O Modismo Político

A detestação política pela tal “politização”


Se alguém me perguntasse para que servem as redes sociais, responderia sem hesitar: compartilhar e promover o emburrecimento.

O Facebook tornou-se uma faculdade. A faculdade do em-bur-re-ci-men-to. Seus alunos, internautas eruditos de suas esquizofrenias fundamentadas em seus discursos de ódio, caem no senso comum e ensaiam um compartilhamento em massa de uma introdução alienada e superficial seja de programas ou de movimentos sociais ocasionando um senso de modismo político, que curiosamente transpõe a imagem do “detesto política, mas sou politizado”. E onde estão seus professores que refletem a maximização da ignorância? Eles atuam desde o cenário artístico até às âncoras televisivas, influenciando suas ideias fortemente reacionárias.

A detestação política pela tal “politização” é um caso curioso, que convém atualmente apadrinhar dois episódios. O discurso do nosso rebelde apolítico, Dinho Ouro Preto. E a entrevista dada pelo ex integrante dos Secos & Molhados, Ney Matogrosso.

Comecemos por Dinho. Dinho em sua pose pragmática de um adolescente desinteressado pela política com sua retórica de ser contra tudo e contra todos, vomitou desinformação de cima do palco de um festival realizado pela família Medina, comprometida em inúmeros esquemas com o governo do Estado do Rio de Janeiro, ganhando licenciamentos sobre custas do dinheiro público, em milhões com patrocínios, recebendo isenções fiscais milionárias e a concessão dos serviços da COMLURB. Após o discurso, o público, em um coro incoerente esbravejou em tamanha revolta insultos ao governador da época, Sérgio Cabral.

A desinformação em forma de rock.

“Todo governo é ruim. A gente descobriu que gostava de falar mal de qualquer governo. Fosse ele de direita ou de esquerda, todos são iguais. A regra básica é: nunca confie em político”


E não é somente Dinho, o cenário artístico está recheado de opiniões equívocas. Ney Matogrosso, em recente entrevista na televisão portuguesa RTP, criticou numa perspectiva do senso comum o Bolsa Família, que recentemente venceu o prêmio ISSA, o Nobel Social — com sede na Suíça, a entidade foi fundada em 1927 e é reconhecida por 157 países e 330 organizações não governamentais —, e está vinculado a diminuição da mortalidade infantil, segundo a revista britânica científica Lancet.

O artista peca ao erro em dizer que os beneficiários do Bolsa Família, fazem mais filhos com intuição de ganharem mais dinheiro, como se “o ato de fazer filhos” fosse a única categoria de condição para se cadastrar no programa. Seu argumento beira a falta de senso crítico, caindo em um dos mitos do “comodismo exercido pelo Bolsa Família”, porém em quase uma década, 1,69 milhão de famílias que saíram espontaneamente do programa se contrapõe a este “raciocínio” corriqueiro, sem o mínimo de sensatez científico-social.

A cegueira histórica de Ney Matogrosso promove o ódio e a criminalização da política, ao qual considero uma afronta à cidadania, acreditando que a corrupção é um mal conservado único na política. Tema habitual da classe média fetichista moralizadora e plataforma durante o regime militar. Critica-se o Estado, nunca o mercado. E qual é a consequência dada por um discurso de âmbito genérico, onde tudo e todos são corruptos? O que fazer?

Uma radicalização do modelo político? Uma insurreição articulada de mudanças? Um levante popular? Uma revolução? Não. A omissão.

A lógica utópica de anular o voto impera um falso poder.

O voto nulo compõe a renúncia de seu direito como cidadão. Um direito que fora construído sobre lutas e derramamento de sangue ao longo do século XX é desfeito na nulidade do voto, que se apresenta como uma bandeira ideológica de mudanças. É compreensível a desesperança com o sistema político brasileiro e sua não representatividade ao eleitor, porém a anulação de votos não serve como pressão política. Anular o voto sem a consciência crítica é assumir o papel de Pôncio de Pilatos contemporâneo. Se isentar, lavar as mãos, fugir de seus deveres e responsabilidades frente a sua própria soberania popular. A omissão só interessa ao status quo.

A circulação em redes sociais de que caso a eleição obtivesse mais de 50% votos nulos, seria cancelada, é falsa. E quem afirma isso é nada menos que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio. A leitura equivocada do Código Eleitoral evidencia o modismo político. Todavia, a democracia está sendo reduzida ao fator eleitoreiro. Democracia não se faz presente apenas em ano de eleições. Democracia não é só voto.


E eu diria que o modismo político é a grande graça atual, pela sua falta de perspectiva histórica, ele serve como um canto aos ouvidos dos setores reacionários e direitistas, cooptados pelo aparelho midiático que produzem chavões e estereotipações que influenciam e matam. Tendo tanta responsabilidade quanto aquele que agride e conduz suas teorias na prática. Mas esta conversa a gente deixa para depois.

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