Meu Light Yagami está morto, tens o que é preciso para ressuscitá-lo?
Eu, Jessica, sou uma pessoa que tenho muita preguiça de comentar o que eu acho sobre as coisas que eu assisto. Não tenho saco pra discutir pontos, nem gosto de ficar expondo meus gostos, mas hoje eu tive a infelicidade de assistir a nova adaptação de Death Note, feita pela Netflix, e eu nem sei o que dizer em como esse filme é errado, em tantos níveis.
Atenção: esse texto além de conter SPOILERS, é indicado pra quem já assistiu alguma adaptação anterior de Death Note (tanto o anime, quanto o mangá, ou até qualquer live action japonês)
Pra quem não sabe do que se trata mas quer ler do mesmo jeito, Death Note é um mangá escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata, e que possui já inúmeras adaptações, como um anime de 37 episódios, e variados live-actions — todos asiáticos. A história segue a vida de Light Yagami, um estudante do ensino médio que descobre um caderno com poderes sobrenaturais provenientes de um Shinigami (ou deus da morte) chamado Ryuk. Esse caderno, o Death Note, dá a habilidade para Light de matar pessoas cujo nome for escrito nele. E com isso, a história é focada nas tentativas de Light de criar uma “limpeza” no planeta, se intitulando como um deus, e na saga de um detetive conhecido apenas como L em detê-lo.
Light Turner quem?
Com menos de dez minutos já são visíveis as fragilidades desse filme. Você é apresentado a um Light Yagami (ou Light Turner, hehehe) completamente oposto do que a gente conhece. Um rapaz também introvertido, mas com uma personalidade meio fraca e submissa, cujo passado é resumido em uma tragédia familiar, como se isso fosse preciso para justificar a necessidade do personagem de querer reformular o mundo. Mas até essa ideia aparenta ser incluída na mente de Light ao interagir com Ryuk, que tal qual um psicopata sinistro — ou apenas pouca verba no CGI -, manipula o rapaz a escrever seu primeiro nome no caderno. A dinâmica dos dois é uma das coisas mais tristes desse filme, onde uma relação despreocupada e até mesmo passiva do shinigami em relação a Light é ofuscada por uma versão assustadora perto da fragilidade de um rapaz que deveria ser intenso e frio. Não temos nosso Ryuk maravilhado nos humanos como seres interessantes.

As mudanças de atitude de Light construíram momentos visivelmente feitos para agradar o público americano, tipo o romance real entre o protagonista e Misa (ops, Mia, já que Misa soa tão não ocidental, né?). Nunca que o personagem original chegaria numa menina que mal conhece, se expondo apenas para causar uma impressão. Foi uma atitude tão idiota, tão vulnerável que é visível o quão não se importaram com o material algo original. E a falta de cautela dele não para por aí.
Adaptações horríveis e onde habitam
Existe uma quantidade absurda de regras mudadas e introduzidas dentro do Death Note para compensar os furos de roteiro criados dentro do filme. Um Light consciente logo quis abandonar o caderno, com isso, colocam uma regra nada a ver na qual ele não poderia ficar sem escrever por mais de uma semana.
Páginas queimadas que anulam mortes, quem toca no caderno não consegue ver o Shinigami, uma chuva de coisas sem sentido que a cada minuto você só pensa “não custava nada manter do jeito que tava original, sério”. E também temos uma explicação até que bem bolada para a intitulação de Light pelo pseudônimo “Kira”, que é a versão japonesa da palavra “killer” — “assassino” em português, mas que não justifica a autodenominação do mesmo.
Provavelmente com a intenção de parecer um derivado da franquia “Premonição”, as mortes passaram a ser mais violentas e explícitas, passando longe do padrão Kira de ataque cardíaco. Soa como algo irrelevante, mas ao mudar isso, o desenvolvimento de como o mundo conheceu o Kira também mudou — e não pra melhor. O que antes era visto como um endeusamento de um serial killer ficou parecendo um rapaz que construiu a própria identidade apenas para chamar a atenção. Para se distanciar, bem longe do que o Light verdadeiro representava.
Dois erros não fazem um acerto, dois pequenos acertos também não
Os dois outros personagens essenciais para a trama também tiveram mudanças de personalidade. Uma, não tão drástica; a outra, o bastante, mas que foi uma mudança para melhor. L é o que mais se aproxima de sua versão original, mantendo a excentricidade, apenas com um temperamento mais esquentado e com algumas atitudes fora do padrão cauteloso dele, como sua aparição em público nos privando de uma das melhores cenas do anime do falso L na televisão. Mia deixou de ser a mocinha inteligente que tinha suas habilidades ofuscadas pela sua falsa burrice ao ser apaixonada por Light, e passou a mostrar muito mais sua sagacidade e loucura.
A quantidade de deslizes de Light fazem com que Mia tenha mais atitudes próximas do Kira que ele deveria ser, chegando a manipular e passar a perna em Light mais de uma vez, fazendo com que L facilmente descubra que ele está por trás de tudo isso. Esses acontecimentos cortam completamente quaisquer chances de existir o arco onde Light trabalha com a polícia e L, aproximando os dois e fazendo com que o detetive finalmente acredite ter um amigo. A falta dessa relação é algo que empobrece muito um enredo que já é frágil o bastante.

Invertendo papéis
Mas vale lembrar que Light passa bem longe de ser um herói, tampouco L um vilão desesperado. Isso pode soar meio óbvio, mas é o que acontece devido ao conta do clima que o filme transparece a cerca dos personagens. A romantização do casal compromete o cenário onde a fascinação unilateral de Mia seja um ponto importante para o desenvolvimento de Light, e só nos entregou cenas de fanservice sexuais e uma enrolação sem fim.
A forçação de barra faz com que depois de 1h de filme, tudo pareça uma fanfic malfeita, com um final completamente mal fundamentado que só nos dar apenas um gostinho da personalidade fria e calculista de Light esperávamos desde o começo do filme. E isso foi às custas de transformar o L em um ser humano que talvez possa se rebaixar ao nível dele, ao ter a possibilidade de escrever o nome de Light no Death Note — se você tem alguma dúvida de que L poderia fazer isso: não, ele não faria.
No final, Death Note da Netflix só parece um erro na matrix, e dança bem pertinho da turminha de filmes que a humanidade deveria “desver” se tivesse a oportunidade. Se eu tivesse, eu faria.
Daria 1/10 e se a assinatura da Netflix fosse no meu nome eu cancelava agora só pela audácia de terem criado esse filme.
