13 coisas que você deveria considerar antes de criticar “Thirteen Reasons Why” [SPOILERS]

Antes de qualquer coisa, eu quero dizer que esse não é post dizendo se você deve defender ou criticar a série “Thirteen Reasons Why”, da Netflix.

Acontece que tenho visto muitos textos na internet como “6 Motivos par a não assistir 13 Reasons Why”, “Por que 13 Reasons Why é uma série irresponsável” e inclusive o de um psicólogo, entitulado “13 parágrafos de alerta sobre 13 Reasons Why”, e todos esses textos, por mais que talvez estejam certos, apresentaram alguns argumentos que achei questionáveis. Meu intuito aqui é fornecer uma base sólida para que todos possam defender ou criticar a série com argumentos consistentes e fontes confiáveis.

Vamos lá?

1. Não falar sobre suicídio na mídia não tem feito com que as pessoas parem de cometê-lo

Muitas pessoas defendem que tocar no tema do suicídio como a série tem feito vai contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (o que será abordado abaixo) e, por isso, pode levar a uma onda de suicídios.

Mas o fato é que, até recentemente, esse tema não vinha sido abordado por quase nenhuma produção televisiva ou cinematográfica, e mesmo assim os números de suicídios anuais são altos — 25.8 a cada 100 mil pessoas na Hungria, 32.7 a cada 100 mil pessoas na Polônia, 47 a cada 100 mil pessoas na Lituânia e 9.9 a cada 100 mil pessoas no Brasil.

Será então que não está na hora da mídia assumir um papel mais ativo em relação a isso? Muitos sites defendem que não, que a mídia não deve se envolver com assuntos de saúde pública, mas o próprio documento sobre abordagens de suicídio publicado pela OMS diz que “devido a esta grande influência, os meios de comunicação podem também ter um papel ativo na prevenção do suicídio.”

Talvez a questão seja justamente que passamos muito tempo tentando esconder o suicídio enquanto poderíamos estar trabalhando-o de uma forma que contribuísse para diminuir os casos ao redor do mundo.

2. O problema não é mostrar o suicídio em si, e sim a forma como ele é mostrado

O tal documento da Organização Mundial da Saúde que vem circulando em muitos dos textos contra a série defende que “ Devido a esta grande influência, os meios de comunicação podem também ter um papel ativo na prevenção do suicídio.”

Segundo a OMS, a publicidade sobre suicídios pode sim levar a mais casos e “(…) a maneira como os meios de comunicação tratam casos públicos de suicídio pode influenciar a ocorrência de outros suicídios.” O grande ponto do documento da é que a mídia em geral não noticia os suicídios, apenas em casos extraordinários e por isso “(…) mostrá-los como típicos perpetua ainda mais a desinformação sobre o suicídio.”

É preciso ficar claro que a OMS não diz em nenhum momento que o suicídio não deve ser abordado pela mídia, mas sim que deve ser feito de forma consciente. “ De modo geral, existe evidência suficiente para sugerir que algumas formas de noticiário e coberturas televisivas de suicídios associam-se a um excesso de suicídios estatisticamente significativo”. Pelo contrário, o documento propõe a forma como o suicídio deve ser exibido e — mesmo que aqui alguns de vocês discorde da minha opinião — acredito que a série “Thriteen Reasons Why” seguiu as recomendações da OMS à risca.

Segundo o site Mindframe, “a forma em que o suicídio é reportado parece ser extremamente significante. Enquanto a evidência de que a mídia reportando os casos possa contribuir para uma diminuição é pequena, há alguns estudos isolados que sugerem que reportagens que mostram o suicídio como um desperdício trágico e uma perda evitável, e que focam no impacto devastador sobre os outros, estão ligadas com a redução das taxas de suicídio.”

Além disso, o site cita um estudo realizado em 2010, que mostrava que os suicídios retratados no cinema e na televisão eram “romantizados, glorificados e tolerados”, o que podia contribuir para a imitação, principalmente no caso de jovens.

É justamente por isso que foi importante que “Thirteen Reasons Why” retratasse a morte de Hannah de forma crua, realista e dolorosa, combatendo a romantização do suicídio e possivelmente mudando as ideias de jovens que planejavam cometê-lo. Um fato parecido aconteceu com a forma que a mídia retratou o suicídio de Kurt Cobain, que será abordado em outro ponto.

3. A opinião de psicólogos sobre o assunto também diverge bastante

Vi muitas pessoas compartilhando o post do piscólogo Luís Fernando Tófoli, sobre os perigos de “Thirteen Reasons Why” para adolescentes com tendências suicidas. E, de fato, a opinião de um psicólogo sobre esse assunto é extremamente importante.

O que acontece, porém, é que só pelo fato de esse post ter viralizado nas redes sociais, parece que as pessoas estão levando a opinião de Tófoli como um consenso geral entre todos os psicólogos, e a verdade é que não é bem assim.

De fato, alguns psicólogos além do Dr. Tófoli apontam que a série pode levar a tentativas de suicídio. Para Carmita Abdo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), “a veiculação ou divulgação de um suicídio pode inspirar pessoas que pensam no assunto” e a psiquiatra Airi M. Sacco acredita que o suicídio de Hannah tenha sido abordado de forma romantizada.

Mas, para quem não sabe, a produção da série foi acompanhada de perto por várias especialistas no assunto: Dra. Rona Hu, especialista em pacientes com transtornos mentais como esquizofrenia, bipolaridade e depressão; Dra. Helen Hsu, especialista em saúde mental de comunicades multi-culturais; Dra. Rebeca Hedrick, especialista em psiquiatria de jovens e crianças. E todas essas psicólogas e psiquiatrias, especialista no assunto, consideraram extremamente importante retratar o suicídio de Hannah da forma que foi retratado.

No especial exibido após o fim da série, a Dra. Helen Hsu defendem que “Por mais difícil que tenha sido assistir a decisão final que Hannah tomou quando morreu por suicídio, acredito que tenha sido importante mostrar que não é uma morte bonita, não é fácil, e então a dor que nunca termina, para os pais dela logo em seguida, que são deixados com esse fardo horrível”.

A Dra. Rona Hu, no mesmo especial, diz que “É importante para os espectadores ver que sempre há muitos efeitos colaterais quando alguém morre. E a pessoa que está contemplando o suicídio pode não perceber o quanto sua morte afetaria as pessoas que elas amam e que elas não gostariam de magoar.”

Para além das opiniões das especialistas que acompanharam a série, outros psicólogos e psiquiatras defenderam a importância da abordagem de alguns temas ao longo da história.

A questão aqui é: a opinião de psicólogos e psiquiatras é de extrema importância para se debater a forma como o suicídio é retratado na série, mas antes de usá-la como argumento, tenha em mente que mesmo entre os profissionais da área, as opiniões sobre o assunto divergem.

4. “Thirteen Reasons Why” não é a primeira série a mostrar uma cena de suicídio

Eu entendo que nenhuma série até então tratava principalmente do tema “suicídio”, mas vejo várias pessoas comentando como se o tema nunca tivesse sido abordado no entretenimento antes, principalmente no que diz respeito à cena da morte em si.

[ALERTA] Os próximos parágrafos terão spoilers de várias séries. Se você não quer correr o risco de vê-los, sugiro que passe para o próximo tópico.

Em “Skins” — uma série que abordava muitos temas polêmicos e tinha uma enorme quantidade de gatilhos — tivemos duas cenas marcantes de suicídios: na primeira temporada, a personagem Cassie — numa cena completamente romantizada — engole um saco de remédios misturados com uma dose de vodka enquanto dança em cima de um banco ao pôr-do-sol. Na terceira temporada, enquanto Effy sofre de depressão, Freddie a encontra no banheiro com os pulsos cortados e cheia de sangue, numa cena arrasadora.

Em “Orange Is The New Black”, na primeira temporada, temos a cena em que Trish é encontrada enforcada em uma sala da prisão, e a que Soso tenta se matar de overdose. O enforcamento também fez parte de “Lost”, apesar de não concretizado, quando John Locke tenta se matar e não consegue. Em “American Horror Story: Murder House”, Violet comete suicídio com remédios e Tate tenta salvá-la, mas falha.

Todas essas séries mostraram cenas de suicídios e formas de como fazê-lo, mas após uma pesquisa na internet, não consegui encontrar nenhuma notícia ou debate que falava sobre as consequências negativas da exibição destas cenas, nem mesmo sobre o filme japonês “Clube do Suicídio”, que aborda e mostra graficamente uma série de suicídios cometidos em grupo por jovens japoneses. Pelo contrário, encontrei vários blogs sobre Skins em que adolescentes com depressão falavam sobre a importância de abordar os temas que a série trabalhava.

Então, novamente, você pode e deve criticar a cena de suicídio de Hannah se não concorda com ela, mas não fale como se fosse a primeira série a mostrar uma cena assim.

5. A série fez crescer o número de pedidos de ajuda ao CVV

Mesmo com todas as críticas e previsões de que “Thirteen Reasons Why” iria aumentar os casos de suicídio no mundo, a realidade parece ter sido diferente.

No Brasil, O CVV — Centro de Valorização da Vida teve um aumento extremamente significante no número de ligações recebidas de jovens que buscavam ajuda. O site Ligado em Série, assim como muitos outros, afirma que “segundo a entidade, o volume de ligações e mensagens de chat cresceu 100% após a estreia da série, com muitos relatos de pessoas que procuraram o CVV e mencionaram a produção da Netflix.”

Então, na próxima vez que você for defender que a série pode aumentar o número de suicídios, lembre que ela já aumentou o número de casos que foram impedidos.

6. A série possui muitos gatilhos — mas a maioria é avisada com antecedência

É verdade que cada pessoa com um trauma possui gatilhos diferentes, mas alguns deles, como cenas de estupro e suicídio, são mais comuns do que outros.

A série “Thirteen Reasons Why” de fato peca em não colocar os números de centros de ajuda ao longo de seus episódios, mas o que ninguém está falando é sobre os alertas de gatilhos colocados antes de cada um.

Em quantas séries — “Game of Thrones” que o diga — não vimos cenas horríveis de estupro, bullying, slutshaming e muitos outros pontos delicados sem aviso algum? Sem preocupação nenhuma com como aquilo irá afetar a audiência?

A série de fato errou em não colocar os números de apoio, mas ela fez algo que eu, pelo menos, nunca havia visto em nenhuma outra: colocar um aviso antes dos episódios com o tipo de gatilho que será exibido, alertando o espectador, que pode optar por não assisti-lo. E por que ninguém está falando sobre essa atitude da produção?

7. Os casos de Jessica e Hannah são uma realidade que devemos combater

Muitas pessoas estão reclamando que a série dá a ideia de que casos de estupro com os de Jessica e Hannah não têm solução, e por isso muitas meninas acabam ficando caladas. E é verdade. A série dá essa ideia mesmo. Mas por que isso é um problema?

Casos como os das duas são extremamente comuns e isso de fato acontece na nossa sociedade. Vejam o caso da Ke$ha, por exemplo, que foi abusada por seu agente Dr. Luke e vem perdendo para ele no tribunal porque sua palavra não é o suficiente para comprovar o assédio. Vejam o caso da jornalista que foi verbalmente assediada pelo cantor Biel e foi demitida ao se pronunciar. Ou o caso da Youtuber Carol Moreira, que ao reclamar da postura de Vin Diesel em uma entrevista, foi acusada de “mimimi” e de “querer chamar atenção”

É horrível, mas é verdade que existem muitas Jessicas e Hannahs na vida real, e é extremamente importante que a série nos passe essa sensação de impotência, pois só assim sairemos de nossa zona de conforto e lutaremos para que eles deixem de existir.

Afinal, eu tenho certeza de que passou pela cabeça de várias pessoas que estavam assistindo coisas como: “A Jessica não deveria ter bebido tanto”, “Por que a Hannah foi pra casa do cara que estuprou a amiga dela?”, “Por que la não disse não?”. Eu mesma me peguei fazendo algumas dessas perguntas e logo em seguida percebi a pessoa horrível que estava sendo ao culpabilizar a vítima nessa situação. Porque nada, nem uma bebida, nem o lugar que você está, nem a roupa que você está usando, nem o fato de não ter dito exatamente a palavra “não” justifica um abuso sexual.

A situação vem mudando, a exemplo da recente denúncia de assédio do ator José Mayer, que foi excluído pela Globo de sua próxima novela, e a expulsão de Marcos, do BBB, após abusar fisicamente e psicologicamente de Emilly. Mas não podemos esquecer que, nos casos que não são noticiados pela mídia como esses, as meninas muitas vezes realmente não têm o que fazer, e cabe a nós mudar essa situação.

8. Bryce não saiu impune de toda a situação

Outra crítica que tenho visto muito é sobre não termos visto o principal vilão da série — Bryce — pagando pelos erros que cometeu. Acontece que, não é porque a série não mostra isso, que realmente não aconteceu.

Sim, de fato é preciso mostrar o criminoso sofrendo as consequências de seus atos, mas isso não ter sido mostrado na primeira temporada foi apenas um dos diversos artifícios que os roteiristas usaram para deixar um gancho para uma segunda temporada. Afinal, tanto os produtores da série quanto o autor do livro já afirmaram que querem que a série continue.

A intenção de não mostrar Bryce sendo julgado e preso, ou seja o que for que aconteceu com ele, é justamente nos deixar com raiva e querendo vê-lo se dar mal, o que certamente será abordado na próxima temporada de uma forma muito mais profunda do que se tivesse sido retratado apenas no final do 13º episódio.

Além disso, tudo tende a crer que ele foi sim condenado: a entrega das fitas para os pais de Hannah, a exposição do caso para o conselheiro da escola e a própria forma com que Justin se despede de Bryce.

9. A série não é sobre vingança, e sim sobre rever suas próprias atitudes

Quando te dizem que a série é sobre uma garota que gravou 13 fitas, cada uma para uma pessoa que foi um dos motivos pelos quais ela se matou, é natural que se pense em vingança. Mas é importante ressaltar que a série, incluindo as ações de Hannah, não giram unicamente em torno disso.

Se a intenção de Hannah realmente fosse somente se vingar de seus colegas, ela teria enviado as fitas para a polícia, teria publicado-as em algum lugar, ou qualquer coisa assim. Mas não: ela escolheu enviá-las somente para as pessoas responsáveis, com a intenção de que o conteúdo fosse mantido em segredo, o que não mostra somente um desejo de vingança, mas também de que as pessoas tomassem conhecimento sobre suas atitudes e mudassem seus comportamentos para que mais casos como o dela não acontecessem.

A própria Hannah, nos últimos episódios, menciona que não sentia mais nada. Dessa forma, não é possível dizer que ela gravou as fitas por raiva, por tristeza, ou por qualquer coisa assim, mesmo que ela diga que “espera que isso seja doloroso” para quem ouvir. As fitas estão lá para responder a pergunta de “por que uma garota jovem, bonita e com um futuro pela frente tiraria a própria vida?”.

Além disso, o que muitas pessoas parecem estar esquecendo, é que a série não é vista só por quem tem tendências suicidas, mas também por muitos Bryces, Jessicas, Justins e Alexes da vida real. Pessoas que podem estar causando os pensamentos suicidas de seus amigos sem nem perceberem, mas que ao assistir aos episódios, se deem conta disso e mudem seu comportamento.

10. A série não passa a ideia de que suicídio é a única saída

Esse ponto vai mais de uma interpretação minha da série do que de fatos concretos e notícias. Por mais que muitas pessoas tenham interpretado o fim da série como a ideia de que o suicídio é a única opção em alguns casos, eu acho justamente o contrário.

Muitas vezes, ao longo da série, nos pegamos ficando com raiva de Hannah. Ela precisava ter gritado com Zach? Por que ela não via Clay e Tony como amigos na escola? Por que não buscou ajuda de seus pais — que convenhamos, eram os pais mais legais da história?

É justamente essa raiva que me faz crer que a série não mostra o suicídio como uma única saída. Nós sabemos que Hannah podia ter buscado outras formas de resolver seus problemas, mas por mil motivos ela não o fez, e isso gerou consequências enormes para seus pais, para seus amigos próximos e, principalmente, para Clay.

Eu acredito que a série mostra que o suicídio só serve para magoar as pessoas que se preocupam de fato com você, mesmo que elas não tenham agido da melhor forma possível. Também serve para mostrar que foi uma decisão egoísta da própria Hannah, que termina suas fitas dizendo “alguns de vocês se importaram, nenhum o suficiente. Nem eu mesma, e eu sinto muito.”

11. Você sabia que algumas músicas da série estão relacionadas a casos famosos de suicídio?

Eu descobri recentemente que a trilha sonora de “Thriteen Reasons Why” contava com uma música que estava na carta de suicídio de Kurt Cobain e outra que havia sido escrita pelo vocalista suicida da banda Joy Division. Além disso, em um episódio Alex menciona a música húngara Szomorú Vasárnap, conhecida como “a música do suicídio”, por ter provocado a morte de cerca de cem pessoas.

Mesmo que a Organização Mundial da Saúde diga que “a associação entre peças de teatro ou músicas no comportamento suicida foi pouco investigada até o momento”, não podemos negar que é problemático fazer tantas referências musicais a casos de suicídio na série.

Mas minha pergunta aqui não leva em conta se as músicas podem ou não levar a novos casos de suicídios por estarem relacionadas ao tema. O que eu pergunto é: você sabia dessa relação antes de ler artigos criticando a série, ou só depois de lê-los? Você percebeu, ao longo da série, que essas músicas tratavam de casos famosos de suicídio? Elas tiveram, ao longo da série, algum efeito em você além de inseri-lo no clima da trama?

Se sua resposta para essas perguntas for “não”, fica aqui o questionamento sobre a real validade de usar essas músicas como um argumento para defender que a série é “irresponsável” e “pode levar ao suicídio”.

12. O caso da morte de Kurt Cobain

Como mencionado no ponto acima, muitos estão criticando a escolha da música “Hey Hey”, do Neil Young, que foi citada na carta de suicídio de Kurt Cobain. É verdade que esse foi um dos casos de suicídios mais famosos da história do entretenimento, mas você sabia que ele não foi responsável por uma “onda de suicídios” como muitos autores desavisados tendem a defender, e sim um dos maiores exemplos de contenção de suicídios em massa da história?

O livro “Kurt Cobain: A Construção do Mito” foi escrito por Charles Cross, um amigo próximo de Kurt. No capítulo “Acontece Todo Dia”, ele aborda as consequências do suícidio do cantor.

“O suicídio de Kurt saiu na primeira página de todos os jornais, ganhou capa de muitas revistas (…), foi noticiado nos telejornais de todas as grandes emissoras, recebeu cobertura ininterrupta da MTV e se tornou o assunto dos debates de rádio durante dias.” (p. 136). Mas, mesmo assim, as consequências do ato de Kurt foram extremamente positivas.

No ano de 1994, quando o cantor se suicidou, outras 30.574 pessoas haviam feito o mesmo nos Estados Unidos. “O suicídio se tornou uma questão de saúde pública tão séria que a tarefa de combatê-lo pertence hoje aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (…)” (p.317). Foi graças a morte de Kurt que o estado de Washington implantou, em 1995, o Plano de Prevenção ao Suicídio e despertou uma série de pesquisas na área.

“No início, o estardalhaço causado pela morte de Kurt deixou os funcionários da área da saúde alarmados, temendo que aquilo influenciasse jovens vulneráveis.” (p.140). Mas o que aconteceu, para a surpresa de todos, foi o contrário. “as estatísticas do condado de King, onde Kurt viveu e morreu, mostram que o número de suicídios diminuiu nos meses seguintes à sua morte.” (p.141). As taxas de suicídio naquele período diminuiriam inclusive em locais muito distantes de Seattle em que Kurt era adorado, como a Austrália.

O pesquisador David A. Jobes atribui a diminuição do número de suicídios aos aspectos da cobertura da imprensa — que seguiu os parâmetros propostos pela OMS — , ao método usado por Kurt — extremamente sangrento e doloroso — e ao apoio dos centros de contenção de crises. Além disso, o funeral público de Kurt também serviu como impedimento, pois a própria Courtney Love descreveu o modo terrível como o marido morreu e as consequências de sua morte para os parentes, o que serviu para conscientizar os fãs ali presentes.

Então, na próxima vez que você vir alguém criticando “Thirteen Reasons Why” por tocar a música mencionada na carta de Kurt Cobain, lembre-se que se trata de uma referência ao maior caso de contenção de suicídios em massa da história, e não o contrário.

13. Você já tentou ou pensou em se matar?

Acho que a última questão que fica aqui é se você realmente tem autonomia para dizer o que leva ou não uma pessoa ao suicídio, e de que formas essa série contribui para isso.

Você já pensou em se matar? Já tentou? Está passando por isso nesse momento?

Mesmo que nos sintamos responsáveis pelas pessoas ao nosso redor, em alguns casos não é nosso dever dizer o que é certo ou errado para elas. Só uma pessoa que passou de verdade pela experiência de tentar ou considerar o suicídio saberá dizer o que é aceitável e o que não é nessa série. E, mesmo assim, cada pessoa passa por isso de uma forma diferente.

Por isso, se você nunca passou por essa experiência, sugiro que converse com pessoas que já passaram. Não uma ou duas pessoas, mas várias. Veja a opinião delas em grupos de Facebook, fale pessoalmente com elas, procure textos. Saiba como é realmente estar nessa situação antes de querer opinar sobre o assunto.

Então é isso.

Espero que tenha conseguido esclarecer alguns pontos das discussões recentes sobre “Thirteen Reasons Why” com esse texto. Você pode, depois de lê-lo, defender a série com unhas e dentes, ou criticá-la com todas as suas forças. O importante é que você leve em consideração todos esses pontos antes de fazê-lo (: