Um guia para tentar entender a PC Music

Volta e meia surgem pequenos movimentos e subculturas que o excesso de informação — ou a falta de pauta de alguns grandes veículos — transforma em notícia e dá um valor, na maioria das vezes, superior ao que o movimento merece. Talvez seja isso que aconteceu com a PC Music.
A PC Music é uma gravadora que em menos de dois anos de vida já conquistou um espaço e fama bastante grandes no famigerado mundo da música.
Eles apresentam uma característica bastante diferente nos trabalhos que lançam. É como se os caras fossem um buraco negro, eles sugam todo tipo de referências e soltam, do outro lado, um apanhado bem estranho, às vezes complexo, e de música POP.
Muitos veículos importantes vem dizendo que ela é responsável pela criação de uma subcultura, um subgênero da música pop. O mistério em torno de tudo que eles fazem acaba influenciando para a criação dessa mística que a PC Music ganhou, mas isso não tira a qualidade e a aparente tentativa de fazer algo diferente do que vem sendo feito no mundo de Rihannas, Lady Gagas, Taylor Swifts e outras. O mais interessante é que a gravadora pode muito bem ser o resultado de um projeto artístico, uma piada ou experimento.
Por esse e outros motivos vamos abordar as principais características que fizeram a PC Music ganhar destaque em veículos como NPR, Vice, Guardian, Pitchfork e tantos outros sites gringos nos últimos meses.
“O selo se chama PC Music, o que faz referência ao quão crucial o computador é como ferramenta, não apenas para criar música eletrônica, mas também para a música amadora e seu grande potencial, é onde a diferença entre o que é feito em um quarto e em um estúdio profissional pode ficar bastante ambígua.”
A. G. Cook, fundador da PC Music em entrevista à Tank Magazine.
Um movimento sem cara, mas bem maquiado

A PC Music foi fundada por A. G. Cook. O cara é um produtor londrino que sempre teve uma forte relação com a música POP e sempre se mostrou interessado em levar isso ao extremo. Além disso, Cook já comentou em entrevistas que gosta de produzir pessoas que não estão acostumadas a fazer música.
Ao ouvir algumas músicas sou capaz até de imaginar que Cook escolhe pessoas aleatórias pra criar música, auxiliando durante o processo. No fundo essa música seria criada pela principal cabeça pensante da PC Music, mas ‘guiada’ por alguém que tem pouca, ou nenhuma, experiência com criação músical – ao menos tecnicamente.
A. G. Cook tem crédito em diversas músicas da PC Music, entre elas Nu Jack Swung, “Keri Baby” [ft. Hannah Diamond], “Beautiful”, Dux Content’s “Like You” e Lifestyle — ele ainda contribuiu com as artes de para os lançamentos de easyFun e Maxo; em, segundo a Pitchfork, o rapaz deu uma mãozinha na criação de easyFun e Lipgloss Twins.
As identidades, rostos e informações dos demais músicos da PC Music sempre são meio sombrias.
Temos alguns nomes de maior destaque como Sophie – que divide com A.G Cook os créditos por QT, maior sucesso da PC Music até agora, Hannah Diamond, Kane West, GFOTY e o próprio A.G. Cook. O resto dos nomes sempre são cercados de purpurina, glitchs e sombras. Nenhum artista parte da PC mostra muito sua cara, ou assume uma personalidade diferente da ‘apresentada’ pela gravadora. É como se a atitude deles nas redes sociais fizessem parte do show. Ok, isso acontece com todo artista, mas quem faz música para a PC Music tem algumas particularidades.
Outro fator interessante: praticamente todos os nomes lançados pela gravadora de Cook surgiram com a PC Music. Ninguém tem background ou lançamentos anteriores, EPs, singles… o que seja.
Geralmente as postagens das redes sociais dos artistas fazem referência apenas ao trabalho deles e de outros artistas da gravadora e, além disso, eles dificilmente – para não falar nunca – expressam opiniões ou saem do personagem.
Um dos exemplos é Felicita – que você ouve abaixo. Quando você chega no perfil de Instagram da suposta autora – pelas imagens do Soundcloud da PC Music imagina-se que é uma menina oriental, descobre algumas fotos um adolescente, alguns vídeos – com efeitos que impedem de saber de quem realmente estamos falando – e fotos que parecem versões analógicas de glitchs de computador.
É como se a PC Music não tivesse um nome principal. Ok, A. G. Cook está envolvido com praticamente tudo que os caras fazem, mas ainda assim falta um nome de destaque, alguém que seja porta-bandeira do suposto novo estilo de POP.
A estética

Um movimento sem uma cara ou um nome forte que carregue sua bandeira tende ao fracasso. E talvez seja por isso que a PC Music usa de outros artifícios para ser facilmente reconhecida. A mistura do camp e do kawaii é o que caracteriza todos os grupos, pessoas ou responsáveis por tudo o que o selo lança.
Segundo a Pitchfork, a provável responsável pela (ou falta de) identidade visual da PC Music é uma de suas artistas mais conhecidas, Hannah Diamond. Além de ter lançado algumas das músicas mais bacanas da gravadora, a menina é ‘image maker’ da Logo Magazine.
Para definir o estilo da PC Music vamos tentar algo diferente: imagine que você está mascando um chiclé sabor música pop dos anos 80 e ele tem pequenos cristais de glam rock – mas só o visual do estilo musical. Agora imagine que toda saliva que é gerada na sua boca representa a influência do J-pop e do K-pop. Isso poderia definir bem (?) a estética da gravadora e todos seus artistas.
Nas nossas pesquisas descobrimos que Hannah não trabalha sozinha, ela se uniu a William E. Wright, e juntos eles respondem como Diamond Wright. Hannah é a fotógrafa, William o diretor de arte.
Sobre ‘camp’

É o nome dado ao que é teatralizado ao máximo, mas o estilo não é só isso. Ele tem uma forte ligação com o kitsch. O camp é associado com subculturas gay masculinas. Para algo ser considerado camp ele precisa ser exagerado, afetado, ostentoso e teatralizado. É como se sua vida fosse uma grande novela mexicana e você contracenasse com personagens como Andy Warhol e RuPaul.
Sobre ‘kawaii’

É o nome dado para uma das principais características da cultura popular japonesa. O J-pop com seus clipes e roupas multicoloridas, suas músicas felizes e o sexy infatilizado é considerado exemplo da cultura kawaii. Tudo que é cute, e isso numa esfera da cultura pop oriental, é considerado kawaii.
Uma bizarra reunião de referências

J-pop, K-pop, R&B, trance, chipmunk, 8 bits… essas são algumas das referências onde os artistas da PC Music parecem buscar sua inspiração. Muitas vezes eles vão além, talvez até sem saber.
Algumas das músicas lançadas por eles são como GIFs sonoros. Quer dizer, se GIFs tivessem som, acredito que esses sons seriam bem parecidos com algumas das músicas lançadas pela gravadora. É como se pequenos momentos em looping fossem reunidos na criação de músicas, como assinaturas musicais.
“Às vezes eles soam como uma página do Tumblr, cheia de reblogs e customizações quase incompreensíveis. Mas talvez esse seja o objetivo.”
Erik Ducker, colunista da NPR, em uma conversa com Alex Frank, da Vogue.
No último halloween o selo promoveu o streaming de um set com músicas de diversos artistas lançados anteriormente. O streaming está completo no YouTube e, preste atenção, pelo minuto 5 foram utilizados diversos sons de – perdoe o meu francês – peidos. Isso mesmo. Um solo de peidos. Tudo no melhor clima kawaii.
Além de fazer uma espécie de tradução do que o J-pop tem de mais clássico para algo mais POP – mesmo que nem sempre de fácil compreensão para todos – o que trabalho lançado pela PC Music varia seu tipo de música, mas sempre vive dentro do mesmo universo.
Algumas músicas claramente são mais experimentais, muitas parecem ser apenas sons gravados despretensiosamente, outras são mais trabalhadas, recebem mais importância e em aspectos fundamentais, como ritmo e clareza dos elementos, e são criadas com o objetivo de ‘agradar’ um maior número de pessoas.
Do lado mais experimental podemos colocar felicita, e Kane West, do mais POP e trabalhado.
Abaixo você pode ouvir Kane West.
A grande somatória do que o selo já lançou no seu canal no Soundcloud mostra um trabalho que poderia muito bem representar um mundo virtual. É como se o próprio computador brincasse com todas as possibilidades que sua capacidade de processamento oferece.
Vozes masculinas transformadas em vozes femininas e transformadas mais uma vez em efeitos chipmunk. Barulhos incompreensíveis. Usos de efeitos em looping. Reutilização de qualquer tipo de som que pode ser encontrado. Todas essas são características de obras da PC Music.
É como se tudo fizesse parte de uma grande rave criada para que os computadores dancem sem pensar no amanhã. O glitch do sistema é que podemos participar também.
No fim das contas a PC Music tem um futuro em aberto. Não sabemos se tudo é uma grande piada ou se a gravadora se tornará o ícone de uma possível revolução no POP.
Dito isso, fiquem com o maior sucesso dos caras até agora, QT. Que é o resultado da união de Sophie e o cabeça da PC Music, A. G. Cook.