A geração da geladeira vazia

Desde que eu comecei a morar sozinha, coisas estranhas começaram a acontecer. Surreais. Sobrenaturais. Calma, nada de espíritos. Apesar de não arriscar ir ao banheiro durante a madrugada, pois aprendi tudo nos filmes de terror e sei que é melhor esperar amanhecer.

As coisas estranhas que estão acontecendo são comigo. Sabe aquelas manias chatas da mãe, vó e tia? Então, peguei todas! Logo eu que achava um saco os mimimis de dona de casa. Paguei a língua. O sabadão chega e a minha vontade é ir ao parque, cinema, barzinho. Certo? Errado. Acordo com uma vontade insana de limpar a casa, comprar umas plantinhas e passar o resto do dia nos sites de decoração. Socorro! Essa não sou eu. Ou pelo menos não era.

Esses dias eu fiz até uma mesinha de centro. Acredite se quiser! E ficou linda, morro de orgulho dela. Nada de toalhas sobre a cama, roupas espalhadas, pratos na pia. Estou muito chata, juro. Esse caminho tem volta? Preciso de uma luz.

Uma amiga prometeu que pararia de me visitar se eu continuasse com essa neura. Ela chegava e eu sempre dava um jeito de arrumar alguma coisa. Deselegante, eu sei. Mas tem uma coisa que não muda: a bendita geladeira vazia. Eu me esqueço de comprar até água, vira e mexe eu chego morta de sede e não tem uma gotinha. Ainda não me acostumei com a ideia de que as coisas não brotam na geladeira, as pessoas geralmente vão até um lugar chamado supermercado e compram. Minha família costuma dizer que a minha especialidade na cozinha é fazer gelo. Eles exageram. Às vezes eu arrisco. Sou conhecida como a rainha dos petiscos. Compro tudo pronto, misturo algumas coisas, enfeito os pratos e pimba. Sucesso. Não aguento mais miojo, mas ele é presença certa na minha lista de compras.

Listas. Essa é outra mania de “velho” que eu adquiri depois que comecei a morar sozinha. Se eu sair sem lista, já era. Aliás, existe prazer maior do que ticar item por item ao longo do dia? Sensação única. Tomar banho na hora que quiser é impagável, assistir TV até altas horas, usar o banheiro com a porta aberta, dançar feito louca entre um cômodo e outro. Esse tipo de coisa só quem mora sozinha sabe. Mas por outro lado, é desolador acordar no domingo e não ter a família reunida no café da manhã e ninguém para abrir a porta do quarto e desejar um simples: “Boa noite”. Faz parte do pacote, nem tudo são flores.

Outra coisa chata é ter que marcar consulta médica, eu sempre procrastino. Mas nos últimos tempos eu não tenho enxergado nada que esteja a mais de dois metros de distância. Esses dias eu estava no ponto de ônibus e franzi a testa, apertei os olhos, me inclinei para frente e não consegui ler o letreiro, até que uma voz ao meu lado soltou: “Jd. Celeste”. Era uma senhorinha beirando os oitenta que acabara de esfregar na minha cara que a vista dela é melhor do que a minha. Decidi e marquei uma consulta. O médico fez cara de sério, olhou o exame e disse: “Você tem ceratocone”. Pensei na hora: “Ferrou. Isso é nome de doença grave. Adeus, mundo!”. Que mania chata desses médicos de fazer cara de preocupado sem necessidade. Gelei. Quase vi uma luz branca. Só depois eu descobri que não é nada demais. E por sinal, ainda preciso mandar fazer os óculos. Mas antes eu preciso ir ali ao mercado comprar água, estou com sede e não tem nada nessa geladeira.

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