Sobrenadante

Eu como outras meninas tive “fases de afirmação”. Isso tudo sempre foi muito saudável. Ao crescer, eu tive um irmão mais velho muito influente. E como autoafirmação (e por iluminação) eu segui por um caminho habitado por livros que contavam histórias extraordinárias, lutas de cavaleiros do zodíaco e músicas pouco convencionais. Mesmo isso me acompanhando até hoje, acho que o me diferenciou do meu irmão, hipocondríaco clínico aos 8 anos (risos), era um certo lado naturalista nojento. Eu era um muleque, dizia meu avô. Mas não. Eu era uma criança e por regra do meu pai, eu poderia ser qualquer coisa. Isso aí, faz toda a diferença. Escolhi ser bióloga, por profissão.

Quando eu entrei na faculdade, eu era feliz. Eu queria olhar o mar, catalogar tartarugas gigantes e centenárias. Tudo balela. Eu queria sucesso. Meus amigos (felizes) da ecologia que me perdoem, mas o pote de ouro sempre ficou no departamento de genética. Fiz mestrado e hoje estou no meio do meu doutorado. Percorri o Brasil inteiro. Na verdade, quase todo. Está faltando o Sul. Aprendi um montão de técnicas legais, fiz uma porção de excelentes amigos.

Mas amigos, para chegar lá naquele pote de ouro maldito, existe uma coisa chamada competição. Na minha nobre opinião, sempre saudável. Mas é com humildade que eu reconheço que a minha última frase é um erro. Foi no doutorado que eu descobri, da pior maneira possível, que o caminho é muito mais sombrio do que eu imaginava. A primeira parte deste caminho é tortuosa e cheia de obstáculos naturais: experimentos que não funcionam, kits de reagentes que não chegam no prazo, conversas mal interpretadas. Tudo plenamente aceitável. O problema é quando os acidentes, já comuns na ciência, se tornam uma regra. Primeiro, como um ser humano, você desconfia da sua capacidade de julgamento. Acha que falta mais leitura e menos bancada. Mas não importa quantos papers você leia por dia e quantos capítulos de um livro de técnicas sejam devorados por noite. Não adianta. Suas coisas não funcionam. Como consequência, você ganha remedinhos da felicidade e conversas semanais com um amiguinho profissional caríssimo.

Com o passar do tempo e da pior maneira possível, você descobre que sua vida virou uma novela de plot medíocre. E que se foda a Maria do Bairro (muito respeito). Mas não estou falando do Luís Fernando de La Veja. Estou falando de boicote. Mas calma aí, garota. Você está louca. As pessoas são INCAPÁZES de fazer algo tão assustador contra outra pessoa. Sim, amigos. A ciência é palco de misóginos. Não sou nenhuma Rosalind Franklin e não tenho nenhum um dado de difração maravilhoso. Mas tem algo muito errado (ou muito bom) acontecendo no meu pedaço de bancada. Mas o que mais machuca não é o fato de um cara (X+Y) está te tratando como louca. O que assusta é que o golpe vem de uma mulher. Não sei se é conveniente falar de feminismo neste caso, de igualdade e, principalmente de sororidade. Mas além de leitura científica, falta leitura de vida e de luta.

Muitas vezes é preciso voltar lá atrás para entender o que está acontecendo agora. Mas para mim não é certo culpar meu pai, que sempre me tratou como igual em relação aos meus irmãos pelo meu comportamento. Não devo sair espalhando por aí verdades pela metade. Falando coisas, como: aaaah, como eu sou simpática e recatada. Isso simplesmente não cabe na minha visão de mundo. Além disso, não devo sair falando que eu trato essa criatura como Jesus nos ensinou (Graças a Deus, eu sou Ateia). Eu não tenho estômago. Literalmente, uma vez que o estresse me deu uma gastrite, seguida de estenose. Mas o que eu quero chamar atenção é para falta de humanidade e respeito. Faça sua escolha, seja quem você deseja ser. Mas não faça da sua vida um objetivo de tornar a minha um buraco. Seja machista sim! Precisamos de exemplos. Mas seja humana. Não sei se isso é uma contradição. Mas deve ser. Case, tenha filhos, seja sustentada e faça da sua vida um eterno palco para um homem. Mas se quiser algo diferente, crescer e ter o nome estampando em um livro texto, seja digna. E dignidade, puta termo filosófico escroto de explicar, é uma coisa sensorial, do meu ponto de vista. Não torne o seu discurso machista, uma ideologia. Seja mais uma, mas apoie a amiga ao lado. Ajude ela tornar isso aqui um ambiente menos hostil para aquela nova Rosalind Franklin que está para nascer mais uma vez.

Hoje, eu continuo na ciência por amor. Pela luta e, devo confessar, pelo pote de ouro. Quando afirmo que é pelo amor, estou falando do apoio. Gratidão aos ouvidos, aos doces, aos cafés e aos excelentes cientistas. Luta para calar alguém que repetidamente quer te mostrar a sua incapacidade, baseada em um ou mais dois hormônios que percorrem as minhas veias. Amigo, não vai funcionar. E por fim, eu continuo na ciência pela ciência. Pelo resultado sem mediocridade, sim. Pelo sucesso, sim. Para honrar o compromisso com a minha criança naturalista sempre.

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