Mimimi quero gozar

Vi este meme sendo compartilhado no Facebook. Parei de rolar a página para ver quem o havia compartilhado. Observei o número de “curtidas” aumentar, vi se assomar um comentário concordando veementemente com o que está escrito na imagem. E me senti profundamente incomodada. Incômodo nada estranho para quem costuma vasculhar a sua “timeline” da rede do Zuckerberg.

O incômodo, a princípio, me pareceu como aquele de que já havia ouvido falar: a felicidade alheia entristece os demais. E o Facebook, painel de felicidades alheias, seria, portanto, uma máquina de entristecer. Pensei que estava diante do “post” de alguém que não se importa com as tantas questões que vem me enchendo de “mimimi’s” ultimamente; questões que abarcam desde o cenário político do país, as guerras no exterior, até as relações de amizade e amorosas. Questões que se impõem de tal forma que me impedem de concordar com a frase e que fizeram com que me sentisse uma estranha frente a todas aquelas pessoas que celebravam poder gozar sem elas, as minhas questões.

Depois de passar quase todo um dia pensando nesse meme — veja o poder que um meme de Facebook pode ter — , acabou me invadindo outro pensamento. Talvez eu não estivesse errada em insistir nos tais “mimimi’s” em vez de simplesmente buscar um gozo descompromissado. Talvez, esse hedonismo exacerbado que busca anular o mundo ao redor seja ele mesmo um erro. Pensando assim, me pareceu que, embora soasse “cool”, a frase do meme estaria extremamente equivocada.

Pensei nos nostálgicos anos 60 e 70 quando da dita revolução sexual. O sexo era um ato político consciente. O prazer não era buscado pura e simplesmente para se ausentar do mundo e de seus “mimimi’s”, mas era uma forma de se opor ao que o capitalismo oferecia como meios de obter o prazer. O consumismo foi negado pela geração de hippies que optou por vidas simples, compartilhando o pouco que tinha com sua comunidade. A guerra foi negada por estes mesmos hippies através de sua filosofia do amor livre. “Make love, not war”, cantou John Lennon (imagino-o sentado desnudo na beira da cama, violão na mão, compondo as primeiras letras da canção enquanto Yoko lhe observa com ternura e visualiza uma performance artística).

Os “mimimi’s” estavam inseridos no sexo. Eram parte integrante deste. E isso, acredito, possibilitava um gozo enaltecedor, encorajador, libertador. O outro era parte indispensável naquela luta em que o sexo era a arma. O outro não era um objeto, mas um parceiro de grande importância. Se diferenciava veementemente dos produtos vendidos nas prateleiras do capitalismo que prometiam felicidade e gozo fáceis, “sem mimimi’s”. A inclusão do outro se dava devido a um objetivo em comum: um mundo livre, sem desigualdades e repleto de amor.

O meme que tanto me incomodou e que me mobilizou a escrever este textão revela o hedonismo associado ao individualismo e, consequentemente, ao consumismo capitalista pós³-moderno (me permito o expoente para ironizar este tempo que dizem já ter ultrapassado tanto, mas que parece só retroceder). Não sou psicanalista, mas sou uma frequentadora de salas de terapia e busco ler bastante a respeito. O que escreve a psicanalista Isabel Fortes a respeito do que chama de “hedonismo contemporâneo” vai muito de acordo com o que esbocei nesses pensamentos ao longo do dia.

Citando Guy Debord, Zymund Bauman, Jean Baudrillard, Zizek Slavoj, Sigmund Freud, entre outros, a psicanalista afirma que:

“Constata-se que na contemporaneidade ocorreu uma mudança nas formas de subjetivar-se, sendo uma destas modificações observada no modo de o sujeito relacionar-se com a dor como algo a ser evitado. Portanto, falar do sofrimento hoje é tocar em uma questão crucial, pois o que caracteriza o homem na atualidade é o hedonismo, o imperativo de ter prazer e evitar o sofrimento.”

E continua:

“Como um objeto de consumo qualquer, o outro da relação pode ser também rapidamente descartável. Há, assim, uma relação predatória do outro, que só existe de forma ‘útil’, na medida em que é fonte de prazer para o eu, afirmando-se aqui o utilitarismo nas relações interpessoais, que prega que o outro pode ser reduzido a mero objeto de troca.”

Aqui a psicanalista iluminou um pouco do que vinha me incomodando ao longo do dia. Afinal, essa negação dos problemas que vivemos, tratados como os “mimimi’s” que também se referem às críticas frente àquilo que antes era normatizado como, por exemplo, relações machistas ou racistas, está fortemente associada à assimilação do capitalismo pelo indivíduo em suas relações mais íntimas. Parece que, de fato, os hippies dos anos 60 e 70 saíram perdendo: hoje em dia, pode-se erguer a bandeira do amor livre à vontade e, através dela, reafirmar o sistema capitalista que objetifica o corpo do outro. O outro é um artigo da prateleira capitalista.

Não estou dizendo que todos aqueles que buscam sexo fazem exatamente isso. Mas não consigo dissociar a ideia de “sexo fácil” da ideia de consumismo. Buscar sexo no Tinder, por exemplo, pode ser o mesmo que buscar uma pizza no Restaurante Web. Em minha experiência no aplicativo, vi em inúmeros perfis avisos do tipo “se for chata, dê X”. O “chata” aqui me parece se referir àquela menina cheia dos “mimimi’s” do meme. O corpo do outro é mercadoria e, por isso, não pode apresentar avarias: sorria e me faça gozar, é para isso que te dei um “like” (lê-se: comprei você).

(Me refiro aqui à relação heterossexual por ser aquela na qual tenho mais experiência. Estou pensando num mundo ideal em que a busca do gozo é igual para os gêneros e independe da sexualidade. Afinal, adentrar nesses detalhes seriam “mimimi’s” para outro post.)

É complicado para mim formular estas frases. Recorri ao artigo da psicanalista justamente porque não queria parecer moralista. Mas me parece que muitos destes que leem os melancólicos da geração dos beatnik — não, eles não estavam apenas se drogando, fazendo sexo e sendo felizes, eles sofriam enormemente com o desajuste que percebiam em sua sociedade — ou que ouvem o rock dos anos 70, ao pensar que defendem exatamente o que aqueles defenderam em sua época, ao contrário, estão esmigalhando os últimos pedaços de revolução que aquele grupo nos concedeu.

Por fim, senti-me menos mal ao fechar o tal livro de faces e pensar que o meu “mimimi” não é um problema. Não sou frígida por questionar e criticar o mundo antes de querer fazer sexo. Sou um ser político e todas as minhas ações, conscientes ou não, estão embebidas de política. E, hoje em dia, com “mimimi’s” estamos fazendo política.

O artigo da psicanalista Isabela Fortes está disponível aqui: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1518-61482009000400004&script=sci_arttext