3000 quilômetros, um aprendizado e uma despedida

Ficar longe da própria vida é uma maneira interessante de entender coisas que importam para nós. Eu fiquei quatro meses longe da minha vida.

Este é o segundo momento no ano de duro julgamento por parte de gente que não faz ideia do que estou passando. É muito simples dizer que as escolhas alheias são erradas, egocêntricas ou burras quando a gente nem ao menos perguntou ao outro o que se passa, como estão seus encontros, seus afetos, seus (des)equilíbrios.

E cá estou eu, abandonando um cargo concursado numa Universidade sensacional, onde tive uma das mais incríveis experiências profissionais da minha vida. E o que ouço — o mais curioso é que não dizem diretamente para mim —num telefone sem fio cheio de perdas de imagens importantes para a montagem do todo, é toda sorte de críticas negativas e destrutivas. “Mas como ela vai largar um emprego desses, com um salário desses, numa Universidade dessas, no cenário político em que nos encontramos?”; “Ah, ela deve ter nascido em berço de ouro, não sabe dar valor para as coisas”; “Se eu tivesse essa oportunidade, agarraria com unhas e dentes”; “É louca, mesmo”. E, apesar de fazer de tudo para que esses comentários não me afetem, devo confessar que têm me feito sofrer um bocado. Quem convive — de verdade — comigo sabe que não gosto de me expor, que tenho muita dificuldade em colocar questões pessoais na mesa (e não considero isso um traço negativo, mas isso é matéria pra outro texto), então um texto desses tem um peso incomensurável. E ele não trata só de mim. Ele trata de uma questão que surgiu por conta dessa minha experiência: essa onda de julgamento ao outro que se configurou como normativa no nosso modo contemporâneo de se relacionar com as pessoas. Um moralismo focado apenas nas discussões generalizantes — apesar de importantes — que circulam nas redes. Julgamos o outro sem fazer a menor ideia do que ele está passando, usando como base apenas essas discussões em circulação. Mas nossa vida — pelo menos por enquanto — não se limita a essas discussões. Seria interessante se tentássemos enxergar as pessoas para além das notícias compartilhadas, das selfies publicadas (ou não publicadas, como costuma ser no caso em questão), da posição política assumida em determinada circunstância. Todas essas coisas são importantes e fazem parte do cotidiano, mas os encontros são muito mais do que isso.

Encontrar uma pessoa significa compor um pedaço da nossa própria vida com ela. Significa olhar pra ela enquanto olhamos para nós mesmos, percebendo o que somos e deixamos de ser nesse encontro, encontro que, aludindo às palavras dos meus filósofos do coração, pode compor ou não. Pode ser um bom encontro, aumentando nossa potência de existir, ou pode ser um mau encontro, produzindo uma redução da nossa potência.

Não temos como compor com alguém se antes mesmo de encontrar essa pessoa nesses termos, já fazemos um julgamento de antemão. É como se estivéssemos incessantemente impedindo a vida de fluir nos encontros. E esse julgamento, pode ter certeza, vai ser um mau encontro, tanto na composição com o corpo de quem faz quanto com o corpo de quem recebe.

Essa foi uma das constatações que surgiram nessa experiência, nesses quatro meses longe de mim mesma. 3000 quilômetros e quatro meses longe de mim mesma. Alguns pensadores alegam que é necessário um afastamento espaço-temporal para que se consiga enxergar um fenômeno. Esse fenômeno micropolítico acho que consegui enxergar bem. Tive o afastamento, mas é hora de voltar para casa. Hora de compor com o que realmente importa para mim. Abandonar os maus encontros surgidos nesse distanciamento, carregar comigo os bons, continuar compondo com eles na memória.

A Unilab vai continuar dentro de mim. Em especial a luta pela manutenção desse projeto extraordinário, os alunos incríveis que tive, as caronas pós-aula entre Redenção e Fortaleza, que renderam muitos contos. Uma hora sento e componho tudo isso em narrativa. Só não carregarei comigo esse julgamento duro de quem não faz ideia do que estou passando (e vai continuar sem saber, porque não há composição nesse tipo de mau encontro).

Agora vou sair da frente do computador e voltar pra minha vida. Ela esteve em stand by e aguardou pacientemente a minha volta.