Sense8 Temporada 2: Já passou da hora de começar a entender alguma coisa (SPOILERS)

A tão esperada segunda temporada de “Sense8” finalmente estreou e a emoção dos fãs — incluindo eu — não poderia ser maior. Passamos dois anos esperando para ver ação, romance, orgias, risadas e, principalmente, respostas. Mas pelo jeito não se pode ter tudo nessa vida.

Não entender nada, quando se trata de “Sense8”, já virou praticamente um meme. Quantos amigos você não convenceu a assistir que disseram “Ai, não gostei, não entendi nada” e você respondeu “Eu também não, continua vendo!”? Quantas vezes você não tentou explicar o enredo da primeira temporada e falhou ridiculamente?

Esse tipo de coisa era muito legal quando falávamos da primeira temporada, mas depois de tanto tempo esperando pela segunda, eu — e todo mundo, acredito — achei que ela traria pelo menos algumas respostas. A nova temporada, porém, só serviu para deixar todos ainda mais confusos.

Não estou querendo desmerecer o trabalho de Lana Wachowski, e preciso reconhecer que os arcos individuais dessa temporada — a ascensão de Capheus como líder político, as descobertas de Kala sobre seu marido, a revelação da sexualidade de Lito, os problemas familiares de Nomi, o envolvimento de Wolfgang com Lila e a fuga de Sun da prisão — foram incrivelmente melhores que o da primeira.

A série falha, porém, no que diz respeito ao arco principal — a guerra contra Sussurros e a OPB.

Num primeiro momento, temos um Will extremamente fragilizado que foge de Sussurros usando drogas pesadas. Já no segundo episódio, porém, Will consegue reverter sua situação: eles descobrem informações valiosas sobre a vida pessoal de Sussurros, o que o leva ter um surto durante uma reunião importante e ser afastado do alto escalão da OPB por “ter sido comprometido”.

Em seguida, Will se encontra com um membro da OPB que explica que há uma espécie de guerra interna dentro da organização. O mesmo líder é então assassinado por uma sensate controlada por Sussurros — que voltou ao alto escalão sem nenhuma explicação plausível — e Will se vê obrigado a fugir novamente.

Em meio a toda essa confusão, temos o personagem de Jonas. No início da temporada, ele está sendo torturado pela OPB e, quando consegue, passa informações para Will — nenhuma que, vale ressaltar, realmente explica alguma coisa. O mesmo personagem, de repente, é visto logo depois em um quarto de hotel, de terno, super arrumado, e diz ter dado um jeito de se livrar da OPB — mas, novamente, faz o maior mistério sobre isso.

O arco principal continua a se “desenvolver” conforme os sensates decidem descobrir mais sobre Sussurros, Angelica e Jonas. Mas… por que, exatamente? A resposta óbvia é: para vencer a OPB e se livrar de Sussurros. Mas… Será que é isso mesmo que eles querem? A forma com que as informações foram surgindo e se relacionando dão a impressão de que nem a própria roteirista sabia que história queria contar.

Ao mesmo tempo em que o cluster quer saber mais sobre Sussurros e descobrir seu nome, eles decidem investigar a vida de Angelica, e descobrem que um de seus “filhos” conheceu Lito no passado. Ao investigar o tal filho — Raoul — Lito descobre pistas de uma cabana nos Estados Unidos. Essa parte da investigação fica por conta de Nomi, que vai até a localização sobre Amanita e descobre mais sobre o passado de Angelica. Nada disso leva, de fato, a lugar nenhum. São partes da história que só colaboram para criar um redemoinho de mistérios nunca respondidos.

Enquanto tudo isso acontece, Riley finalmente começou a fazer alguma coisa de útil na série. Ela resolve se expor em uma festa para tentar se conectar com outros sensates que possam oferecer respostas sobre a OPB. Para isso, ela decide sair sem usar bloqueadores.

Aliás, vamos falar sobre bloqueadores? Que pilulazinha mágica é essa que os roteiristas resolveram introduzir só nessa temporada, e que parece ter sido inventada só agora? Quero dizer, na primeira temporada, os sensates saíam em público várias vezes e nunca encontraram um outro sensate que fosse — além de Jonas — mas agora fazer isso é a coisa mais arriscada do mundo, e toda vez que eles o fazem, se conectam com 4584905 pessoas. Que falha de roteiro foi essa?

Bem, bloqueadores à parte, Riley faz um amigo sensate que lhe diz que ela descobrirá o nome de Sussurros somente se for sozinha a Chicago. E então pensamos “nossa, alguma coisa muito louca vai acontecer com a Riley em Chicago, se ela tem que ir até lá só pra descobrir o nome do cara.” Mas não. Não acontece nada. Ela realmente só precisava estar lá pra saber pessoalmente o nome.

Depois de todo esse sufoco para descobrir essa informação, você também deve ter achado que eles iriam fazer algo com isso. E eles de fato planejavam: Will está prestes a matá-lo quando descobre que Jonas está vivo, e esse momento de distração é o suficiente para que Sussurros escape. Não vou nem entrar no detalhe que a série não mostrou de que forma o nome de Sussurros foi o suficiente para descobrir sua localização. Vou assumir que Nomi fez todo o trabalho e a diretora, por algum motivo, simplesmente decidiu não mostrar essa parte e jogar Will em frente à casa do inimigo.

Acontece que, depois disso, o cluster simplesmente parou de ir atrás de Sussurros por praticamente dois episódios inteiros. Will não fez simplesmente nada com as informações que coletou na casa, a ida de Riley pra Chicago não serviu pra quase nada.

É só quando Wolfgang é sequestrado que eles decidem agir de fato. E agora eu pergunto: como diabos Lila sabia que Wolfgang estava conectado com Will? Como ela sabia que ele era do cluster que Sussurros estava procurando? Como o próprio Sussuros sabia disso, se ele só tinha acesso às coisas que Will via pessoalmente?

E agora entramos na parte da história que me deixou mais inconformada.

Wolfgang é sequestrado pela OPB e, de repente, depois de dois episódios, Will tem um plano. E esse plano envolve que todos os personagens viagem para Londres. Mas poxa, pra que perder tempo explicando como Capheus arranjou dinheiro pra isso, como Kala mudou seu vôo ou como Lito explicou para Hernando e Dani o que estava acontecendo? Pra que mostrar um caminho lógico que faça sentido quando podemos SIMPLESMENTE SÓ FAZER TODOS ELES APARECEREM MAGICAMENTE EM LONDRES? Só vejo “falta de budget” gritando de toda essa situação? Afinal, lembremos que a série está prestes a ser cancelada por conta do alto orçamento.

Bem, Wolfgang continua sendo torturado enquanto Will — QUE ATÉ ENTÃO TINHA UM PLANO — implora a Jonas que ele lhe diga o que fazer, mas Jonas joga mais uma de suas frases misteriosas e sem sentido algum.

Então, de repente WILL ESTÁ PESSOALMENTE NA SALA DE SUSSURROS! Uau, sim, que reviravolta, que genial, que… Mas espera, como isso aconteceu? Num primeiro momento pensei “não, calma, eles ainda vão explicar, foi só pela surpresa”. Mas não. Eles não explicaram. É claro que eu deduzi que Will encontrou a sede da OPB e o hotel de Jonas pelos documentos deixados pra trás, e imagino que Nomi tenha hackeado o lugar. Mas era pedir demais que isso fosse MOSTRADO?

Eu queria ver o momento em que os oito protagonistas finalmente se encontraram, queria ver a explicação de Lito para Hernando sobre sua condição, queria ver Nomi hackeando os sistemas da OPB, tudo isso. Eu não consigo aceitar que uma série tão incrível quanto Sense8 tenha achado desnecessário mostrar essas coisas. Só consigo pensar, novamente, em uma coisa: FALTA DE BUDGET.

Então pessoal, por mais que nós gostemos do mistério de “Sense8”, por mais que “não entender nada” tenha virado uma piada entre os fãs, é completamente inaceitável que a Netflix nos tenha entregado uma segunda temporada nessas condições. É inaceitável que, nessa altura do campeonato, com provavelmente só mais uma temporada pela frente, a história ainda não faça sentido nenhum para nós.

Então, por favor, por mais que vocês amem “Sense8”, reflitam um pouco se essa temporada merece ser tão enaltecida assim, ou se vocês estão se convencendo a gostar dela por apego à primeira. Por mais que gostemos de uma série, roteirista ou diretor, precisamos reconhecer quando eles não fazem seu trabalho da melhor forma possível.