Ela lavava roupa pra fora aos finais de semana, não bastasse a semana sendo doméstica. Eu em meu balanço, bolacha maria na mão, via ela bater roupa na tábua do tanque enquanto cantava a plenos pulmões “ANO PASSADO EU MORRI MAS ESSE ANO EU NÃO MORRO” em muitas vezes com o rosto encharcado de lágrimas. Demorei para lembrar onde Belchior entra na minha vida e em mim no dia da notícia da sua morte.

A memória afetiva de uma mãe neurotipica, vítima de um companheiro psicopata que fazia de seus dias de dores, escada pra subir e seguir em frente. Amando e mudando aquilo que lhe interessava mais.

Essa lembrança que hoje só não me sai da memória e não me deixa parar de chorar. É a memória da minha própria força e também de onde eu aprendi a buscar forças no cantar aquilo que fala de mim e pra mim.

Porque no fim parece sempre que somos os mesmos e de alguma forma, a gente vive como nossos pais.

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