Pelo fim da violência contra a mulher

O ano é 2015, século XXI, e a misoginia continua forte. Ainda temos índices como “70% das mulheres brasileiras sofrerem algum tipo de violência durante suas vidas”¹ nos mostrando que a igualdade de gênero não foi alcançada. Não se pode deixar o ativismo ser exclusivo das datas 8 de março e 25 de novembro, infelizmente, a violência contra a mulher existe e precisamos falar sobre ela. Segundo a ONU, 7 em cada 10 mulheres já foram ou serão violentadas em algum momento de suas vidas. Como diz Nadine Gasman, porta-voz da ONU Mulheres no Brasil:

A violência contra mulheres é uma construção social, resultado da desigualdade de forças nas relações de poder entre homens e mulheres. É criada nas relações sociais e reproduzidas pela sociedade.

Desde muito cedo é ensinado às mulheres que se um homem as machuca é porque provavelmente gosta dela. Pode-se pegar como exemplo o ato do menino puxando o cabelo da menina na escola, ou correndo atrás dela mesmo depois de ser informado de que ela não quer brincar com ele. Responsáveis e professorxs costumam achar “fofo”, sorriem e dizem para a menina, que está em processo de formação em todos os aspectos, que não é nada demais, que isso só mostra que ele está interessado. Raramente é ensinado ao menino a não maltratar sua colega, não é ensinado que quando a menina diz “não”, ele realmente não deve persegui-la. O que está faltando é a base fundamental na educação das crianças: o respeito.

Muitos desses meninos crescem e se tornam agressores, muitas dessas mulheres crescem e se sentem sozinhas numa sociedade onde são culpadas, numa sociedade que diz que elas “gostam” da violência, que elas “pedem” para ser atacadas.

Em entrevista com o Centro de Referência da Mulher em Macaé, interior do Rio de Janeiro, descobrimos que nós, mulheres, não estamos realmente sozinhas.

“Em briga de marido e mulher o Estado mete a colher.”


Cobrindo até nove municípios, o trabalho do antigo NUAM (Núcleo de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) é dedicado à todas as mulheres. Desde as que sofrem violência até as que não tiveram oportunidades na sociedade um tanto quanto impiedosa, caso você não seja um homem branco e heterossexual de classe média, que vivemos. O Centro de Referência da Mulher engloba os serviços sociais, psicológicos e legais de mulheres que se preocupam e ajudam outras mulheres, trabalhando para que elas saiam do ciclo de violência, ajudando as mulheres à terem agência de sua própria vida novamente ou pela primeira vez.

Mais do que tratar de vítimas, elas encorajam e empoderam sobreviventes. Abrigo e cursos profissionalizantes são alguns dos serviços disponibilizados no Centro. Além de acompanhamento processual e acompanhamento psicológico.

Num mundo onde homens se consideram donos das mulheres desde o ambiente familiar até o parlamento precisamos de mais centros de ajuda e de mais mulheres saindo do ciclo machista que vivemos, mais mulheres se preocupando e ajudando outras mulheres.

Mas tem alguns casos em que ela não tem família nenhuma nem ninguém, aí ela vai para o abrigo. Claro que vai ser doloroso, é uma questão complicada, mas ela tem que ficar lá até a gente conseguir arrumar um emprego para ela, ver uma casa em algum lugar mais distante para que ela se sinta mais segura e nós vamos articulando para que ela saia desse círculo de violência.

Ouça a apresentação do Centro de Referência da Mulher em Macaé, feita pela advogada Ilana:

Sobre Defensoria Pública e acompanhamento processual:

Sobre abrigo e medidas de remoção:

Quando questionada sobre a origem das queixas, ela disse à nossa equipe que até a mãe do agressor as procuram pedindo para que o filho seja preso, porém, mais e mais as próprias vítimas de agressão são as autoras da queixa, mostrando que as mulheres estão tendo mais coragem e força para pedir ajuda.

Uma delas foi Leila de 33 anos que foi pedir ajuda após ser agredida pela quinta vez. Segundo ela, a gota d’água foi ter sido ameaçada com faca na frente do filho de cinco anos de idade. Antes de ir ao CEAM, ela procurou ajuda de familiares e líderes da igreja que frequenta, o conselho de todos foi não prestar a queixa. Seguir adiante com seu plano de mostrar ajuda foi um passo de tamanha importância para Leila e ela espera que mais mulheres procurem ajuda antes que seja tarde demais, independente de terceiros.

“É muito importante mostrar que ela não está sozinha. Mesmo que ela não tenha onde morar, ela vai ter ajuda. Mesmo que ela tenha dez filhos e não trabalhe, ela vai ter ajuda.”

Ficou claro, também, que mais mulheres estão reconhecendo violência além da “tipicamente” física, como a moral, psicológica, sexual e até financeira. E estão recorrendo à ajuda em seus primeiros sinais.

Sobre casos de estupro:

O atendimento e a ajuda é para todas as mulheres independente de classe social, renda, profissão e orientação sexual. Todas tem direito à ajuda e proteção. Mesmo que x agressxr sofra de alcoolismo ou outras doenças, não é dever da mulher servir como agente receptor da violência. A pessoa deve ser tratada de maneira adequada enquanto a mulher busca proteção e segurança. Ficamos felizes por descobrirmos esse lugar onde mulheres se ajudam e se tornam mais fortes.

Levamos a vida dia após dia sem saber o que se passa com a maioria das mulheres que sofrem agressões. Muitas vezes passamos por milhares delas na rua, bem ali ao nosso lado sem saber o que realmente elas passam dentro de sua própria casa, e isso e um fato extremamente triste. Com esse projeto tivemos a oportunidade de conhecer um pouquinho mais sobre a realidade dessas mulheres e sobre as pessoas que as ajudam. O que mais nós conforta depois dessa visita e saber que existem pessoas dedicando a sua vida em ajudar essas pessoas. Saber que ali elas podem encontrar um refugio e um abrigo e saber principalmente que elas não estão sozinhas. Nos colocamos no lugar delas depois de ter uma experiência tão enriquecedora e acredito que saímos de lá muito mais maduras do que entramos.
Todo tipo de violência contra a mulher é um crime e deve ser denunciado. Não seja mais um a se calar diante dessa crueldade e não seja mais uma vitima.
Denuncie !

Texto e edição de áudio: Ingryd Rios
Fotos e consideração final:
Ana Carolina S. Paiva
Entrevista:
Gabriella Engholm

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