Água Salgada

Precisei tomar banho,
O verão estava cruel nesse ano.
Talvez não mais cruel
Que a falta de ânimo que eu apresentava,
Já que era massacrado todos os dias pela vida.

Se o problema fosse só esse, ficaria até feliz,
Mas a ferida é bem mais profunda.
Então, inúmeros problemas surgiram na minha cabeça,
Faltaria até papel para escrevê-los.

Todas as emoções erradas,
Fundiram-se em uma gigante bola de neve,
Que, também agredida pelo aquecimento,
Começou a derreter.

Então as lágrimas brotaram em meu rosto,
E por alguns segundos senti o refrescar.
Mas a alegria durou pouco,
E elas se misturaram com o suor
Que fazia meu rosto queimar.
Ali vi que já não havia saída.

Mas eu ainda precisava tomar banho,
Então sonhei que a água lavava a minha alma, assim como o suor.

Decisão tola, eu reconheço,
Pois o inesperado aconteceu.
A água limpou minha alma,
Mas nenhum sentimento ou coração restou.

Então eu, assim como a bola de neve,
Me pus a derreter,
Até que escorri pelo ralo.

Agora sou esgoto.
Nada mal para quem,
Enquanto estava em vida,
Se maltratava com adjetivos piores.