Tá todo mundo no mesmo barco

Eu costumava dizer uma frase que virou bordão entre os meus amigos: “A vida não é moranguinho”. Parei. Parece que quanto mais a gente fala que alguma coisa não tá bem, a vida escuta e diz: “Ahh, é? Então segura essa aqui. E tome outra. E outra”.
Então agora ando por aí vendo graça nas pequenas coisas, quase bobas, mas que de tão bobas são maravilhosas. Já que as grandes andam meio fora de ordem nos últimos tempos, bora inventar alegria!
Ontem, por exemplo, sai de casa e esqueci meu cartão do banco. Peguei seis ônibus, ida e volta. Precisava dar um abraço numa amiga, demorei dez minutinhos com ela e valeu a pena cada minuto. No meio desse caminho encontrei várias pessoas que me ajudaram a pegar os ônibus certos. Gente com vontade mesmo de ajudar, dessas que são melhores que Waze, sabe? Cheguei direitinho. Pena que coloquei uma sapatilha que destruiu meu pé. Olhei… Tava feio o negócio. Parei para comprar um band-aid. Abri a bolsa, cadê o cartão? Só agora percebi que tinha esquecido em casa. Pessoa atenta é outra coisa. Deixa pra lá, daqui a pouco esse treco para de sangrar, pensei. Acenei o braço para o ônibus, era o seu Cazuza. O motorista que tinha me deixado lá mais cedo. Ele me reconheceu e fomos batendo altos papos até o meu destino. Ele me deu tchau e soltou: “Até a próxima, Bárbara”. Tomara seu Cazuza, tomara. Gostei do senhor.
O cartão certo não tava na bolsa, mas tinha o errado. Resolvi desbloquear ele, precisava fazer isso há tempos. Fui e descobri que tinha 50 reais perdidos lá. Toma aí, sortuda! Saiu sem dinheiro e voltou com cinquentão. Já pode sorrir, vai.
Corri pra casa, tomei banho e sai rápido para visitar um amigo no hospital. Cheguei na recepção toda pimpona e o cara já veio pedindo documento. Putz. Mostrei o cartão do banco. Agora o danado tava na bolsa, então botei pra jogo pra ver se funcionava, né? O cara disse que só servia documento com foto. Olhei pra ele, fiz cara de quem tem a solução: serve o Facebook? Lá tem meu nome e minha foto, moço. Ele me olhou com cara de quem não queria acreditar no que tinha acabado de ouvir. Minha amiga botou a mão no rosto com vergonha daquilo. Mas ele disse que dessa vez eu ia entrar porque pensei rápido. Ele gostou da solução do Facebook. Ufa! Finalmente subi para ver o meu amigo. E ele tava lá, todo cagado. E tava sorrindo, gente. Contrariando as circunstâncias ele estava sorrindo. E de repente o quarto ficou cheio. Revi um monte de gente que não via há meses, matei saudade, dei risada, contei histórias. Tudo ali, no quarto do hospital.
E de repente olhei para o meu amigo ali naquela cama, lembrei do abraço que dei mais cedo na minha amiga num momento triste, do seu Cazuza todo simpático mesmo trabalhando desde as 4 da madruga e percebi que todo mundo tem a sua batalha e os seus desafios. E que não adianta se descabelar achando que a vida tá de perna pro ar e que as coisas não tem solução. Ou que as coisas só acontecem com a gente. Não. Tá todo mundo no mesmo barco, fia, cada um com a sua luta. Então bora encher esse peito com coragem e espalhar sorrisos por aí. Ver poesia em cada esquina e transformar dias nublados em dias azuis!
