“Meus 15 Anos”: O filme que você não quer ver, mas precisa

Indignada
Indignada
Jul 21, 2017 · 5 min read

Quando se trata de cinema brasileiro, eu tenho a impressão de que existem dois tipos de filme: as comédias escrachadas “para toda a família”, que são o “cinema mainstream”, e os filmes “de cineasta para cineasta”, o “cinema cult”.

Os poucos filmes que fogem desse padrão são justamente os que mais fazem sucesso no Brasil e fora dele, mas mesmo esses filmes têm uma coisa que me incomoda: eles são extremamente brasileiros. São sempre sobre a vida na favela, corrupção, jogadores de futebol e coisas desse tipo que, para quem não vive nesse contexto, não há a menor identificação.

Eu sempre senti que o Brasil tinha dificuldade de contar histórias universais, que pessoas de qualquer país conseguiriam se identificar. Uma das poucas exceções que encontrei foi a série “3%” que, apesar de pecar em muitos outros pontos, conseguiu contar uma história universal e por isso se saiu tão bem em muitos outros países.

“Meus 15 Anos” foi o primeiro filme brasileiro que realmente achei capaz de atingir uma audiência global. É claro que eu provavelmente nem teria ido ao cinema para vê-lo se não tivesse ganhado dois ingressos numa promoção do “Frango Assado”, mas fui completamente surpreendida.

É claro que precisamos levar em conta que se trata de um filme voltado para o público adolescente, e por isso não podemos comparar o roteiro com filmes muito mais profundos e reflexivos. Mas podemos compará-lo com os famosos filmes do Disney Channel, como “High School Musical”, “Camp Rock”, “Lemonade Mouth” e “16 Desejo” e, devo dizer, nesse contexto ele está no mesmo nível que os filmes americanos.

A vibe de filme do Disney Channel já deixa a proposta interessante, mas o fato de ser brasileiro foi o que mais se destacou para mim. “Meus 15 Anos” soube fazer uma história genuinamente brasileira, mas com a qual os adolescentes de qualquer outro país poderiam se identificar.

Afinal, quem não se lembra da sensação de estar no primeiro colegial e vivenciar todas aquelas festas de quinze anos? O momento da entrega dos convites, a dúvida de ser chamado ou não, a competição de quem teria a melhor festa. Nesse ponto, é como se o filme fosse uma versão brasileira e muito mais identificável de “High School Musical.”

Num primeiro momento, eu me perguntei “por que uma menina não aceitaria uma festa de quinze anos incrível com tudo pago e show da Anitta?”. Mas o filme conseguiu dar uma justificativa muito inteligente para isso, e criou várias tramas e conflitos paralelos que moveram a história como um todo.

Outro crítica que eu geralmente faço a filmes brasileiros é a atuação exageradamente teatral dos atores — uma vez que muitos fizeram sua carreira no teatro para depois ir para as telas. É claro que um ou outro ator de “Meus 15 Anos” deixa a desejar, mas, no geral, a atuação foi muito convincente — o suficiente para me fazer chorar em algumas cenas.

Os personagens são muito originais e se encaixam perfeitamente no contexto de hoje: a personagem principal tímida e excluída, o melhor amigo awkward que não tem coragem de se declarar, a ex-melhor amiga que agora só se preocupa com a popularidade, a louca dos signos, a aspirante a influencer, o garoto bonito do terceiro ano e seus amigos nem tão bonitos mas que sempre tentam pegar geral… E, é claro, o pai da protagonista. Edu, vivido por Rafael Infante, é o grande destaque do filme. É engraçado, preocupado com a filha na medida certa, e colabora para gerar a grande questão do filme: a diferença entre “querer” e “precisar”.

Outro ponto incrível é a trilha sonora: como se já não bastasse a música tema do filme — “Meu Pacto”, cantada por Larissa Manoela -, que é extremamente catchy, e a performance especial de Anitta, a trilha ainda conta com a famosa “A Thousand Years”, de Christina Perri, uma nova versão de “Fico Assim Sem Você” e um cover acústico maravilhoso de “I’m Yours”, feito por Daniel Botelho.

A produção, principalmente na parte da festa, é impecável. Fiquei extremamente feliz de saber que não é só a Globo que tem capacidade técnica para fazer um filme tão bem produzido no Brasil, e espero por mais produções como essa.

No final, “Meus 15 Anos” é uma grande lição sobre independência, sororidade e amadurecimento. Não vou entrar em detalhes aqui porque realmente espero que vocês assistam, mas se você é uma dessas pessoas que amou o final de Frozen porque o que salvou a Anna foi o amor da irmã e não do príncipe, tenho certeza que vai se orgulhar e se emocionar com esse filme.

Vale ressaltar também que quatro dos cinco roteiristas são mulheres, assim como a diretora Caroline Fioratti. Isso com certeza contribuiu para a criação de um filme que inspirasse milhares de adolescentes brasileiras.

Ah, e se mesmo depois desse texto você achar que não está a fim de ver um filme de adolescente protagonizado por uma ex-atriz do Carrossel, considere ao menos levar suas filhas/primas/sobrinhas mais novas para vê-los. Esse é certamente um filme que toda pré-adolescente brasileira precisa assistir. Eu já amei o filme agora, mas tenho certeza de que se tivesse assistido com 14/15 anos, teria se tornado meu filme favorito na época.

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