Museu Nacional: a história que nos une sob 6 horas de chamas

Ingrid Humia
Sep 3, 2018 · 3 min read

O que se perde depois de tudo se perder no Museu Nacional? Acredito que primeiro, enquanto as chamas queimavam altas e jogavam uma luz bizarra por todo o bairro, se perdeu o rumo. Antes, a história repousava tranquilamente entre as paredes do museu, reconfortavam pelo que foi aprendido e sinalizavam que há mais pela frente. O que foi aprendido mesmo? Os papéis queimados, picados, chamuscados, se espalharam pelas ruas, mas eram só fragmentos do que estava lá.

Antonio Lacerda via Agência EBC

Acredito que, em segundo lugar, perdemos nossos pontos de fixação.

Há um estudioso chamado Marc Augé que diz que os lugares antropológicos contam histórias, as nossas; são pontos de identificação, com quem somos; fazem pontes relacionais, que se conectam conosco. Não é só o trabalho de vários pesquisadores (que se desdobravam em mil para preservar um patrimônio nas situações mais adversas) que queimou durante horas, foi também parte de quem somos.

Reservamos o termo “lugar antropológico” àquela construção concreta e simbólica do espaço que não poderia dar conta, somente ela, das vicissitudes e contradições da vida social, mas à qual se referem todos aqueles a quem ela designa um lugar, por mais humilde e modesto que seja […] tantos lugares cuja análise faz sentido, por que foram investidos de sentido, e por que cada novo percurso, cada reiteração trivial, conforta-os e confirma sua necessidade (AUGÉ, 2012, p.51).

Esse mesmo autor diz que esses lugares antropológicos também são importantes por nos passarem a sensação de estabilidade em meio à realidades de incerteza. Afinal, a história está escrita lá, preservada e pode ser revisitada. Parece uma maldosa ironia, que esse ponto de estabilidade tenha ardido em chamas diante dos nossos olhos em um ano em que não sabemos o que vai acontecer no mês seguinte.

Sofremos em diversos níveis. Sofremos vendo o desespero dos diversos profissionais que enchiam os braços tentando salvar o que podiam. Sofremos vendo os bombeiros se dividindo entre apagar as chamas e recolher objetos, qualquer objeto, só tendo a certeza do fogo não ganhar tudo. Sofremos vendo queimar o cenário que foi fotografado na excursão do colégio. Sofremos vendo o lugar que, em muitos casos, os pais se ajoelharam diante de nós, minúsculos, e apontaram que ali estavam a história. Uma história gigantesca e nossa.

Ricardo Moraes via G1

Pela concepção de Marc Augé, podemos chamar o Museu Nacional de lugar antropológico, mas também podemos chamar de “nosso lugar”. Sentimos por que nossas relações foram levadas, nossas identidades foram afetadas e a parte da nossa história se perdeu. E vamos tentar ao máximo forçar nossa memória para reconstruir o que estava ali.

Esse texto é quase um engasgo. Na verdade, é a tentativa (ingênua) de dar forma, tamanho e quantidade de palavras, para um sentimento impossível de tocar. Talvez o mesmo que nos forçava a encarar as chamas no museu, mas não permitia reverter a situação.

E (acumulando incertezas para tentar formar, pelo menos, uma certeza) talvez o caminho seja encontrar uma nova estabilidade. Talvez essa dor complicada de delinear, mas que nos une, possa servir para construirmos um novo lugar antropológico. Um novo “nosso lugar” que reforce laços de solidariedade, nos lembre da história compartilhada e da dor que (infelizmente) muitas vezes nos une.

Não faço parte da equipe da UNIRIO, mas achei que essa iniciativa maravilhosa servisse para lembrar que estamos juntos nessa.

Formada em Relações Públicas, apesar de ser uma formação que nunca vai se completar - Ainda bem!

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