Por que mapa astral de país é uma furada?

O Temer nem esquentou a cadeira do Planalto ainda e já estão rolando as análises astrológicas do seu mandato, baseados no suposto mapa astral do Brasil.

Digo suposto porque, para se fazer uma análise astrológica, é preciso ter um mapa natal, ou seja, o retrato do céu no dia do seu nascimento. E é simplesmente impossível determinar com precisão os dados de nascimento de um país.

Segundo esta versão do mapa, o Brasil é Virgem com ascendente em Aquário, assim como a autora deste texto. Mas ele também pode ter ascendente em Peixes. Fonte da imagem: http://migre.me/uSy5S

O mapa natal é o jeito de parametrizar as análises e entender cenários e situações que o consulente vai passar ou está passando ao longo da vida. A partir dele, é possível criar os mapas de trânsito astrológico, que são os movimentos dos astros no decorrer da vida da pessoa.

Isso nunca será verdadeiro para um país, como é para uma pessoa, porque o nascimento de uma nação é algo impreciso. Muitos marcos podem ser considerados como a data oficial da sua consolidação, dependendo do conceito e da visão política adotada.

Vamos entender isso um pouco melhor:

Na visão de história tradicional, a gente pode dizer que o Brasil nasceu em 22 ou 21 de abril de 1500, quando os portugueses chegaram. Mas, antes deles, não havia história? O território não havia nascido para os povos que viviam aqui? Eles não tinham seus próprios conflitos, que poderiam ser espelhados pelos astros?

Aí, temos o nosso outro marco, 7 de setembro de 1822. Mais um problema: alguns historiadores acreditam que a cena clássica da proclamação da Independência nunca existiu e que essa data foi pensada depois, como parte de uma campanha para melhorar a imagem de D. Pedro I. Então, devemos considerar uma data hipotética como o nascimento do Brasil?

E temos, ainda, a questão conceitual: o país nasce mesmo na Independência? Alguns defendem que a vinda da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro foi mais significativa do que a separação de Portugal, por conta da abertura dos portos, da efervescência cultural que veio junto, da criação do Banco do Brasil… Será que foi aí que o Brasil contemporâneo nasceu?

E tem, também, a Proclamação da República. Somos o único país latinoamericano que não a fez junto com a Independência. Podemos dizer que a partir dela nasce o Brasil republicano que forma a base do nosso Estado hoje. Não seria esse o começo da nação brasileira?

Nações são coisas vivas. Para Benedict Anderson, são comunidades que, na realidade, não existem, mas que une pessoas diferentes em elo imaginado, que as diferencia do resto do mundo simplesmente por terem nascido na mesma nação.

Nesse angu, temos também os conceitos de Estado e país. Os três podem ser usados como sinônimos, mas são complexos e diferente entre si a partir das perspectivas da História, da Ciência Social e da Ciência Política. O mapa astral está analisando o nascimento do Estado, da nação ou do país?

Alguns podem alegar que não é necessário um mapa natal e nem uma discussão conceitual para tudo isso, que olhar o céu de Brasília na hora em que o fato ocorreu bastaria para determinar as principais influências. Mas aí temos uma outra questão: nós realmente acreditamos que a movimentação política — brasileira ou de qualquer outro lugar — é determinada pela posição de Saturno e Netuno, ou por interesses corporativos, políticas econômicas, luta de classes, movimentos sociais, acordos partidários, pressões internacionais e coisas muitos mais terrenas?

Carl Sagan tem uma questão para nós pensarmos…

Uma análise astrológica não define um mandato, um Estado ou um governante. O que define tudo isso são os projetos de países sendo traçados por quem está no poder. E um governante, mesmo que ele seja o chefe do executivo, é uma pequena representação em um complexo sistema tripartido, com duas casas legais, um poder judiciário influente e dezenas de ministérios.

Mapas astrais não vão explicar o Brasil. Se a gente quer mesmo entender o que está acontecendo, é melhor nos voltarmos às ciências humanas do que à ciência astrológica.

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