Prisão

A vida dela é bem sofrida.
Abandonada pela mãe, foi criada pelo pai.
“Pai, que pai? Pai ausente, que não cuida. Some, enche a cara de cachaça e volta com alguma vagabunda. É foda!”

Ela e seus irmãos só tem uns aos outros.
A irresponsabilidade dos responsáveis a tornou mãe de três pirralhos.
“Mas isso é louvável. Finalmente ela vai tomar juízo, vai crescer.”
Era complicado.

O pai arranjou uma nova mulher que brigava com ela todos os dias.
Com raiva, vociferou: “ou essazinha aí, ou eu!”
O pai (“que pai?”) escolheu a amante.
“Filho da puta!”

Ela saiu de casa, foi morar num quartinho alugado.
Um mês morando só e começou a passar mal.
“Deus, que seja apenas uma infecção estomacal...”

Suas preces foram recusadas.
Comprou um teste, aqueles de farmácia, e veio o resultado: POSITIVO! 
Ela agora estava gerando um filho.

O namorado assumiu, foi ‘homem’. Ficou tão contente!
“Viva! Vou ser papai novamente.”

Mas ela não queria aquela criança. Pensou até em abortar, mas a família foi contra.

“Abortar é pecado, Deus não permite.”

“Abriu as pernas porque quis, assuma as consequências.”

“Quem mandou foder sem camisinha? Na hora tava bom, né?”

“Você ainda dá sorte, teu namorado te ama, vai assumir a criança.”

“Filho é uma dádiva, uma bênção. Não vai abortar não, paciência.”

E assim ela seguiu, como sempre acovardada. Coagida. Mal compreendida. Mal tratada.

O feto foi crescendo. “Muito tarde pra tirar.”
O sexo foi descoberto. “É uma menina, vejam só”, alegrava-se o namorado.

Ele, com ciúme, batia nela com frequência. 
Um dia ela cansou e expulsou da sua vida aquele a quem chamara de amor.

Perto do nascimento, eles não eram mais um casal.
A criança veio ao mundo e o pai registrou de má vontade.
Nunca mais quis saber, esqueceu que tinha filha, tipo esses homens covardes.

Não dava leite, nem amor. Só lembrava da menina pra postar fotos. “Pelo menos ele gosta”, falavam as ‘boas’ línguas. “Gosta? Nem a pensão ele paga. Vive de namoricos, vive esbanjando dinheiro, vive na farra...”

Ele assumiu, mas pôr o nome num papel não basta. “Tem que ser presente, poxa. Tem que cuidar. Tem que ajudar a criar.”

Ela agora é “mãe solteira”. Vive em apuros pra sustentar sua garotinha. E ele é um pai ausente. Um de muitos, na verdade. Daqueles que acham que ser pai é dar presente.

A criança sofre por ser filha de um pais separados. E hoje todos comentam: “Antes tivesse abortado.”

Ingrid Borges