Frankétienne e o romance espiral

Entrevista feita no Haiti com Frankétienne, na época em que ele sonhava com o Nobel. Publiquei no JB em 2007. Pioneiro da literatura créole, inventor do romance espiral, autor de um ótimo livro sobre zumbis (uma tradição haitiana), Frankétienne é um personagem fascinante.

Não é recomendável, aos favoritos permanentes ao Prêmio Nobel de Literatura, mostrar-se ansioso. Reza a cartilha que é melhor tratar a honraria como mera formalidade. A escritora inglesa Doris Lessing, que venceu este ano, chegou a fazer pouco caso da Academia Sueca. Entre os candidatos de 2007, entretanto, alguém resolveu desrespeitar a cartilha: o escritor e pintor Frankétienne (pseudônimo de Jean-Pierre Basilique d’Antor Frank Étienne d’Argent). Azarão absoluto, o haitiano teve uma postura oposta à de Lessing. Alguns dias antes da entrega do prêmio, mostrava esperança e, contrariamente à colega inglesa, não parava de falar sobre o assunto. Ao receber os repórteres em sua casa na cidade do Delmas, pediu para que cruzassem os dedos.

- Eu sei que devo estar parecendo um obcecado pelo Nobel — admite o artista. — Mas, devido à situação do meu país, o prêmio seria algo maravilhoso para o Haiti, uma nação pobre, desprezada, pisoteada…

À primeira vista, soa estranho que um espírito anárquico como Frankétienne se preocupe com honras acadêmicas. Diante das circunstâncias, porém, compreende-se melhor o seu desejo:

- Não é uma questão de vaidade. O que quero é ser escutado. Ter a palavra não apenas na escala local, mas na planetária — diz o escritor, jamais publicado no Brasil.

Frankétienne fala em nome do país, e sua trajetória o justifica. Ao contrário da maioria de seus contemporâneos do grupo Haïti Littéraire, ele nunca se exilou da ilha. Sobrevivendo a sucessivas ditaduras, tornou-se uma espécie de consciência nacional. Fruto do estupro colonial — sua mãe, uma camponesa analfabeta, teria sido violentada por um milionário americano — Frankétienne cresceu no tumultuado Bel-Air. Única criança branca do bairro, teve a infância marcada pela delinqüência: as descobertas precoces do álcool e da sexualidade são elementos essenciais na sua formação. Durante a sangrenta ditadura de François Duvalier, iniciou a carreira de escritor. Engajado politicamente, lançou-se numa escrita codificada, insólita, cujos ataques ocultos escapavam aos governantes.

Foi só a partir dos anos 70, ao compor Dézafi, seu primeiro romance escrito emcréole, que Frankétienne começou a chamar a atenção da ditadura. Sua peça seguinte, Pèlin-tèt, foi proibida pela censura. O fato, ocorrido no auge dos esforços do ex-presidente americano Jimmy Carter pelos direitos humanos, chamou a atenção do mundo.

Ao longo dos anos, a obra de Frankétienne foi evoluindo para uma explosão da linguagem, que abraça múltiplas possibilidades de expressão. Pintura, copy art, caligrafia — tudo se combina formando uma estranha estrutura literária, que ele chama de espiral. Expressão da opacidade poética e do movimento permanente, a espiral não tem centro, foge para o caos, “reproduzindo a complexidade do real pelo percurso labiríntico”.

Para Frankétienne, a espiral é um princípio absoluto. Encontra-se não apenas na arte, mas nas partículas elementares — são os movimentos evasivos do universo. Em sua obra, isso se traduz numa liberdade que, em nome da dimensão poética, traça movimentos inesperados, intervenções aleatórias, multiplicações ilimitadas de personagens… Não há, “como bem mostrou Einstein”, tempo e espaço:

- Estamos no século 4 ao mesmo tempo que no século 21 — resume. — Não há fronteiras, e essa é a liberdade.

Com o escritor haitiano, a espiral torna-se mais do que uma forma literária propriamente dita: é uma teoria de vida. Um convite ao questionamento dos sentidos e do próprio sentido de existência. O que Frankétienne propõe é uma pluridimensionalidade do viver, uma nova maneira de se integrar aos fenômenos vitais, não mais presa à herança greco-romana e judaico-cristã. Pois, segundo ele, não é apenas a ficção narrativa que estaria presa nas redes da linearidade, é o próprio homem que se enjaula em seus redutores vícios culturais. O homem que, incapaz de se abrir à imensidão cósmica, limita-se a explorar apenas a ponta do iceberg.

- O Ocidente nos acostumou à idéia de que o preto é preto e não pode ser branco, de que a noite é noite e não pode ser dia — denuncia. — A partir do momento em que nos fecharam nessa bipolaridade, mataram a intuição e reduziram a vida. Com isso, dividiram tudo em pedaços separados quando, na verdade, a existência é uma síntese.

Na linha de um Walt Whitman, Frankétienne não se acanha em associar sua estética movimentada ao destino de seu país. “Que novo planeta surgirá desse falso jardim de rosas vermelhas?”, pergunta-se o escritor em seu livro Ultravocal. Enquanto a aldeia global vê o Haiti como a casa do inferno e do caos, Frankétienne inverte o estigma e sugere que o caos pode ser, sim, fecundo e positivo. Contrariando a opinião comum, proclama a desordem como fonte de vitalidade e mobilidade.

- A desordem é inspiradora — afirma. — Escolhi ser bagunceiro, porque a bagunça faz a imaginação.

Há três décadas, muito antes dos tumultos que resultaram na queda do segundo Duvalier, Frankétienne já mostrava o aspecto transformador do caos. Quando, na metade dos anos 70, lançou Dézafi, uma fábula sobre zumbis que se libertam para a vida, o escritor previa o atual momento haitiano: desordem, destruição, incêndio, mas também o despertar brutal dos alienados, os seres até então zumbificados que, como os heróis do livro, tentam tomar a palavra que nunca tiveram. De onde se conclui que o verdadeiro inferno não está na bagunça das transformações, e sim na imobilidade e na apatia — a paralisia mental da política totalitária.

Como romper a paralisia? A aventura lingüística de Frankétienne é apenas a base para uma nova experimentação: a busca humana e espiritual.

- O mal do Haiti é a estrutura distorcida que nos persegue desde o período colonial. É a cultura do ódio e da divisão, que só poderá ser mudada através da energia da palavra e da vibração do verbo.

O escritor — que chegou a abrir uma escola nos anos 50 — sonha em ver o Haiti transformado numa república das artes. E promete que, com um Nobel, tudo será possível.