Um modelo de negócio para o jornalismo


Jornalismo tradicional

O negócio do jornalismo tradicional, além de ser um negócio de conteúdo e informação, é também compreendido como um negócio de distribuição.

Pesquisadores da Columbia University explicam que os meios de comunicação tradicionais não vendem o conteúdo como se fosse um produto: “Seu negócio é a prestação de serviços, com a integração vertical de conteúdo, reprodução e distribuição”. Ou seja, não há um serviço que funcione, se o seu produto não for bem distribuído. Independentemente se o segmento for local, regional, nacional ou global.

Tal jornalismo é movido por uma operação que abrange quatro áreas:

  1. Produtora de conteúdo: A editora produz o conteúdo nas redações, pelos repórteres, artistas gráficos, designers, diagramadores, fotógrafos, correspondentes.
  2. Administração, financeiro, RH e gráfica: Os quatro departamentos estão diretamente envolvidos nos gastos que geram, enfim, o produto impresso.
  3. Comercialização da publicidade nas páginas: Esta área se ramifica em duas outras. A primeira para vender a publicidade nas páginas nobres, e a outra especializá-se em vender anúncios classificados.
  4. Circulação: Envolve a distribuição do produto impresso. O departamento comercial era um setor que possuía importância igualada ao da redação.

A distribuição nos pontos de venda (a chamada venda avulsa), a captação de assinantes e a recuperação dos desistentes, são responsabilidades corriqueiras dos profissionais de tal departamento. Para ambas funcionarem bem, é preciso capturar dados históricos sobre o comportamento do consumidor ao adquirir e ao renovar uma assinatura.

Nova cadeia de valor

A indústria jornalística no ambiente digital é radicalmente distinta do negócio tradicional dos jornais impressos. Entende-se também como jornalismo pós-industrial.

É preciso entender, primeiramente, como funciona o faturamento da informação na atual realidade. Segundo o Boston Consulting Group 5, a indústria de conteúdo representa apenas 7% do total das receitas digitais do mundo. O restante é disputado pelas empresas de telecomunicações, bus-
cadores, portais, agregadores, desenvolvedores de softwares e fabricantes de aparelhos tecnológicos.

Surge, então, uma nova cadeia de valor: um negócio digital. E com ela tem-se alguns desafios que tal realidade implica:

  • Como uma publicação pode vencer sem fazer apenas a transposição do modelo tradicional para o mundo digital?
  • Como cobrar por um conteúdo que os internautas conseguem de graça, mesmo de pior qualidade?
  • Como financiar a produção online de jornalismo de qualidade?
  • Como enfrentar tanta informação, tanto boato, tanta opinião?
  • Como garantir o jornalismo independente?
  • Como manter a lucratividade alcançada no meio impresso?
  • Como se inserir de forma eficiente na nova cadeia de valor?
O problema geracional

De acordo com um estudo feito por especialistas do Tow Center for Digital Journalism, “indivíduos e organizações jovens levam vantagem sobre os mais velhos não por saberem mais, mas justamente por saberem menos coisas que deixaram de ser verdade. Sem o fardo de velhas premissas que já não se sustentam, perdem menos tempo e energia desaprendendo coisas antes de poder encarar e reagir ao mundo atual.”

Os nativos analógicos são todos aqueles que eram adultos nos anos 90 do século passado. Sua formação é absolutamente livresca. Estudaram por meio da leitura de textos durante toda a vida. Ao buscar informação na internet, os nativos analógicos preferem as fontes conhecidas as quais conquistaram credibilidade no mundo analógico.

Muitos entre eles costumam reclamar do excesso de informação, do excesso de opiniões e do que chamam de bagunça informacional que o “excesso” provoca.

Os nativos digitais dominam de maneira intuitiva a internet e os aparelhos que a manipulam. Consideram-se protagonistas na internet. Tendo bastante público, algum público ou nenhum público, não importa, eles sempre estão à vontade na rede.

A essência do primeiro, nativo analógico, é a da solidez dos conceitos, da educação tradicional, da informação distribuída unidirecionalmente. A essência do segundo, nativo digital, é a da liquidez dos conceitos. Ou seja, ela não precisa receber informações para formar opiniões.

No caso específico da comunicação, a tensão entre analógicos e digitais se resume na incerteza de como o jornalismo irá sobreviver para continuar a relatar os fatos de forma independente.

O grande problema esta quando o impresso tenta “analogizar” o digital, transferindo apenas seu conteúdo tradicional para o novo negocio digital.

O componente disruptivo

Disruptivo vem do latim e significa rompimento. Clayton Christensen, professor de Harvard, já havia feito um estudo tratando das tecnologias disruptivas. Algumas delas são: Fotografia digital, que ficou no lugar do papel fotográfico; telefonia móvel no lugar da fixa; smartphones em relação aos computadores de mesa e várias outras. Dentre ela, está o jornalismo, porém, este ainda não conseguiu achar uma forma que substituísse a forma tradicional do jornalismo.

As famílias que antes eram as que tinham maiores renda, como Hearsts, Pulitzers, Sulzbergers, Grahams, Chandlers, Coxes, Knights, Ridders, Luces ou Bancrofts não têm mais a mesma prosperidade em seus negócios como tinham antes:

“Os seus negócios, históricos, estão em declínio acentuado (ou em pior estado), e sua posição no topo dos amealhadores de riqueza há muito tem sido eclipsada por pessoas com outros nomes: Gates, Page e Brin e Schmidt, Zuckerberg, Bezos, Case e Jobs”. Afirma o site Repitide.

BuzzFeed e Gawker são exemplos de sites que extrapolaram o modelo clássico do jornalismo e tomaram iniciativas completamente a parte da mídia tradicional.

Jornalismo pós-industrial

Um dos efeitos mais disruptivos da internet foi combinar modelos de meios de comunicação em um único canal. O monopólio da informação mudou, agora, ela pode ser produzida e distribuída pelas mãos de qualquer um.

“Qualquer indivíduo, qualquer instituição, qualquer organização hoje tem o poder de mídia. Por mais que se queira proteger o jornalismo, na sua forma clássica, comento, é evidente que ele tomou outra configuração e o jornalista deixou de ser o ator principal no sistema da informação — ele agora é um ator coadjuvante, o que não lhe retira importância, mas muda a sua forma de atuar”. (Caio Túlio Costa)

O autor ainda sugere que as empresas jornalísticas devem encontrar outro caminho além do modelo tradicional. Um caminho que permita realizar atividades nunca antes aventadas e que supere o antigo modelo. Porém, alerta, o jornalismo ainda deve expor a corrupção, chamar a atenção para as injustiças, cobrar políticos e empresas pelas promessas e obrigações assumidas, informar cidadãos, etc. Ainda afirma que o jornalismo independente, se nenhuma mudança for feita, não se sustentará.

A mudança que o autor propõe é algo que realmente rompa definitivamente com o modelo tradicional, e não uma adaptação.

“Incorporar um punhado de técnicas novas não será suficiente para a adaptação ao novo ecossistema; para tirar proveito do acesso a indivíduos, multidões e máquinas, também será preciso mudar radicalmente a estrutura organizacional de veículos de comunicação.”

O problema do subsídio

Em seu texto, o autor afirma que a publicidade vai ser apenas parte do subsídio do jornalismo no meio digital, e não a fonte de renda. Isso se explica porque a quantidade de dinheiro que as empresas tradicionais de jornalismo conseguiam com a publicidade não é a mesma que os meios online conseguem.

“Se o total das receitas da publicidade (impressa mais online) era subsídio ou não, outra vez, não importa. Importa é que essa receita não migrou do impresso para o digital. Pior, em alguns casos evaporou, sumiu das páginas, impressas ou digitais, dos veículos de comunicação. Foi parar em outros lugares. No Google, no Facebook, no YouTube, no MSN ou no Yahoo — ou no UOL, no Terra ou G1 no Brasil. Principalmente nos veículos digitais que conseguem uma larga escala de audiência.” (Caio Túlio Costa)

A questão Facebook

O Google e o Facebook podem ser obstáculos ou soluções para o jornalismo.

“A missão do Facebook é dar poder às pessoas para compartilhar e tornar o mundo mais aberto e conectado. Ele só não explicita que esse poder é milimetricamente administrado pelo Facebook e que este mundo será menos ou mais aberto em função da disposição de pagar dinheiro por essa concessão.” (Caio Túlio Costa)

A rede social citada contribui com o jornalismo uma vez que a notícia de um determinado site pode ser divulgada para muita gente de maneira muito rápida, porém, ainda hoje, existe censura. O Facebook não coloca no ar qualquer tipo de conteúdo. Aquilo que for contrário à sua linha editorial, ele censura, excluindo a publicação e deixando a conta do usuário inacessível por algum tempo.

Isso aconteceu com vários jornais, dentre eles, a Folha de S. Paulo. Por esse motivo, alguns jornais americanos decidiram não terem Fan-page no Facebook.

A questão tecnológica

Os jornais não investem em tecnologia o quanto deveriam investir”. Essa é a resposta de Caio para a seguinte pergunta: Por que jornais, cujas marcas são sinônimos de credibilidade, não valem tanto quanto valem empresas digitais que ainda não saíram das fraldas?

Empresas como Instagram e Snapchat receberam ofertas bilionárias em pouco tempo de existência, diferente de jornais centenários, que ficam presos ao modelo antigo de produção. Porém, é como o autor afirmou anteriormente, o jornalismo não deve ser transportado para o meio digital, é preciso revolucioná-lo no espectro digital. E foi exatamente isso que Snapchat e Instagram fizeram, revolucionaram.

O autor ainda afirma que muitos dos jornais tradicionais não investem em tecnologia por acreditarem ser uma despesa e não um investimento.