Uma lista de vantagens de viajar sozinha

1) Sozinha. Às vezes.

“Viajar sozinho” não significa ter que encarar a solidão. Você pode decidir viajar sem a companhia de alguém, só você e uma mochila (algo que eu recomendo fortemente). Mas, quando botar o pé na estrada, a solidão só será sua companheira quando você optar por isso (abracei essa opção muitas vezes). Estar sozinho significa estar aberto a conhecer pessoas, a engatar conversas memoráveis em trens, ônibus e hostels. Significa não ter vergonha de puxar papo com pessoas bem diferentes de você: mais velhas, mais novas, mais loucas, mais chatas, mais divertidas, mais experientes. Ou menos. Significa rir por horas dos barulhos vindos do quarto ao lado no hostel, junto de seus colegas de dormitório recém-conhecidos, numa cumplicidade discreta. Significa fazer amizades que podem se mostrar mais fortes do que você podia esperar. Significa se dispor a algo que talvez seja o maior presente que uma viagem pode lhe dar: encontrar seres humanos legais, muito legais, inesquecivelmente legais.

2) O luxo do egoísmo saudável

Se você quer adiar o almoço até as cinco da tarde porque caminhar pela cidade é mais importante que a fome, adie. Se quiser economizar dinheiro comendo pão numa praça, economize. Se quiser reservar uma tarde de sol para ler um livro em um gramado ensolarado, cercada por cachorros felizes correndo com seus donos, reserve. Se quiser dormir até mais tarde porque a ressaca lhe impede de sair pra caminhar de manhã, durma. Se quiser mudar os planos e incluir uma cidade no roteiro, inclua — você não precisar consultar outras pessoas pra isso. Se não gostou tanto de um lugar e sentiu vontade de ir logo pra outro, vá. Se gostar tanto de um parque que os planos de ir ao museu merecem ser cancelados, passe a tarde deitada lá. Se estiver sozinho, você não vai ter que ouvir ninguém reclamando de fome ou dizendo que pão não é almoço. Você não precisa estar junto de alguém com vontade de investir a tarde toda em leitura, e você também pode sofrer sua ressaca sozinho — afinal, o mérito da conquista daquela dor de cabeça é só seu. Viajar sozinho é ser dono do seu roteiro, de seu cardápio, de cada um dos seus minutos. E isso não tem preço.

3) Cada refeição torna-se inesquecível

Sou louca por gatos. Não resisto a um bichano e não tenho vergonha de implorar por um pouco de atenção quando vejo um. Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais me apaixonei perdidamente pela Grécia: há gatos por todos os lados, especialmente na capital, Atenas. Quando estava nessa cidade, passei por um restaurante pequeno, escondidinho atrás da Acrópole, com mesas ao ar livre. Decidi entrar e escolhi uma mesa que já tinha um simpático ocupante: um gatinho ruivo, sentado preguiçosamente em uma das cadeiras. Ele não apenas não se incomodou com a minha presença, como também aceitou um cafuné. Aguardou comigo o peixe que estava a caminho e foi minha companhia durante o almoço. Me fez rir de sua competência para conseguir mais um pedacinho de carne, com a típica consciência felina sobre a própria fofura. E ainda me rendeu uma sobremesa grátis, dada por um garçom admirador de gatos, que sorriu largamente ao ver o peixe sendo compartilhado com o peludo. Quando viaja sozinho, você aprende a aproveitar suas refeições a seu tempo, com os pensamentos que mais lhe convierem no momento, e com a vantagem de poder permitir uma companhia inesperada. Você aprende que o momento de comer pode ser muito mais especial do que prometia ser. E que não precisa de palavras para curtir cada segundo de uma boa refeição.

4) Passe vergonha à vontade

Virei uma manteiga derretida viajando sozinha. Descobri, por exemplo, que uma paisagem pode me levar às lágrimas pelo simples fato de ser inacreditavelmente linda. E descobri que, quando isso acontece, o melhor que posso fazer é sentar e chorar à vontade, com o George Harrison cantando nos meus fones de ouvido, sem ter que explicar a ninguém que meu choro é só porque ver Paris do alto de uma colina me faz derreter de emoção. Um dia, eu caí como fruta madura, na fila de uma estação de trem em Barcelona, ao botar minha mochila de 13 quilos nas costas sem o devido preparo. E ri muito, agradecendo por nenhuma testemunha chocada saber meu nome. Fiquei com medo de altura pela primeira vez na vida e me vi paralisada por alguns minutos na escada da Torre Eiffel, sem saber se devia descer ou subir o resto. Tropecei no meio fio e caí de quatro na beira do rio Sena em Paris, em meio a casais românticos e bem vestidos. E adoro saber que várias lembranças pouco glamourosas são minhas, apenas minhas, e eu não precisei dividir com ninguém.

5) Você descobre que é sua melhor companhia

Essa é, na minha opinião, o ponto mais importante de fazer uma viagem sozinho. Você descobre que não há ninguém no mundo capaz de lhe fazer tão feliz quanto você mesmo. Que suas alegrias, suas tristezas e seus pensamentos são os mais profundos que podem existir. Que ouvir suas músicas preferidas e caminhar assobiando na rua, sem rumo nem mapa, podem lhe dar uma satisfação indescritível. Que sentar em um gramado ensolarado e pensar na vida te fazem crescer e se sentir vivo. Que passar por apertos sozinho faz você se sentir um super-herói com poderes pra resolver qualquer perrengue. E que, se você é capaz de fazer amigos e conhecer pessoas sensacionais, é porque você também é uma pessoa legal. Você é a pessoa que mais entende você, você sabe como ser feliz com coisas pequenas da vida. Você é sua melhor companhia e passar um tempo com sua melhor companhia só pode lhe fazer bem. Muito, muito, muito bem.

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