Linda, louca e livre? Acho que não, Apanhador Só

Reprodução / Youtube

Naa primeira sexta-feira de agosto, a banda gaúcha Apanhador Só lançou seu terceiro disco, “Meio Que Tudo É Um”. Apanhador faz parte da cena independente nacional e reune um público atento e preocupado com diversas questões sociais. Por isso, me surpreendi um pouco — mas só um pouquinho, confesso — ao ouvir a faixa de número 14 do novo álbum, chamada “Linda, louca e livre”.

Logo que li o nome da música, lembrei de “Triste, louca ou má” da Francisco, el hombre. Pesquisei se as duas bandas tinham feito algum trabalho juntas, ou se podia ser uma resposta, mas não encontrei nada. O que faz com que a louca da Apanhador seja um tanto preocupante perto da louca da Francisco. A da Francisco, além de louca, é triste e má. A da Apanhador é linda e livre. Mas existe uma diferença ainda maior entre as duas: a louca da Francisco foi escrita por uma mulher. A da Apanhador não. Meu ponto aqui não é comparar as duas bandas ou dizer que uma é ruim e a outra é boa, nem apelar para o sexismo. É apenas uma reflexão sobre como a visão de uma mulher é extremamente necessária para que coisas como o uso da palavra “louca” não se torne pejorativo.

Quando Juliana Strassacapa, cantora e compositora da Francisco El Hombre, começa “Triste, louca ou má” é o disparo do grito de inquietação diante dos enquadramentos sociais aos quais mulheres diariamente são submetidas. Já tive a oportunidade de ver a Ju ao vivo cantando essa música e me arrepiar a cada verso. É um cuidado na escolha das palavras que, talvez, nenhum homem venha a ter.

“Eu não te quero de branco, eu não te sonho no altar”, começa Alexandre Kumpinski, vocalista da Apanhador Só e compositor da música, “eu te quero linda, louca e livre lado a lado enquanto ainda nos faça algum sentido estar”. Pronto, ta aí o novo hino do relacionamento pós-moderno. É muito legal usar "louca" como algo bom num momento em que muitas mulheres de uma determinada classe e padrão social estão se libertando das imposições e do inferno dos relacionamentos abusivos, só que fora da nossa bolha esquerdista, acadêmica e feminista, a realidade é outra.

Não tem problema compor uma música que não fala de um amor eterno, complexo e possessivo. É muito importante dar esse novo sentido, mas de forma responsável. Nós mulheres somos socializadas dentro de uma cultura machista. Somos ensinadas a seguir regras para conquistar os homens, para casar, constituir uma família, ser mãe… Muitas de nós já conseguiram se libertar dessas amarras, mas ninguém nos ensina a enfrentar as consequências dessa libertação — e ser chamada de louca por aí é uma delas.

Quando um homem nos diz que quer que nossa relação com ele dure o tempo que fizer sentido durar é muito massa — desde que ele esteja atento ao tipo de submissão que passamos diariamente. Infelizmente, nos é exigido fazer uma relação dar certo custe o que nos custar. E é difícil desconstruir isso, aceitar que pode ser diferente, mesmo que o diferente seja melhor. Para os homens, falar esse tipo de coisa é só mais um exercício de privilégio. Agora, eles estão falando o que sempre falaram, mas têm o aval de uma parcela potente da sociedade pós-moderna “desconstruída”.

Todos os dias preciso lutar ativamente para ser levada a sério, para sustentar minha posição enquanto mulher, para validar tudo o que eu falo e, de repente, tem um homem dizendo que tá tudo bem ser chamada de louca porque louca pode ser algo bom. Porque ser louca é ser livre numa sociedade em que apenas por ser mulher eu já recebo uma carga mental absurda com qualquer atitude que venha a tomar.

Eu vi diversos comentários mega positivos sobre "Meio Que Tudo É Um" pelas redes sociais. Sobre "Linda, louca e livre" também, a maioria falando sobre como esse é o hino da sua vida, muitas mulheres se identificando e se sentindo acolhidas por um novo ideal de relacionamento. Algumas pessoas entenderam o refrão da música como resposta para a banda Rubel, que tem "Quando Bate Aquela Saudade" falando "Quero te ver de branco, quero te ver no altar", mas é importante lembrar que não é porque a ideia era boa que o resultado final não tem licença poética para causar alguma estranheza.

Então, eu vou ouvir Apanhador Só, que é uma banda de uma certa influência social e acaba de lançar um álbum cheio de músicas expressivas e importantes diante da realidade que vivemos, cantando aos quatro ventos que o ideal de relação é que ela exista enquanto houver sentido e que quando me chamam de louca tá tudo bem, mas vou ouvir e vou querer conversar sobre isso.

Vou ouvir questionando. Porque todas as implicações e exigências que as mulheres carregam ao entrar em uma relação não é fácil de desconstruir e terminar quando não fizer mais sentido. Vou questionar porque não é ok romantizar a palavra “louca” quando mulheres estão sendo tachadas assim como algo ruim. Não é ok sermos a ex-louca de alguém. Não tá tudo bem quando falamos mais alto para sermos ouvidas virarmos as loucas porque gritamos. Não tá tudo bem sermos chamadas de loucas nunca. Chamar uma mulher de louca, seja na poesia ou não, é, no mínimo, um descuido com uma luta diária para desconstruir esse conceito pejorativo, ofensivo e superficial no qual as mulheres são colocadas diariamente.

Edit: ontem à tarde (16/08), a Clara Corleone, ex-esposa do Felipe Zancanaro, guitarrista da Apanhador Só, publicou no Facebook um relato sobre como funcionava a relação dos dois — que durou 5 anos — e vários dos abusos e terrorismos psicológicos que ele praticava contra ela. A própria Clara autorizou que eu acrescentasse o relato dela aqui e nesse link é possível ler o texto completo https://www.facebook.com/clara.corleone.3/posts/1630787660287778.
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