aprendido como xingar direito em inglês.

Me liguei que já era fluente na língua no dia que briguei com um maluco na porta da balada. É sempre no susto que descobrimos fluência em qualquer coisa na vida. Eu era hostess de uma festa e um cara bebaço deu de ligeiro e quis entrar de graça. Falei um monte. Era uma festa fechada, dos amigos, a gente ganhava conforme a quantidade de pessoas que pagavam entrada. Claro que depois me coloquei no lugar dele. Já fiz tanto disso, e já fiz mais um tanto de coisa que sofri de perto, do outro lado do balcão ou da bandeja. Mas a real é que qualquer daqueles ditos sub-empregos eram melhores que aturar gente cheia de pompa que não tem moral alguma. Não é que gringo não tenha pompa, mas ali era mais comum ver chefe colocando a mão na massa e te tratando como gente, como igual. Também era muito bom chegar no final da semana e ter dinheiro suficiente pra pagar o aluguel, comer o que quisesse e ainda tomar umas pints, poder comprar um ingresso pra um festival bacana, ter grana pra ter a jaqueta de couro que sempre quis e claro, viajar pela Europa! Passagem de avião pra Londres tinha desde 5 euros, juro. Ali a diferença social existe sim, trabalhador é abusado como em qualquer lugar do mundo mas ninguém passa fome nem vontade.

Que eu saiba trabalhar é isso, todo mundo conquistando junto, honestamente, sem ser oriundo da exploração de ninguém. Sem esquema de escravidão, o navio negreiro que se repete diariamente nos coletivos dos grandes centros e pagamos caro por ele. Justo mesmo é ser quem se é, ganhar pelo que faz com prazer, com respeito, sem ter que ficar fingindo que sabe mais só porque tem um diploma, um cargo renomado.

Um dia consegui um emprego temporário numa gráfica só porque manjava de um programa chamado QuarkXPress, que eu aprendi lá atrás, naquela editora que eu dormia no sofá (ó, que coisa). Nesse caso assumo a sorte. Ganhava uns 300 euros por semana, trabalhava 4 horas por dia, do lado de casa. Tinha internet, telefone e fim de semana livre. Sussa, até demais. Os chefes super de boa, passávamos as tardes falando sobre a cultura irlandesa, brasileira, sobre viagens e tecnologia. Meu melhor amigo era um cara que chamava Carral, um nome gaélico, e se pronuncia Cárraol, com os erres bem carregados. Foi difícil eu aprender o nome e ele o meu, embora quase iguais na grafia e na pronúncia. Aliás, eu odiava que me chamassem de Quérol. Nome não se traduz, né? É Carol! no máximo Cárol, porque na língua inglesa a ênfase vem naturalmente na primeira sílaba, repara.

Mas voltando pro papo de felicidade, se ela apareceu brevemente na minha vida foi mesmo quando eu passava tardes brincando com as crianças de quem fui babá. Que saudades! Acho que é disso que gosto, gosto mesmo é de brincar. Assumo. Nunca cresci mesmo, nem de tamanho, nem no jeito de falar, pensar, agir. Sou molecona, da rua, descalça, serelepe, desbocada. Esse lance de crescer pra mim falhou, certeza. Tô aqui ó: 33 anos, fugi dos namorado tudo pois nunca quis casar (mentira, até gostaria, só acho que não encontrei ainda o amor certo), não tenho profissão definida, gosto de uma par de coisa mas nenhuma delas me dedico por completo. Tudo que decido fazer paro no meio, porque o que mais gosto é de experimentar. Viciada em novidade, sabe? Tenho a sensação de nunca construí nada que possa dizer: “Isso aqui? Isso aqui é meu, meu suor”. Nem material nem talvez nem em relações. Acho isso muito triste. Não sei ser séria, faço piada com tudo e às vezes também acho isso triste. Sou teimosa, se não quero alguma coisa não faço, simples assim, não sou obrigada a nada. Não tenho planos na vida, não tem emprego que me segure, não tem curso que eu complete, minhas vassouras tudo velha. Só tenho mesmo um computador já ultrapassado, uma máquina de lavar, uma bike que nem comecei a pagar e nem ando todo dia, uns móveis de pallet e só instalei um varal aí dia desses porque a moça que veio morar comigo quis. (Eu seco tudo na máquina porque é mais fácil, saca?)

Pois bem, às vezes penso: que merda é essa que estou fazendo da minha vida? E pra melhorar sempre passei tempão escrevendo sobre tudo sem a menor ideia do porquê ou como transformar em uma profissão, pois também não me acho boa nisso.

Não era mais fácil fingir? Fingir que gostava de publicidade, fingir orgasmo com o namorado, fingir que tudo bem, fingir que estou subindo escada na vida. Sei que seria bem mais fácil, mas tá aí outra coisa que falhei. Só que dentro dessa condição é nisso que se resume meus dias: incerteza e solidão.

Nem sempre sou só, gosto de festas, de beber e ficar filosofando sobre a vida, adoro dançar, viajar então… Vocação para flanar serve? Só preciso assumir minha posição CEO na flanação e ficar ok com isso e, claro, pagar as contas.

Pensando bem será que não é isso, essa tal felicidade? Essa bróda lado a lado dos perreio tudo que passo? Agora, manter ou meter banca de gente metida e fingir ser o que nunca serei, isso não faço, nem que bem me paguem. Mas sinto falta de ser alguém que ainda não conheço e nem sei se um dia saberei.

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