O dia que eu tive consciência

Pinterest

Não faz muito tempo que tive acesso à essa consciência de opressão que tenho agora. Às vezes, tenho a impressão de que existem várias pontes e, a cada novo conhecimento, uma delas é cruzada. Depois de chegar do outro lado, não é possível voltar atrás. É assim que eu me sinto com essas questões de militância, de sociedade. Ao mesmo tempo, não é como se chegar do outro lado fosse o fim da jornada. Afinal, eu acabei de começar.

Desde que isso aconteceu, consigo perceber como me tornei uma pessoa diferente, mais consciente e com vontade de encarar meu lugar de resistência usando meu corpo e minhas palavras como forma de expressão. É percebendo os rastros que o machismo deixa nos meus dias, é levando vários tapas na cara da força das grandes ideologias impostas em todos os espaços que frequento que identifico o lugar que me encontro agora.

É a consciência desse lugar que me torna mais e mais feminista a cada dia. Não é um lugar que eu esperava estar, não é um lugar que eu quis estar desde sempre. Eu nem sei direito como eu vim parar aqui mas, mesmo caindo de paraquedas, não é simples. Dói. Todos os dias. Incomoda, irrita, estressa, deixa marcas mesmo que, olhando pra trás, eu consiga ver todos os obstáculos que já "desconstruí" e deixar lá no fundo da bagagem que eu carrego.

Eu sou branca, classe média, privilegiada em muitos aspectos, hétero, curso o ensino superior. Mas sou mulher, sou a primeira geração da minha família a entrar na faculdade e só o fiz através do Prouni e devo lutar pelo que é legítimo dentro da minha realidade. Ainda assim, é tendo consciência disso e do tamanho da injustiça que está enraizada na sociedade que eu não vejo mais uma vida sem luta.

Me pergunto diariamente como eu não consigo mais reconhecer a Ingrid de meses atrás. Era tudo tão mais fácil, viver naquela bolha sem noção de nada. Agora, ver o mundo sem filtro choca mas, ao mesmo tempo, não lutar é me permitir um luxo que eu não quero ter. E cada vez mais eu percebo que esse é um caminho sem volta, me tornando, na visão de muitos, uma pessoa mais chata. Sabendo que vários sentem falta da Ingrid de antes. Mas posso dizer que me sinto melhor assim.

A excitação de pensar, de ler, de aprender, de me colocar em espaços para ser ouvida é muito mais gratificante do que não estar atenta a esses questionamentos. Preciso diariamente ocupar um espaço que é exclusivamente da insubordinação e me desvitimizar para me empoderar. Permanecer em situações de conforto já se tornou desconfortável pra mim e o empoderamento é de outro viés: é construído, conquistado, adquirido.

"E fora, e fora de mim
De dentro afora uma ciência:
Que toda fêmea é bela"

E é vendo todos dias no Facebook, por exemplo, pessoas diferentes exclamarem aos quatro ventos suas opiniões vazias e em forma de textos gigantes cheios de palavras difíceis que não dizem nada, que decidi criar um perfil aqui para publicar textos e gerar debates mais eficazes e que tenham a capacidade de ocupar só o lugar dele e não de tomar o discurso das minorias das quais não estou inserida.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.