A minha aldeia

Em casa dos meus pais,na minha aldeia, abrem-se e fecham-se todas as portadas da casa cada dia, todos os dias.

É um gesto poético, abrir a portada para trás, com força e determinação, sentir o ar fresco na cara e dizer ao mundo “estou aqui” (portada é uma porta nas janelas).

É uma rotina que se adapta à alma- ou o contrário?- bom dia dia, estou pronta para ti, aqui estou eu mundo, abro as janelas e deixo o novo dia invadir-me. Vejo a chuva ou o sol, vejo o bom jesus lá ao longe e ouço o cão dar-me os bons dias (ou a perseguir a cauda). Não me posso esconder, saio do escuro da noite e do sono do pijama e abro todas as portadas de par em par.

Vou de divisão em divisão, em cada divisão uma escolha entre o escuro ou dizer olá ao dia.

Em cada divisão um recomeço.

Desço as escadas e continua o ritual, deixar o dia entrar. Fica a casa pronta para o calor do sol e eu pronta para enfrentar o dia. Faz-me lembrar a Anita a cantar nas cassetes que ouvíamos no carro a caminho das férias no Algarve — “Olá aqui estou eu, a Anita!”

Abrimos as janelas e dizemos ao mundo “Olá aqui estou eu!”

Escondem-se os medos debaixo do tapete e estamos prontos.

- mesmo nos dias em que o vento fustiga as portadas e decide por ti quem abre a portada hoje. São dias violentos esses, em que não és tu que decides cumprimentar o dia e sim o vento que te dá uma estalada de frio. São raros.-

Gosto mais do ritual ao final do dia.

Com as cores do pôr-do-sol, aproxima-se também o momento de dizer adeus ao sol e a este dia.

A noite aproxima-se, vem devagarinho e traz silêncio consigo.

Vou subindo as escadas e fechando as janelas, dizendo “até amanhã” . É momento de reclusa, de fechar as portas da alma e fazer ninho comigo e com os meus. Já não sou do mundo, já não sou muitas, sou só minha e de quem esta casa habita.

Somos só nós aqui dentro ,adeus mundo, até amanhã.

Vou tirar os medos do tapete e falar com eles.

Assim, talvez amanhã abriremos as portadas juntos.

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