O mito de Aradia

entendendo um dos textos mais influentes da Wicca e do neopaganismo

Gerald Gardner leu. Doreen Valiente leu. Provavelmente, os Farrar e os Sanders também. E se você, em algum momento da sua vida, estudou Wicca, você também leu. Não estou falando de “O Deus das Bruxas”, da Margaret Murray (a gente vai falar desse livro um dia) mas do “Aradia — O Evangelho das Bruxas”, de Charles Leland.

Aqui tem um pequeno dossiê sobre o livro, para você que leu entender um pouco mais de onde todas aquelas ideias surgiram e porque é tão importante compreender isso.

O livro

“Aradia: O Evangelho das Bruxas”, escrito por Charles G. Leland, foi publicado em 1889. Leland era o que se costuma chamar de folclorista, um pesquisador de povos e culturas considerados exóticos, não necessariamente ligado com uma instituição de ensino.

Esse tipo de pesquisa foi bem comum entre os séculos XVIII e XIX e influenciou os estudos de antropologia e sociologia que vieram depois, inclusive incentivando indiretamente a criação de metodologias para que os pesquisadores parassem de cometer os erros que esses autores fizeram.

Capa da primeira edição do livro "Aradia — O Evangelho das Bruxas", de 1899

Voltando ao livro, a obra é um conjunto de histórias que o autor supostamente recebeu de uma italiana chamada Madalena, integrante de um grupo de feiticeiras que cultuavam uma bruxa ancestral, Aradia. O que a mulher teria entregue era uma coletânea de mitos que contam como a deusa da lua, Diana, teve uma filha com o seu irmão, o deus Sol Lúcifer. A moça foi enviada à terra para ensinar a feitiçaria aos pobres, assim eles usariam esses poderes contra os seus senhores e fugiriam da opressão. Portanto, o livrinho é um manual para cultuar Diana e aprender o que Aradia ensina como bruxaria— por isso o nome de evangelho.

Tudo muito romântico, mas um pouco suspeito, segundo algumas pessoas. Pesquisadores do século XX acreditam que a tal bruxa nunca existiu e que o Leland compilou contos que ele achava que faziam sentido entre si. Ele mesmo admite que algumas histórias do livro não estão no "evangelho" original, mas que ele as considerava parte de uma mesma visão de mundo, então resolveu incluir. Ele já havia publicado outras coletâneas de mitos e costumes místicos, como “Roman Etruscan Remains in Popular Culture” e “Gipsy Sorcery and Fortune Telling” (em tradução livre: “Permanências Etruscas e Romanas na Cultura Popular” e “Feitiçaria e Adivinhação dos Ciganos”).

Ou, então, que ele teria sido enganado pela Madalena. Leland era um cara que começou estudando ciganos, aí ficou fascinado pela cultura etrusca, acreditando que as pessoas ainda mantinham os costumes e crenças dos etruscos (é isso o que ele defende no “Roman Etruscan Remains”). Então, quando alguém apareceu dizendo que ele tinha razão e que alguns cultos ainda estavam vivos, ele teria acreditado e visto nisso a comprovação da sua tese.

Apesar de não sabermos bem de onde saíram essas histórias, todas as obras do autor nos mostram que a sua ideia de bruxaria tem um — ou dois pés — no que Jules Michelet desenvolveu em “A Feiticeira”, um ensaio político de 1862. Michelet é considerado um dos grandes historiadores franceses e já havia publicado um livro importante sobre a história da França. Em “A Feiticeira”, ele disserta sobre a bruxa como a emissária do demônio, e o demônio como o espírito de revolta contra o Estado, a nobreza e a Igreja. Alguns autores seguiram a mesma linha de Michelet e mantiveram essa alegoria da bruxa anticlerical e revolucionária. Outros, como Leland, levaram tudo bem ao pé da letra.

Origens Históricas

Aradia, como divindade, ficou naquele limbo dos deuses que não foram premiados com muitos escritos, desenhos animados e adaptações renascentistas, então ninguém sabe muito bem de onde veio, nem para onde foi o seu culto. O que se imagina é que ela faz parte de um grupo de divindades femininas comandantes da Caçada Noturna, um mito que teve variações em toda a região central da Europa. Basicamente, era a deusa que percorre a noite com seu cortejo de fadas, espíritos, animais e bruxas. Em cada local, a divindade tinha um nome e alguns atributos, dependendo da cultura. Assim, temos à frente da caçada Diana, Herodias, Aradia, Holda e Vênus, entre outras.

Cartão postal alemão de 1899 (imagem: http://migre.me/vydUq)

O mito da caçada nasce a partir das crenças europeias nos seres da natureza, nas fadas e nos espíritos dos mortos. Ele se junta com as divindades lunares e com o mito das bruxas e vampiros que andavam na noite em busca de vítimas. Ou seja: ele é um mexidinho de várias ideias — e demorou um certo tempo para se formar, englobando crenças romanas, germânicas, célticas e até teutônicas. Com o tempo, a caçada virou a migração das bruxas para o sabá e foi relacionada com o demônio, conceito que ainda não estava bem formado na cabeça da população até a Idade Moderna.

Resumindo, podemos dizer que Aradia era, originalmente, uma deusa lunar que presidia a caçada, provavelmente oriunda do que hoje é o norte da Itália, uma região com forte influência dos povos germânicos.

Interpretações contemporâneas

O livro de Leland é extremamente popular no movimento neopagão, especialmente na Wicca. Foi uma das obras usadas por Gerald Gardner e Doreen Valiente para formular algumas ideias e textos básicos da Wicca e outros autores posteriores, como Raven Grimassi, o usaram para dar corpo a reformulações contemporâneas do que seria uma bruxaria de origem italiana, centrada no culto de Diana como a Grande Deusa.

Hoje, você encontra todo o tipo de interpretação sobre Aradia entre os atuais praticantes da bruxaria. Alguns escritores a colocam como uma deusa da vingança de origem italiana, o que na verdade é um erro. A Itália nunca teve um panteão unificado, exceto quando os romanos impuseram a sua religião oficial. E mesmo entre eles, as deusas da vingança eram as Furiae, herdeiras das Erínias gregas, que eram divindades muito específicas, cuidando da vingança ao mandar a loucura para aqueles que cometiam assassinatos contra os seus ancestrais. Em Roma, elas se tornaram divindades mais alegóricas.

Alguns colocam Aradia como uma divindade protetora das bruxas, assim como Hécate, por exemplo. Muitas deusas eram relacionadas com magia, seja em Roma ou entre os povos germânicos, então isso faria um pouco mais de sentido.

Mas por que a gente tem que entender tudo isso?

Porque mitos são importantes. Eles mostram a construção do imaginário, da cultura e das crenças das pessoas. Eles explicam processos históricos, como a dominação germânica entre os romanos, e depois a dominação cristã das crenças prévias desses povos. E, nesse caso, o estudo do mito chega até ao contemporâneo.

As perguntas que temos que fazer são: por que agora? Por que pessoas retornam a esses mitos e buscam respostas procurando sentido em questões relacionadas aos celtas, aos germânicos, aos romanos? Por que a ideia de bruxaria como uma resistência, criada no século XVIII, ainda é tão atraente?

O papel da História é fazer perguntas ao passado para entender o presente. E é justamente isso que o estudo desse tipo de mito propõe.


Este texto tem como base os estudos de: Carlo Ginzburg, especialmente “História Noturna”; o livro “História da Bruxaria”, dos pesquisadores Jeffrey B. Russel e Brooks Alexander; e o artigo “The Development of a Legend”, da antropóloga Sabina Maglioco.


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