Guia prático para ler Marion Z. Bradley

Fãs de fantasia e ficção científica: coloquem esta mulher na sua lista de leitura.


As Brumas de Avalon é um clássico. Pode não ser um clássico acadêmico ou de crítica, mas vendeu horrores e ajudou a formar gerações de leitores e, especialmente, leitoras de fantasia, que há 10 ou 15 anos só tinham Marion Z. Bradley como referência de autora nesse gênero. Não que hoje a fantasia e a ficção científica sejam dominadas por mulheres, mas com a internet ficou bem mais fácil descobrir outras escritoras e personagens.

Como eu passei uma boa parte da adolescência lendo a obra de Marion, escrevi esse pequeno guia sobre como começar neste universo. A ideia é apresentar a autora, uma mulher pioneria.

Então vamos lá:

As Brumas de Avalon

A primeira coisa que você precisa saber é que as obras mais famosas de Marion Bradley são as da chamada Saga de Avalon, que gira em torno da ilha mítica da Grã-Bretanha. A sua série mais famosa é As Brumas de Avalon, composta de quatro volumes, que recontam o ciclo Arturiano pela visão das mulheres. A grande sacada é justamente essa, que faz a história tomar um rumo diferente das outras versões.

Eu considero exageradas algumas visões de matriarcado e religiosidade de As Brumas e acho que tem alguns problemas narrativos. Apesar disso, é leitura obrigatória para quem gosta de realismo fantástico e fantasia histórica, romances de bruxas e afins, ou procura personagens femininas que fujam dos extremos de mocinha ou bruxa má.

Se você gosta da Cersei, da Sansa e da Daenerys das Crônicas de Gelo e Fogo, provavelmente vai gostar de Morgana, Viviane, Igraine e Morgause, as quatro irmãs no centro dessa versão do Ciclo Arturiano.

A personagem clássica e inesquecível que merece destaque é Morgana de Avalon. Marion transforma a Morgana bruxa má em uma sacerdotisa atormentada e com uma vida cheia de reviravoltas, transformando-a em um ser humano psicologicamente bem construído e apaixonante.

Ah, sim: tem uma adaptação em filme, de 2001, com Angelica Huston como Viviane e Julianna Margulies como Morgana. Mas, como sempre, o livro é melhor.

Saga de Avalon

As histórias dos personagens de Avalon vão além de As Brumas. Vários livros compõem a saga, que continua sendo alimentada pelas colaboradoras da Marion, que tentaram terminar o ciclo depois que ela morreu. Eu não li todos porque acho que série perdeu em qualidade narrativa e construção das personagens.

Esses livros são o caminho de uma trama que liga o continente perdido da Atlântida até Camelot. Das obras preliminares à história de Morgana e Arthur, a melhor, na minha opinião, é A Casa da Floresta, que se passa durante o domínio romano na Grã-Bretanha.

Foram publicados também: Os Ancestrais de Avalon (sobre a fundação da ilha de Avalon, talvez o mais fraco dessa leva), A Sacerdotisa de Avalon (sobre a vida da mãe de Constantino), A Senhora de Avalon (que liga A Casa e As Brumas) e Os Corvos de Avalon (contando a rebelião da rainha Bouddica — ainda não li).

Os personagens desses livros são, oficialmente, os ancestrais da série original. Mas os fãs têm uma teoria de que eles são, na verdade, reencarnações anteriores. O primeiro ciclo deles seria, então, A Queda de Atlântida, que explica a origem das pessoas que formaram a ilha de Avalon. Isso nunca foi comprovado pela autora nem pelas suas colaboradoras, mas há trechos que fazem referência a essa ideia em várias obras da Saga de Avalon.

A Queda de Atlântida

Composta de dois livros — A Teia de Luz e A Teia de Trevas —, essa saga retrata os tempos finais da Atlântida. Ele se liga à Saga de Avalon pelo Os Ancestrais de Avalon, que mostram alguns dos seus personagens chegando na Grã-Bretanha.

Essas duas obras são fantasia pura, mas a trama é muito delicada, construída sobre os conflitos passionais e familiares dos personagens. Todos se entrelaçam, em uma narrativa até que bem amarrada. O foco é mostrar como eles usaram mal seu conhecimento de magia e acabaram fazendo com que os deuses punissem todos com desastres naturais — e aí ela deixa essa liçãozinha de moral, mas que é necessária para fundamentar o terreno para As Brumas.

Marion escreveu sobre o seu processo criativo dizendo que a Atlântida vivia na sua imaginação desde a infância, mas que ela colocou no papel só na maturidade. Ou seja: este é, provavelmente, o trabalho da sua vida.

Agora vamos abrir as brumas do lago e cair fora das histórias de cavalaria para explorar um viés menos conhecido em português.


O Incêndio de Troia

Seguindo a mesma linha da história recontada pela mulheres, Marion escreveu O Incêndio de Troia, que considero seu melhor livro. É a Ilíada recontada a partir de Cassandra, a princesa troiana, e de outras mulheres como Helena, Andrômaca, Hécuba e Pentesileia.

Um dos pontos fortes é justamente se afastar da mitologia homérica e transformar o relacionamento de humanos com deuses e outros seres míticos em uma coisa mais real e palpável.

Kassandra é um ponto forte por si só. Tão bem construída quanto Morgana, traz todos os tons de cinza sobre viver entre o sacerdócio, a família e o amor. São conflitos similares, mas explorados em outro contexto, que tornam o texto mais rico.

Eu acredito que Marion chegou no seu melhor texto sobre mulheres quando escreveu O Incêndio. Enquanto na Saga de Avalon há um certo tom utópico sobre uma suposta sobrevivência do matriarcado, aqui as personagens femininas estão submetidas inteiramente a lógica do mundo masculino e parte dos seus conflitos são a partir da tentativa de se encaixarem (ou não) em uma conjuntura que não respeita a sua natureza e que não ouve a sua opinião.

Darkover

Aqui é onde Marion realmente ficou famosa. Essa série foi a primeira à qual ela se dedicou, tornando-se uma das mulheres pioneiras na ficção científica, ainda nos anos 1950, e abrindo caminho para todas que vieram depois.

Composta por vários livros, Darkover foi a trama e o universo ao qual ela mais se dedicou. Ao exemplo da Saga de Avalon, a série continuou sendo alimentada pelas suas colaboradoras.

A série é bem extensa e não é mais publicada no Brasil. Quem quiser se dedicar a ela precisa ter coragem para fuçar em sebos e bibliotecas, ou em pdf’s. Eu li só o primeiro livro e gostei, e agora tenho os outros esperando a sua vez.

O que Darkover tem de diferente do sci-fi escrito por homens é que há personagens femininas centrais na narrativa. Em clássicos do gênero — como Ray Bradburry, Phlip K. Dick, Isaac Asimov etc— ou não têm mulheres, ou elas servem como trampolim para o conflito pela sua sexualidade, ingenuidade ou por atrapalharem a vida dos homens. Em Marion, a mulher é um personagem redondo.

Concluindo

Marion foi uma escritora muito versátil dentro dos gêneros aos quais se dedicou e, mesmo que eu tenha críticas aos seus trabalhos, continuo considerando uma ótima leitura. Ainda hoje, é difícil encontrar autoras de ficção científica e fantasia que alcançaram o mainstream como ela. E mesmo que de 30 anos para cá os autores estejam dando às personagens femininas mais espaço (vide William Gibson, Neil Gaiman e George Martin), as representações masculinas ainda são mais aceitas e comercialmente bem-sucedidas.

Por isso, é tão importante ter mulheres lendo, escrevendo e pensando literatura. E Marion Bradley foi uma das pessoas que desbravou essa selva pela gente.


Uma observação:
Este texto tem quatro anos de vida. Ele foi originalmente publicado em um dos meus antigos blogs, para uma amiga que, na época, me pediu para guiá-la pela obra de Marion. Fiz algumas edições desde então e me perguntei se deveria passar por mais uma: quando escrevi, a filha de Bradley ainda não havia feito as declarações acusando a mãe e o padrasto de assédio sexual e moral de adolescentes e, inclusive, dela própria. Isso me faz contestar algumas das visões da mulher que Marion colocou. Mas não achei que aqui coubesse falar disso, neste formato de texto. Nada impede que a gente converse sobre nos comentários.

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