Indicação

[Texto escrito em janeiro de 2013]

Não é fácil falar de amor. O simples ato de mencionar essa palavra já na primeira frase é um tanto quanto ousado. Provavelmente porque em algum momento foi determinado que amar não é cool, que amar é para os tolos, atestando que está todo mundo apavorado e agarrado à preservação de uma imagem impassível. Bando de coitados, nós, humanos.

Lembro-me de quando li as palavras Amar é normal, frase que inicia o livro A Manhã Seguinte Sempre Chega, de Gabito Nunes. Como deve ter sido para muita gente, a sensação que esses termos provocaram em mim foi equivalente a um soco no estômago. A ideia de amar sempre me pareceu leve e sutil com um elefante. Gabito me desafiou.

Isso foi no início de 2011 e, ainda bem, a vida deu muitas voltas desde então. Sem os pormenores desnecessários, posso dizer que, querendo, a gente vai mudando, desfazendo-se de tabus bobos e descobrindo que pode conhecer muita coisa incrível se deixar de querer parecer mais forte do que é preciso. Por isso, nesse clima inevitavelmente tenso em que se está vivendo desde a tragédia do último domingo em Santa Maria, hoje eu vim apenas para recomendar o tal sentimentozinho polêmico. Veja bem, vou mencioná-lo pela segunda vez, agora em francês para ficar mais pomposo e para não pecar na repetição: l’amour.

Recomendo um friozinho na barriga, uma timidez intensa e boa, ansiedade, pressa e insensatez. Acho essencial ficar distraído toda hora, rir sozinho e não conseguir controlar um sorriso besta quando pensa na pessoa amada. Recomendo trocar espaços lotados e etílicos por um lugarzinho no sofá, no chão, na janela; onde quer que caibam dois corpos bem próximos, o suficiente para que respirem o mesmo ar. Recomendo inseguranças, expectativas, planos, segredos e quaisquer outras bobagens que construam uma cumplicidade única e intocável. Recomendo uma companhia que desperte a generosidade mais pura. Recomendo um amor que lhe transforme na sua melhor versão.

Recomendo apaixonar-se pelas pessoas que estão por perto, que dedicam tempo, energia ou apenas um pouquinho de carinho. Indico abrir a mente e o coração para os amigos, entender sua existência como parte essencial da vida e ter uma postura (novamente) generosa. O mesmo vale para a família, composta por variações de você mesmo. É bacana ter paciência com quem a compõe, faz bem para todo mundo — até porque a gente exige bem mais dedicação do que pensa.

Recomendo encontrar lugares, atividades, objetos e comidas (sim, comidas!) que provoquem sensações boas, que completem aquilo que cada um já é ou está em busca de ser. Recomendo flexibilidade, porque a gente tem a mania de desgostar de muita besteira e perder tempo com críticas, enfraquecendo a essência das coisas, até de si mesmo. Acima de tudo, recomendo entrega. Aos sentimentos, às pessoas, a atos de coragem e até a arrependimentos — tudo, menos à covardia. Apenas porque é preciso de algo sólido em que se segurar quando a vida nos atinge com golpes irremediáveis.

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