Sobre Black Mirror e Heróis Tradicionais.

Os heróis das histórias são figuras sobre as quais é válido fazer algumas observações. Eles são geralmente personagens principais, que, frente a adversidades, conseguem, através de esforço, superá-las; também, normalmente possuem um senso moral, condutas a serem seguidas, as quais garantem que ele seja uma pessoa “boa”.

A figura do herói é necessária nas histórias que contamos, não está apenas nas consideradas clichês, mas em quase todo fragmento de narrativa que produzimos. A razão para isso é o porquê por trás do motivo pelo qual as histórias existem. Em geral, sua existência, como afirmava Aristóteles, ao falar sobre a arte, é a catarse que proporciona. Seja para ensinar uma moral, seja para criticar, amedrontar, uma história é uma forma de empatia, na qual aprendemos as coisas sem termos, necessariamente, que as vivenciar.

Para que sejamos levados através da narrativa, é importante maximizar a empatia que sentimos por algum personagem, do qual, normalmente, assumimos o ponto de vista. É aqui que o “herói” entra na história. O herói é o personagem com o qual devemos mais nos identificar. Sua história de superação faz com que nos coloquemos a torcer por eles, e isso ocorre, principalmente, porque nos enxergamos neles — enxergamos nossos problemas, ou os problemas de pessoas próximas a nós, nas adversidades que ele deve enfrentar. Por isso, é crucial que esse personagem tenha um leque de valores que não o permita tornar-se vicioso, ou indigno de nossa representação. (Mesmo vilões apreciados e com grande popularidade, geralmente, possuem certos limites que não podem cruzar).

O curioso (e é aqui que propriamente entro na discussão que queria) é observarmos a constante das características dos heróis em nossas narrativas. Alguns dos mais populares das narrativas tendem a possuírem uma característica em comum — a sua singularidade e distinção perante o mundo. Harry Potter, Frodo, Luke Skywalker, Neo, todos eles são, de certa forma, especiais, únicos, insubstituíveis — “escolhidos”; são eles que superarão adversidades às quais ninguém mais seria apto.

O que está expresso nesses exemplos, e o que nem sempre notamos, é o nosso incontrolável desejo, enquanto indivíduos mortais e finitos, de sentirmo-nos únicos. Sentir que somos importantes e que deixaremos um marco na história, que não seremos esquecidos após nossa morte, é, talvez, uma das características que melhor definem a humanidade.

Todavia, não somos invencíveis e resistentes como os personagens criados por nós. Nem sempre levantamos após uma queda, nem sempre vencemos os monstros que nos perseguem. Falhar, ceder a vícios e perder são características demasiadamente humanas, mas não gostamos que isso nos seja lembrado. Preferimos acreditar que somos incorruptíveis como heróis da televisão e dos livros.

Por isso, é compreensível que, quando uma narrativa rompe com a caminhada virtuosa do herói, isso nos choque e deixe um gosto amargo na boca. Como exemplo, é clássico citar, que, mesmo após carregar o Um anel por uma eternidade de páginas, bastou a corrupção de caráter que Frodo enfrentou no momento em que deveria desistir do poder do objeto para que ele enfrentasse diversas críticas — embora sua atitude demonstrasse, ironicamente, sua humanidade.

Uma série de televisão — agora adotada pela Netflix — famosa por incitar um gosto amargo em seus espectadores é Black Mirror. A série, em resumo, aborda caminhos obscuros aos quais a humanidade pode estar se dirigindo (ou já se dirigiu), sempre relacionando-os ao avanços tecnológicos (é importante ressaltar que a tecnologia não é, estritamente, a vilã dos relatos, mas sim, a forma como a utilizamos). Diferentemente da maioria, o comum de Black Mirror são finais tristes, perturbadores; são humanos que se dobram às suas falhas; são narrativas pessimistas, deprimentes. Ou apenas demasiadamente realistas para nosso gosto.

Uma das coisas com que esta série gosta de brincar é exatamente nossa pretensão de singularidade, nossa crença de que daríamos o nosso melhor em situações adversas, de que obteríamos sucesso onde outros falharam. Nessas situações, o programa espia-nos do espelho negro de nossas telas e pergunta: “Seríamos tão especiais mesmo?”

Neo, em Matrix, é um dos clássicos tipos de herói. Ele é o escolhido em meio a uma multidão de pessoas que ignoram completamente que tudo a sua volta é uma ilusão. Ele, ao escolher a pílula vermelha a azul, renuncia uma vida de conformismo e tranquilidade para viver o mundo real — o mundo feio, sujo, sem esperança. E, como se não bastasse tamanha força de caráter, ele luta para derrubar o sistema opressor e libertar sua raça.

Neo é um exemplo a ser seguido. É o que gostaríamos de ser.

Em Black Mirror, ao contrário, a pílula azul é a mais escolhida.

Stripe, protagonista de “Men Against Fire”.

[SPOILERS]

Em “Men against Fire”, o quinto episódio da terceira temporada, por exemplo, um soldado começa a apresentar erros em seu equipamento, e descobre que os aparelhos implantados em seu cérebro pelo exército fazem com que ele veja seus inimigos desfigurados quando, na realidade, eles não o são — além de encobrir cheiros e gritos no campo de batalha. Tudo isso é utilizado para que a eficiência do soldado ao realizar sua missão seja maximizada, pois, como um dos personagens afirma, “É muito mais fácil apertar o gatilho quando se está mirando no bicho-papão”.

Ao descobrir isso, o homem, em um primeiro momento, deseja a todo custo retirar o dispositivo de sua cabeça e ver o mundo pelo que realmente é. Porém, apresentam-lhe duas opções: ele pode ter o dispositivo retirado e ir preso, ou ter sua memória apagada e continuar como estava antes do ocorrido. Após uma pequena demonstração das memórias que teria após a retirada do dispositivo, agora inalteradas, vívidas em suas cores e gritos, porém, o soldado vê-se prostrado, sem conseguir aguentar seus atos na totalidade. Frente a isso, ele escolhe ter suas memórias apagadas, viver uma mentira.

Bing e Abi, do episódio“Fifteen Million Merits”.

No episódio “Fifteen Million Merits”, o segundo da primeira temporada, ocorre um final similar. É apresentada uma sociedade distópica, na qual as pessoas necessitam pedalar em bicicletas como um tipo de trabalho, e, com isso, ganham créditos que podem gastar como preferirem — para comprar comida, programas de televisão, roupas virtuais para seus “avatares”. Nesse meio, um homem, Bing, encanta-se por Abi, uma mulher nova em sua repartição e dona de uma voz surpreendente — a única coisa real em meio a um mundo de falsidades. Bing a incentiva a participar de um programa de talentos (a única forma de mudança de vida que eles aparentemente têm). Após apresentar-se, contudo, os jurados concluem que ela possui uma bela voz, mas que a única forma que eles veem de ela realmente se destacar é tornando-se atriz pornô.

Frente a uma plateia numerosa que a incentiva a aceitar a proposta, sendo constantemente lembrada de que “ou é isso, ou a bicicleta”, Abi acaba aceitando. Isso causa uma completa mudança em Bing, que se vê determinado a expor a crueldade do sistema em que vivem. Para isso, ele prepara uma apresentação, e, ao chegar ao palco, ameaça cometer suicídio se não for ouvido. Após uma fala profunda e convincente sobre como todos os aspectos da vida naquele lugar são revoltantes, um dos jurados oferece um trabalho a Bing e a sua fala persuasiva. Ele se vê na mesma posição que Abi, e, mesmo depois de assistir ao que ocorreu com ela, ele aceita a proposta de colaborar com o sistema que tanto odiava, em prol de sua comodidade.

As conclusões de Black Mirror talvez representem melhor a humanidade do que qualquer protagonista tradicional, seguindo o entendimento bem registrado por George Orwell em 1984, de que “em face da dor, não há heróis” — ou, se há, são poucos.

Em uma sociedade cada vez mais individualista, quantos de nós doaríamos nosso tempo — e, pior, nossa vida — em defesa de uma causa para o bem comum? Quantos escolheriam viver à margem da sociedade por ir contra seus ideais para libertar quem nela vive?

Quantos trocariam a comodidade e tranquilidade de estar dentro dos padrões — quando possível -, pela dor e pelo sofrimento? Quem aceitaria essa árdua tarefa, sabendo que estarão provavelmente sozinhos, desacreditados e ridicularizados, e que dificilmente o sistema se dobrará a alguém nessas condições?

Há espaço para um Neo em nossa sociedade?

Infelizmente, tendo a crer que não. Ir contra o “normal”, contra o que é fortalecido pelo hábito, mesmo em situações banais do cotidiano, gera um tremendo desconforto. Muitos de nós — para não dizer todos — já alteramos nossas crenças, nossas opiniões, talvez até mesmo tenhamos ido contra algo que sabíamos ser certo apenas para sermos aceitos em um grupo. Muitos também, após falhar algumas vezes e receber olhares de reprovação daqueles a seu redor, desistiram de metas e sonhos e mudaram seu rumo para outro mais cômodo.

Black Mirror apresenta pessoas que se dobram, que escolhem ignorância e conformismo à dor; indivíduos que escolhem sua própria felicidade e tranquilidade à verdade crua. Pessoas egoístas, covardes — menos heróis, mais humanos. A série deprime e assusta com tanta eficiência porque nos mostra como realmente somos, arranca de nós os filtros de atenuação que colocamos sobre a realidade e deixa-nos nus frente a um espelho. O espelho negro de nossa época.

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.