Desintoxicação

1h18, 21 de Outubro.

Só agora me dei conta de que não estamos mais no caminho um do outro e, sinceramente, eu não poderia estar melhor.

Talvez eu acorde amanhã e tudo que eu sentia volte como um tsunami, mas eu não deixarei que isso me vença. Não mais. Tou sem vontade de voltar a viver aquilo tudo. Tá bom assim.

Foram meses numa roda gigante onde quem controlava era você e eu ficava tipo criança, apreensiva e curiosa, querendo ver até onde eu conseguiria aguentar e quão alto eu poderia chegar. Mas o céu estava cada vez mais distante e alcançá-lo parecia um pesadelo que nunca tinha fim. Mas teve. Eu cheguei ao céu e sem a sua ajuda, com os meus próprios pés, dependendo das minhas próprias vontades.

Percebi, depois de apanhar um pouco, que você foi meu pedaço de madeira no naufrágio que havia se tornado minha existência, mas madeira incha na água e, uma hora, apodrece. Ou eu aprendia a nadar ou apodrecia junto. Virei peixe, me purifiquei.

Eu não sei como você tá, mas sei de mim. Também não tenho a mínima ideia de como vou reagir se te encontrar por aí. Talvez eu vire a cabeça e acompanhe sua corrida pelo terminal pra não perder o zarco. Talvez eu te salve ou ajude, se precisar. Talvez eu aja com desprezo ou te abrace com ternura. Talvez a gente até pare em algum lugar e beba alguma coisa com outros amigos. Talvez tudo fique normal ou não. Mas, por enquanto, posso te garantir que você não é mais tóxico pra mim. Eu me libertei.

Ingrid Borges