Ingrid Bárbara
Aug 24, 2017 · 4 min read

A saga da panela de pressão

Sexta-feira. Duas da manhã. Poderia dizer que estou numa festa, mas estou em casa desvendando os mistérios da panela de pressão. Ué? É. Arregacei as mangas e estou aqui na cozinha olhando pra ela. Ela pra mim. Eu pra ela. E assim estou há uns 20 minutos. Ok, abri uns tutoriais aqui no YouTube. Tô mais segura. Ela continua olhando pra mim e eu pra ela. Tenho a impressão que vai explodir antes mesmo que eu coloque no fogo. Louca. A panela, é claro. Pesquisei aqui: “mortes com panela de pressão”. Porra, que merda. Um tanto de gente já morreu, joga aí no Google só para você ver. Mas beleza, não vou arregar. O feijão já tá de molho, não tem volta mais. Aliás, você gosta de feijão preto ou do marronzinho? Sou fissurada no pretinho, tenho tara por feijão preto, sério, casaria com ele. E com esse bacon aqui que vou colocar junto. E com essa linguiça calabresa. Ave maria, deixa eu fazer isso logo. Pera. Voltei. Coloquei no fogo têm cinco minutos… Até agora nem sinal de nada. E percebi uma coisa: a panela é novinha ninguém nem usou ainda. Ou seja, sou cobaia. Se essa meleca estiver com defeito de fábrica vou levar uma panelada na cara de bobeira. Dez minutos. Quinze minutos. Nada. E eu nem na cozinha tô mais, cê acha que eu sou boba? Só coloco a cabecinha lá de vez em quando e volto pra sala. Vi que a vizinha acendeu a luz da cozinha, será que eu pergunto se essa demora é normal? Melhor não. Vinte minutos. Vou ter um ataque do coração, pelo amor de jesuscristinho, essa caceta vai explodir. Por que eu cancelei o encontro dessa sexta para fazer feijão? Burra! Tive uma ideia: vou acordar a Gabi que divide apê comigo. Mas cadê a coragem de bater lá no quarto dela pra perguntar dessa panela? Acho que ela nunca usou na vida também. Vou? Não vou? Fui. Bati lá e clamei por socorro. Ela veio, olhou e disse que tá normal. Mas como ela sabe? Nunca usou panela de pressão. Mas se ela disse que vai ficar tudo bem, vou tentar embarcar nessa calma aí. Mas ela já se trancou lá no quarto dela novamente. Ou seja, se explodir eu morro sozinha. Shiiiiiiiii!! Eitaaa, começou um barulhão. A bendita pegou pressão, agora vai. E o que eu faço nesse meio tempo? Já andei uns 18km nesse vai e vem que estou aqui nessa sala, quase uma meia maratona. Ah, lembrei! Deixa eu agradecer aqui o benfeitor que me deu essa panela: meu irmão! Arrasou, né? Melhor presente. Ou não. Não vamos contar vitória antes da hora. Isso pode ser uma pegadinha de irmão mais velho. Será? Ai que medo. Mentira, irmão. Mas tô com medo sim, pode explodir a qualquer momento. E eu de pijama. Acho que vou trocar de roupa. Se der merda, como os vizinhos vão me olhar assim? Sempre penso nisso, você também? Olhei a calcinha, tá ok. Vou mudar de roupa. Relógio apitou, não dá tempo de tirar o pijama. Ficou pronto. Eita! Corri, desliguei e voltei voando pra sala. Que nem a gente faz quando apaga a luz do corredor e sai correndo com medo de espírito na madrugada. Desliguei. Beleza. Mas e agora? Quem vai abrir aquilo ali? Rindo de nervoso. E de fome. Vou bater um prato desse feijão daqui a pouco, super leve para comer essa hora da madruga. A fome me deu coragem, vou lá perto com uma colher levantar a rodinha pra sair a pressão. Olha, antes de qualquer coisa, um salve pra galera que faz isso todo dia e não sente medo. Vocês são foda! Fechei o olho aqui, me apeguei nos santos e tô tirando a pressão. Nada de explodir. É agora ou nunca. Aquela sensação de vitória depois de subir o Everest começa a bater. Nunca subi o Everest, mas deve ser assim. Foco aqui que o barulho tá diminuindo, diminuindo… Vou abrir. Abri! A música do Senna cruzando a linha de chegada tá pulsando aqui na minha mente. Que sensação maravilhosa. Que deleite. Isso é melhor que dinheiro caindo na conta. Mentira. Mas é bom também. Que panela é essa, merrrmão? Preciso arranjar um nome para ela. Huuum, calma. Vitória! O nome dela será Vitória. Nada mais justo, né? Caramba, tá muito tarde. Agora que o medo já passou, deixa eu terminar de temperar aqui, engrossar o caldo e comer logo. Que noite, meu amigo. Olha só, se você gosta de adrenalina, eu mega recomendo essa atividade, viu? Pegue essa panela que você tem aí no fundo do seu armário e viva aventuras sem sair de casa. Vai na fé, se eu consegui essa proeza, você também consegue. Depois me conta se deu certo. Aproveita e me chama pra provar seu feijão. Mas ó, não esquece, eu gosto é do pretinho.

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    Ingrid Bárbara

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    Relatos de uma digital (nada) influencer

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