As tecnologias como mecanismos de transformação dos espaços educacionais
Muitas vezes as escolas colocam a infraestrutura tecnológica como uma barreira para inovar, o que é um erro. Pois a inovação precisa considerar o contexto de infraestrutura existente como um aliado, e não um impeditivo.
As tecnologias, dentre outros elementos, têm transformado as demandas sociais e de mercado, suscitando o desenvolvimento de competências profissionais complexas e relacionadas a resolução de problemas, como a criatividade e a tomada de decisões. Assim, seriam as tecnologias os potenciais agentes transformadores também na Educação?

Essas reflexões pautaram o debate entre Liana Brazil, Mila Gonçalves e Felipe Furtado, no segundo bloco do ACONTECE Educação, evento promovido pelo CESAR e correalizado com a Escola Eleva, em 08 de Junho no Rio de Janeiro.
Liana Brazil, diretora criativa do estúdio experimental SuperUber, acredita que apesar de as tecnologias possuírem um grande potencial para a transformação da educação, não são delas que devemos partir. Para ela, “A motivação não pode ser a técnica, tem que ser a mensagem que você vai passar, tem que ser a emoção que você quer criar e quais memórias você quer criar no usuário a partir da experiência que está sendo disponibilizada”.
A partir das experiências produzidas pelo SuperUber com Realidade Virtual para exposições em museus, como o Museu do Amanhã, localizado no Rio de Janeiro, Liana afirma que começou a enxergar os potenciais que esta tecnologia poderia trazer para a Educação. Em uma análise da atuação das equipes que tem montado para a produção de suas experiências, ela percebeu como a construção de museus imersivos pode viabilizar o trabalho multidisciplinar nas escolas.

Segundo ela, as equipes de produção do SuperUber são multidisciplinares e focadas no processo de produção das experiências. Liana justifica: “Ao juntar as especialidades, a mágica do que a SuperUber faz está muito na sobreposição das disciplinas”. Com isso, ela acredita que, mesmo periféricas em relação às ações das escolas, as experiências nos museus são apesar de curtas, muito interativas, profundas e em grande quantidade, sendo capazes de fazer as pessoas compreenderem que o conhecimento não acaba ali e que a busca precisa continuar.
Para que isso aconteça é preciso uma forte integração entre as disciplinas escolares. Por exemplo, em um museu sobre a história do vôo, diversos conhecimentos de Matemática, História, Física e Geografia estariam entrelaçados ao tema. Nesse sentido, na opinião de Liana, se levadas para as escolas, as experiências com Realidade Virtual podem empoderar professores e alunos. Para ela não há dúvidas de que mesmo que as crianças nunca tenham usado Realidade Virtual, elas já sabem do que a tecnologia se trata e querem usá-la.
Nesse contexto, Mila Gonçalves, gerente de projetos sociais da Fundação Telefônica Vivo, afirma que para que as tecnologias sejam, de fato, agentes transformadores da educação é preciso que haja uma série de mudanças disruptivas nos espaços de aprendizagem. Segundo ela, mais do que integrar tecnologias é preciso perceber que não é a tecnologia que vai realizar sozinha essa inovação.
Nesse sentido, Mila relatou que em sua experiência no Programa Inova Escola, das sete escolas apoiadas pela Fundação Telefônica, cada uma delas se encontra em um nível diferente de Inovação Educativa. Ela percebeu que é possível que existam diferentes modelos inovadores e que é preciso termos em mente que a ideia de inovação é relacionada a realidade do contexto ao qual está inserida.

Entretanto, apesar dos modelos de inovação serem diferentes, Mila afirma que pode-se identificar quatro fatores que podem estimular o sucesso de um projeto inovador em uma escola. O primeiro deles está relacionado à comunidade envolvida nesse processo de transformação: “A comunidade escolar precisa estar aberta a essa inovação. A inovação não vem de fora. A inovação é algo intrínseco de uma instituição”, afirmou ela sobre o assunto.
O segundo fator importante é o apoio da gestão e das secretarias de educação. “É preciso que haja apoio do gestor do sistema. As secretarias de Educação precisam estar a favor da inovação.”, relatou ela considerando que é necessário possuir uma rede que apoie as transformações necessárias aos processos existentes para as escolas formais, pois estes não foram desenhados para o suporte de escolas que inovam.
Outro ponto, é ter na região parceiros que possam realizar diálogos cotidiano com essa escola. Sobre esse fator, Mila afirma que uma escola que quer inovar precisa de orientações sobre como começar e necessita ter na região uma instituição que possa dialogar sobre as dificuldades da escola, fatores estes muito potentes para essa transformação.
O quarto e último fato que Mila elenca, está relacionado com a existência de uma infraestrutura que possibilite as transformações que são desejadas. “Não é que não seja necessário promover mudanças, mas também é fundamental pensar no que de inovador pode ser criado nas realidades que já existem”, afirmou. Para ela, muitas vezes as escolas colocam a infraestrutura tecnológica como uma barreira para inovar, o que é um erro. Pois a inovação precisa considerar o contexto de infraestrutura existente como um aliado, e não ser um impeditivo.
Mila também exemplificou a importância desses fatores para o sucesso de um projeto inovador, como o que vem ocorrendo na Escola Manoel Domingos de Melo, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Esta é uma escola rural, localizada em uma região de vulnerabilidade social e econômica, e que nos últimos dois anos vem sendo transformada de uma forma realmente disruptiva, por meio de uma parceria entre a Fundação Fundação Telefônica Vivo, a Qualcomm, a Prefeitura de Vitória de Santo Antão e o CESAR.
Sobre essa parceria, Felipe Furtado, gerente de projetos da unidade de educação do CESAR, ressaltou que a integração das tecnologias, bem como os processos de inovação foram fundamentais para o sucesso do projeto e para que ele fizesse sentido para os agentes envolvidos. Ele salienta que quando se fala de apropriação de tecnologias e de inovação em projetos educacionais, é preciso que se tenha clareza das intenções associadas à essa integração de modo que esta faça sentido para todos os envolvidos.
Felipe identifica os elementos que ele considerada como essenciais para as propostas de inovação educativa com o uso de tecnologias. O primeiro deles está relacionado à formação dos atores que estarão envolvidos nos projetos educacionais com inovação e tecnologias. Esses atores são os professores, as equipes gestoras, os alunos e a própria comunidade. É preciso que todos sejam capazes de compreender o sentido das ações realizadas nos projetos de inovação com o uso de tecnologias.
No caso da Escola em Vitória de Santo Antão, ele conta que as pessoas da comunidade possuíam em seu imaginário uma fotografia do “modelo escolar” de acordo com o que passaram ou ouviram falar, modelo este centrado na reprodução de atividades e na retenção de informações e que em pouco ou nada se associava aos problemas do cotidiano da comunidade. Dessa forma, é primordial oferecer condições de diálogo a essas pessoas para que elas possam contribuir com os seus saberes na construção de um projeto escolar que possa de fato transformar suas realidades.
Nesse processo, visando o uso inovador das tecnologias disponíveis nos projetos que tem atuado, Felipe afirmou que a escolha do método de abordagem é outro elemento de fundamental importância. São exemplos disso abordagens como a Aprendizagem Baseada em Problemas ou a Aprendizagem Baseada em Projetos, fortemente utilizadas pelo CESAR na estruturação de suas ações pedagógicas.

Segundo ele, a partir desses métodos é possível ultrapassar o uso das tecnologias em si, de modo que os alunos possam ser estimulados a pensar em que tipos de problemas e projetos podem ser resolvidos ou desenvolvidos a partir dos artefatos digitais que lhes foram apresentados, sejam estes artefatos relacionados à robótica, à produção de conteúdo multimídia ou à programação, como ocorre no caso do Pernambucoders, projeto que atua ensinando robótica e programação em escolas públicas de Pernambuco.
Além desses elementos, Felipe afirmou que é preciso que se estabeleça um processo de acompanhamento do impactos dessas ações no aprendizado dos alunos. Nesse sentido, temos um grande desafio que é o de construir as estratégias e indicadores de acompanhamento. A esse respeito, ele acrescentou: “O ensino de programação, de robótica ou de outras técnicas relacionadas à produção de tecnologia não vão por si só desenvolver as competências escolares. É preciso que, para cada projeto desse, um processo de avaliação e de acompanhamento seja construído”.
Assim, apesar da Realidade Virtual, da Programação, da Robótica e de outras tecnologias serem potenciais agentes de transformação dos espaços educacionais, é preciso que se construa uma abrangente e disruptiva estrutura pedagógica para que se promova também a inovação na educação. Os esforços para isso são urgentes e extremamente necessários, pois o futuro já chegou.
O CESAR atua na área de Educação com uma abordagem focada em mercado, com a visão de que é necessário contribuir com a redução do abismo que existe entre o que é ensinado nas escolas e universidades, e o que é esperado e exigido no mercado de trabalho. Dessa forma, desenvolve projetos educacionais em parceria com empresas de todo o Brasil, e também por meio da sua faculdade, oferece cursos de extensão, pós-graduação e mestrados profissionais.
