Eu/Eu

Imagino que estou em uma sala vazia. Quatro paredes, chão e teto totalmente brancos. Um lugar nem grande demais e nem apertado demais, quase que desconfortavelmente neutro. Sem portas e sem janelas. Eu não sai como fui parar ali ou como (ou se) vou sair dali. à minha frente, está apenas um reflexo meu. Idêntico e inquestionável. Sou eu, para todos os fins de descrição.

Um “Olá” inicia a conversa. A voz soa estranha, pois não vem de dentro de você. Parece que é uma gravação sua sendo tocada de volta. O cumprimento serve de convite para o diálogo que vai se seguir e, queria eu, poder ignorá-lo.

O primeiro assunto é sempre o dia anterior. Uma recapitulação completa, desde o instante que você acordou até o segundo que deixou sua consciência de lado e foi dormir. Cada ação é traçada, como se tivesse sido minuciosamente elaborada. “Eu levantei às 08:48, tomei meus remédios às pressas com um copo de leite achocolatado demais, daí subi as escadas e pus-me a trabalhar…” continuei, pontuando até as menores ações. Ao final do completo repasse das últimas 24 horas, vem a derradeira pergunta, já conhecida de cor: “quantas vezes eu me arrependi ontem?”. A resposta é sempre o silêncio do consentimento. Não é uma retórica, já que sempre pode receber um número como réplica, mas não era necessário dizê-lo. Nunca foi. A quantidade sempre é um número absurdo, que soa como um exagero bobo na minha cabeça.

Logo em seguida, vem mais perguntas. Todas tem respostas bem claras, mas nenhuma delas era fácil de ser dita. “Quando eu vou mudar?”, “o que falta para eu fazer algo da minha vida?”, “por que eu não reajo?”, dentre tantas outras. Todas elas são provocações disfarçadas de análise. É um traço de cinismo do qual eu e eu compartilhamos. Toda vez que uma resposta consegue escapar dos meus lábios, é imediatamente repreendida por mais perguntas que tornam o argumento unilateral e injusto. Não há discussão, pois um dos lados está certo e o outro está errado. Um fato que qualquer pessoa que tivesse o azar de ver a conversa poderia facilmente apontar.

Quando acabavam as indagações, vem os devaneios e os desejos. Estes são bem sinceros. Não sinceros como um sorriso, mas sim como o choro de uma mãe. Aquela sinceridade acompanhada da sensação de uma impotência devastadora. “Eu quero me ajudar”, “quero ver o meu sucesso”, “vamos crescer juntos”, “não consigo fazer isto sozinho” são os lamentos mais típicos. Alguns deles, inclusive, vem acompanhados de lágrimas. E, novamente, eu estou certo. Eu preciso de mim e, mesmo assim, eu me recuso diariamente a ajudar. Por birra? Por orgulho? Por teimosia? Apontar um motivo é uma das coisas que me faz diminuir a carga de sono constantemente. E eu sei disso. Eu sinto que me preocupo comigo, mas não o bastante. E é isso que me angustia.

Eu suspiro fundo, derrotado. Essas conversas se repetem diariamente, assim que acordo e percebo que ainda estou na cama. Assim que levanto, a sala se escurece e minha mente me deixa de lado para seguir com as tarefas do dia a dia, como um robô. Só volto a me ver ao final do dia, onde não há diálogo. Apenas um relance de mim ajoelhado num canto da sala branca, chorando por mais um dia desperdiçado com baboseiras fúteis, a ser discutido no dia seguinte na mesma sala, sem portas e sem janelas.

O meu maior desejo (e o meu também) é o dia em que vou conseguir acordar e não precisar enfrentar a mim mesmo naquela maldita sala. Um dia em que eu possa levantar da cama e não me sentir mal de tê-lo feito. Um dia em que, ao chegar a hora de dormir novamente, eu posso me ver e poder presenciar um sorriso sincero, meio tímido na boca, seguido por uma congratulação qualquer. Um dia em que não há nada a ser discutido na manhã seguinte. Um dia para aproveitar o silêncio dos meus próprios pensamentos, sem gritaria e sem represália contínua. Um dia para aproveitar a minha companhia e finalmente poder ter uma conversa saudável comigo mesmo.

Peço desculpas a mim por toda a dor de cabeça, e agradeço imensamente a minha paciência.

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