Meu ataque ao medo de produzir
Eu nem sei mais quantos ‘drafts’ eu tenho nessa plataforma. Tento não olhar essas coisas. Esses números que parecem tão grandes. Também já desisti de contar quantas vezes abri o TinyLetter pra, finalmente, produzir mais uma edição de uma newsletter que começou como um projetinho e ainda não se tornou nada além disso.
Então, escrevo esse texto como uma jogada de ataque contra meu adversário, o medo. Estamos nessa batalha há anos, vejam bem. Já li e senti a esperança em diversos textos que me falam para apenas fazer as coisas, dar aquele primeiro passo, produzir. A quantidade de conteúdos produzidos por segundo não está no gibi, imagino eu. Como saber se o meu vai valer de alguma coisa? Qual é o meu valor na sociedade, na forma de mulher, negra, lésbica, universitária, desempregada?
Percebo aqui, então, o erro que cometo na maioria das vezes. Essa vontade de escrever para os outros, de agradar todos. De dizer “sim, eu vou escrever o que você quer” para ouvir “sim, nós finalmente te aceitamos.” Ser apenas um espelho não vai me fazer feliz.
Ontem terminei de ler “A morte de Ivan Ilitch” de Tolstói, pensei na morte de um jeito diferente, senti um pouco mais de medo. Me perguntei se estaria destinada à uma morte agonizante e cheia de arrependimentos como a de Ivan Ilitch. Fiquei incomodada, mas novamente, não fiz nada. O medo jogando e ganhando de forma sutil.
Acordei hoje e passei horas tal qual o próprio Ivan Ilitch na capa da edição da L&PM Pocket. Li mais uma maravilhosa newsletter da Aline Valek e refleti um pouco mais sobre mim, sobre certas capacidades e coisas que ainda estão tomando forma. Entendi que as pessoas vão me dizer “não” e que tudo bem não saber lidar com eles agora, aos poucos vou percebendo que eles vão se tornando pilares de força, aos poucos vou aceitando que eles tenham essa função. Porém, percebi também que eu não preciso gritar “não” para mim mesma o tempo todo. Não devo mais ser espelho e dizer “não” para algumas vontades como se estivesse dizendo “não” para alguém na mera vontade de me posicionar. Devo sair da posição de espelho e me encontrar, me abraçar e me permitir. Dizer “sim” para o desejo de escrever é minha arma contra o medo de produzir.
Não escrevi o suficiente para ter um estilo só meu, isso me assusta, mas peço a mim que tenha paciência. Não escrevi o suficiente sobre o que eu realmente gosto, mas me desafio a tentar.
Uso uma garrafinha d’água para fazer um brinde à habilidade de percorrer o sim e o não para que nos tornemos apenas mais um Ivan Ilitch.
