Surfista de sofá

Quando decidi fazer uma viagem de seis meses pela Europa, minha irmã me perguntou se eu já havia ouvido falar sobre Couchsurfing. “Parece legal, tenta”, disse ela.

Pesquisei sobre o site e fiz um perfil, sem intenções concretas de usá-lo um dia. Eu até nutria simpatia pela proposta do projeto — afinal, encontrar pessoas pelos mais diversos lugares do mundo, dispostas a lhe emprestar um colchão e, quem sabe, lhe mostrar a cidade em que vivem, gratuitamente, soava muito bem. Só que também soava perigoso. Entrar na casa de um desconhecido sozinha, estando do outro lado do mundo, sem nem um sprayzinho de pimenta em mãos? Não. Eu jamais faria essa loucura.

Após dois meses e muitas conversas com viajantes de vários lugares do mundo, a maioria bem mais experiente que eu em matéria de viagens, minha opinião começou a mudar. Muitas pessoas, meninos e meninas, me contavam sobre grandes experiências que tiveram como couchsurfers. Chamava a atenção o fato de ninguém ter algo negativo para falar. Pelo contrário: eu só ouvia boas recomendações e era incentivada a tentar. Enfim, resolvi experimentar.

Escolhi Tours, uma pequena cidade da França, para minha estreia no Couchsurfing. Meu anfitrião se chamava Zied, um rapaz de 28 anos nascido na Tunísia que fora para a França estudar. O combinado era que Zied me encontraria na estação de trem de Tours, a partir de onde iríamos para sua casa, onde eu ficaria por duas noites.

Logo que cheguei na estação, senti que o nervosismo tomava espaço em mim rapidamente. Pensava comigo mesma que eu teria sorte se não acabasse sem mochila e dinheiro depois de ir ao apartamento de um estranho no meio da França. Mas, quando meu anfitrião chegou, levei menos de um minuto para esquecer tudo isso.

Zied acabou revelando-se a pessoa mais gentil e generosa que já conheci. Deu-me cópias das chaves de sua casa após 20 minutos de conversa, explicando que sairia muito cedo para o trabalho e que eu poderia dormir mais que ele no dia seguinte. Riu quando perguntei se ele não tinha medo de entregar as chaves de sua casa para uma estranha e disse algo que eu jamais esquecerei: “Eu tenho como filosofia de vida que as pessoas são sempre boas. Meu primeiro voto é de confiança, mudo de opinião apenas se for necessário”.

Divertido e inteligente, Zied mostrou-me a cidade abaixo de chuva, cozinhou pratos típicos da Tunísia, ajudou-me a definir um roteiro pelos lindos palácios ao redor de Tours. Ele me ensinou sobre confiança, sobre generosidade, me incluiu em uma corrente que consiste em ter vontade de fazer o mesmo pelos outros. Com Zied, descobri que Couchsurfing é algo absolutamente fantástico.

Nos quatro meses seguintes, tive mais seis anfitriões: um italiano que adora pescar e me levou de moto a pequenas praias desertas em La Spezia; um francês que vive no interior da Inglaterra, grande conhecedor de cervejas; um marroquino que ama o Reino Unido; uma menina chinesa de 21 anos que mora em Glasgow, que confessou o temor de ter que se casar com um rapaz a quem não ama quando voltar à China, após o fim da faculdade, e que chorou um choro sincero quando fui embora; um escocês legítimo, solitário e idoso, realizado por ter alguém com quem conversar por horas; e um francês engraçadíssimo, que fumava haxixe desde a primeira hora da manhã. Mantenho contato com todos eles — com alguns mais frequente, com outros menos. Nossa amizade tornou-se virtual, mas espero reencontrá-los um dia, de preferência como anfitriã, se vierem ao Brasil.

Tornei-me grande incentivadora do Couchsurfing. Recomendo, sem nenhum receio de estar enganada, que todo viajante, sozinho ou não, viva essa experiência. Que se permita aceitar a generosidade de desconhecidos, que não levam muito tempo para serem alçados à categoria de grandes amigos. Que procure a companhia de pessoas com tempo e disposição de lhe contar coisas sobre sua cultura e a cidade onde vivem e que estejam curiosas para ouvir tudo o que você puder contar sobre seu país. Que lhe proporcionem experiências únicas, recheadas de afeto, e que lhe despertem um sentimento lindo, chamado gratidão.

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