Brigada Militar ataca protesto enquanto Comtu legitima o aumento da passagem

Por Douglas Freitas

Na manhã desta quinta-feira (3 de março) aconteceu o quarto ato do Bloco de Luta pelo Transporte Público contra o aumento da passagem de ônibus em Porto Alegre. Saindo da Colégio Estadual Júlio de Castilhos (“Julinho”), os manifestantes caminharam pela avenida João Pessoa, Ipiranga, rua Lima e Silva, chegando na rua João Neves da Fontoura. O destino era a sede da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), onde acontecia uma reunião do Conselho Municipal de Transportes Urbanos (COMTU). Ali, outros manifestantes recepcionaram o grupo que vinha do Julinho. Ao todo, cerca 150 pessoas participaram do ato.

Em frente a EPTC, dois conselheiros que chegavam para a reunião foram indagados se votariam contra ou a favor do aumento. O representante do Sindicato dos Rodoviários, Emerson Dutra, respondeu que “voto sempre pelo povo”. Manifestantes não curtiram a frase: o conselheiro então recebeu um abraço coletivo, foi chamado a cantar junto gritos de protesto contra o aumento, chegando a ser empurrado. Nesse momento, ele falou, em voz alta, que ia ter que partir para a ignorância se não deixassem ele entrar na reunião. Assim entrou, com o paletó rasgado. Qual terá sido seu voto, afinal?

O ato da manhã desta quinta foi protagonizado pelos secundaristas de Porto Alegre. Diversos Grêmios Estudantis participaram, dominaram o megafone e a bateria, principalmente mulheres. A maioria (contei cerca de 70%) dos manifestantes que compuseram a marcha hoje eram menores de idade. Foi contra estas pessoas que o Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar (militar até quando?) interviu, sem abrir possibilidade de diálogo. O tenente deu entrevista para a Rádio Gaúcha e Jornal do Comércio (veja o vídeo aqui) dizendo que os manifestantes não dialogaram para acharem uma forma conjunta de obstruir a via, ocupando uma pista só.

Em ordem de acontecimento, o que aconteceu: 
1) Participantes do protesto fecharam a Ipiranga. Agentes da EPTC tentaram intervir, mas os manifestantes pediram para que aguardassem um momento. 
2) Convocam um jogral, megafone humano, para combinar uma estratégia de obstrução da via, e os agentes da EPTC estavam na escuta para saber dessas informações. O combinado foi desobstruir a Ipiranga, deixar que os carros trancados escoassem e, quando a sinaleira da João Pessoa fechasse, voltassem para a pista. 
3) No momento em que os estudantes saiam da via, a maioria já na calçada em frente a EPTC, a Brigada lançou bombas de gás no meio deles. Segundo os manifestantes (eu não vi), também teve bala de borracha, o que acabou por fazer a galera para correr no meio dos carros, que também fugiam das ações.

Professor de filosofia do Julinho teve foi atingido e teve o casaco e a calça queimados, mas não se feriu.

O Correio do Povo noticiou o ataque da polícia como “confronto com os manifestantes”. Um homem grisalho desceu do carro aplaudindo a polícia e quando foi filmar a ação foi posto para correr pelos próprios brigadianos. Na correria, segundo os manifestantes, sete estudantes se machucaram ou passaram mal pelo efeito do gás. Rolou um reagrupamento no posto de gasolina na esquina da avenida João Pessoa com a Ipiranga. Estudantes foram tranquilizados. Depois de uns minutos, todos caminharam, agora pela calçada, até a praça em frente ao colégio Júlio de Castilhos, ponto de partida do ato. No coreto, aconteceu uma assembleia rápida. Novamente os secundaristas protagonizaram. “Sou do grêmio estudantil do Protásio Alves, meu colégio tá caindo, tamo sem aula, mas tô na luta”; “Temos que nos inspirar nos estudantes de São Paulo que ocuparam as escolas”; “Parabéns para as gurias que deram exemplo hoje”; “Não vai ter bomba de gás que vai nos desmobilizar. Segunda-feira vai ser maior”.

Paralelamente a assembléia dos estudantes, a reunião no COMTU, convocada pela Prefeitura, acontecia na sede da EPTC. Segundo o site da Prefeitura, o conselho é composto por 23 pessoas; sete representantes da própria prefeitura (Smov, SMURB, PGM, Carris, EPTC/SMT, Smam, OP); três da comunidade (Umespa, Uampa, Fetapergs); oito de categorias profissionais ou de classe (CUT, Crea, BM, STETCUPA, Sintepa, Sintaxi, ATL, ATP); dois do Estado (Detran, Metroplan) e, por fim, três categorias que ainda estão aguardando a avaliação de seu ingresso no conselho — mas que são listadas como participantes.

A reunião de hoje teve 16 votos; 12 a favor do método usado pela Prefeitura - ou seja, legitimando o aumento da tarifa -, quatro contrários e sete ausências. Não há em nenhum lugar público a informação de quem votou em quê, inclusive na notícia da Prefeitura sobre a reunião.

Se a passagem aumentar, como é provável que aconteça a partir dessa decisão, os manifestantes dizem que segunda-feira o protesto será muito maior.

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