Exceção

Eu queria começar como ela começava os textos dela, definindo algumas palavras. Mas esse não é meu estilo. Somos bem diferentes. Apesar disso, a gente se encontrou.

Parece que foi ontem que a conheci, na segunda semana de aula do curso de Jornalismo que hoje eu nem gosto mais. Meus amigos, naquela época, já tinham falado dela, brevemente e eu quase morri de ciúmes. “Quem essa caloura pensa que é pra fazer companhia aos meus melhores amigos”? Eu estava viajando, fui visitar minha família na Bahia, por isso cheguei depois do início do ano letivo. Mas cheguei. Primeira parada: AACOM. Sentei no banco do lado de fora e cumprimentei a todos que eu conhecia, a saudade era gigantesca. Aí ela chegou. Fones de ouvido, sorriso metálico do aparelho, timidez exalando. Só cumprimentou os dois e me deixou no vácuo. “Quem essa garota pensa que é para, além de estar íntimas dos meus amigos, não vir me cumprimentar”? Fui lá e a cumprimentei, vi as bochechas dela corarem como brasas. Nos abraçamos. Foi aí que tudo começou. O que era pra ser um abraço de boas-vindas, se tornou um abraço-estamos-em-casa e foi!

Começamos a nos conhecer e, nossa!, não poderíamos ser tão diferentes! Ela é tímida, como já falei, e eu sou aquela que fala com todo mundo sem titubear. Ela é poesia até no respirar e eu sou uma canção sem gênero definido e no modo aleatório. Ela mergulha de cabeça naquilo que sente e eu, quase nunca sinto muito coisa. Mas senti por ela. Senti que não podia deixar ela sair simplesmente da minha vida. Senti que ela seria meu porto-seguro, se eu precisasse. Senti que nossa conexão veio de outras vidas e vai nos fazer encontrar em todas as outras que virão. Senti que nela eu poderia confiar e até mesmo amar, sem medo algum de não ser correspondida. E fui correspondida, mas não na mesma medida. Ela era mais e sentia demais e eu tinha certezas de menos. Ela sonhava acordada e eu buscava respostas dentro de mim. “Como posso amar tanto alguém como a amo”? Isso me atormentou dias e noites, acabei não me encontrando nisso tudo e deixei ela livre dessa tormenta, mas de uma coisa eu posso me orgulhar: sempre fui sincera, sempre.

Fui sincera quando disse todas as vezes que a amava. Quando tomei a iniciativa e até parei de dançar para ficar com ela. Fui sincera quando passei o carnaval inteiro conversando com ela no whats. Fui sincera quando disse que estava morrendo de saudade. Quando eu confessei que não via a hora de reencontrá-la e descobrir como seria dali pra frente. Fui sincera quando nos reencontramos e me vi confusa em relação a tudo e decidi não deixá-la participar da loucura do meu ser desencontrado. Eu fui sincera em todas as palavras, abraços e beijos. Eu fui. Eu sou.

Aí ela encontrou alguém que a completa e a faz feliz. Alguém que não tem dúvidas do que se é e corresponde as expectativas que ela cria e nossa!, eu não poderia ficar mais feliz! Ela cresceu, a minha garotinha que tinha a mania de amar por duas, finalmente aceitou que não nasceu pra ser matade de ninguém. Cresceu e encontrou a plenitude na nova garota e nela mesma. Ela agora estava feliz. Mas longe de mim. Longe porque o novo amor sentia ciúmes da baiana dela e as pessoas não colaboravam nos comentários ao nosso respeito. Quem não ficaria enciumada em saber que sua namorada tem uma conexão muito mais forte com outra garota? Meu Deus, eu iria querer matar esse ser. Por respeito ao seu relacionamento, eu permiti o afastamento e caramba, não imaginei que iria doer tanto. Doeu te ver sorrindo com ela o tempo todo enquanto a gente mal se falava. Doeu ter que falar contigo sempre cordialmente pra ela não se sentir ameaçada. Doeu te ver saindo da minha vida. Doeu ainda mais toda aquela confusão na sala da atlética. Meu orgulho, misturado a dor da sua ausência, não me deixou enxergar a verdade no seu olhar. Eu não acreditei em você e me arrependo por isso. Desculpa…

Eu te deixo confusa, mas não mais do que você me deixa. Você me tira do eixo quando some da minha vida, mas me coloca no lugar sempre que cola teu corpo no meu. Será que vai ser sempre assim? Nós sabemos que não, mas pra quê apressar o tempo? Ele é tão sábio… No momento certo, na ocasião certa, o que for pra ser, será! E eu espero, do fundo do meu coração, que eu esteja preparada pra tudo que irá acontecer nessa data. Enquanto isso, sigo te amando profundamente, como no primeiro abraço-casa.

Você é minha exceção!

Ingrid Borges
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