vergonha nua

Que ousadia a minha, tirar toda a minha roupa aqui, estendendo-a sobre os lençois usados da minha cama, e expor-me assim, nua, falando verdades sobre aquilo que eu nem sei.

em que medida a vida pode ser, de fato, confiável? que destrutivas manhãs em que você acorda e calça normativamente seus chinelos de pano e confia que a vida é realmente apenas isso quando na verdade não

é

e você pensa que está tudo bem, e que o seu peito caberá todo dentro de você até que o sol se ponha e a sua alma murche novamente ou até que o dia amanheça e você esqueça como é grande ou até que a vida se vá e não te dê tempo para acordar-

se

a gente soubesse antes mesmo de calçar os chinelos que alguma coisa de errado há, que alguma coisa de grande existe, que o peito não é espaço suficiente para você inteira

mente

para si mesmo quem pensa que a vida é simplesmente só uma palavra, que é previsível o suficiente para poder ser chamada assim, que nada de grandioso acontecerá e de fato não acontecerá quase nunca mas um dia vai, um dia vai acabar acontecendo, antes ou depois de você calçar os chinelos mas com certeza irá, e será grande, e não caberá em você, e será antes do sol de pôr e você se ver pequena de novo, não porque você é, mas porque o mundo te faz acreditar que você precisa ser

á

que a vida é só isso, você pensa, um pouco antes de calçar os seus chinelos e preparar o café - gelado ou quente -, só esse abocanhado de coisas sem sentido plugadas umas nas outras como em uma sequência de cenas que parecem infinitas e parecem demais e parecem que dão uma vida inteira mas quando você vai editar, quando coloca uma atrás da outra e corta aqueles respiros longos ou aqueles vícios de linguagem, no fim de tudo isso, não cabe uma vida toda ali, são uns 8 minutos sofridos de alguma

coisa

essa que nunca vai ser uma vida inteira. vai ser só uma sequência curta, vai ser um pequeno vídeo amador, a sua vida, e talvez alguém até curta mas curta pouco pois a própria vida é curta

mas mesmo assim, mesmo com nossa ridícula falta de noção de tempo e espaço, mesmo assim a vida não vai ser só aquilo que você pensa quando calça seus chinelos, mesmo assim ela será

mais

forte do que você imagina, e algo de grandioso vai acontecer, não sempre, na verdade quase nunca, mas em algum momento, e esse momento vai te provar e te lembrar que não adianta tanta parcimônia e chinelos nem tão escandalosos assim e nem um peito tão contido e nem tão grande assim pois você não vai

caber

dentro

de

si

mesma

para sempre.

e para alguns momentos da vida você terá que caminhar de pés descalços em um chão que é frio, e que lembra água, e que te dá prazer

e que é todo você. Envergonhada, mas nua.

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