Os desafios para a formação do profissional do futuro

CESAR
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Jul 10, 2017 · 7 min read

É preciso que estejamos discutindo uma educação que seja capaz de desenvolver competências que não podem ser automatizadas.

Fotografia: Analice Paron

“Estamos atrasados para o debate sobre a formação do profissional do Século XXI”, afirmou Sofia Esteves, Presidente do Conselho da DMRH e da Cia de Talentos, maior empresa de Recursos Humanos da América Latina, durante o ACONTECE Educação, evento, correalizado pelo CESAR e a Escola Eleva em 08 de junho de 2017, no Rio de Janeiro. Para ela entretanto, já não estamos preparando os profissionais para as demandas da sociedade ou do mercado desde o século passado, o que endossa o caráter cada vez mais urgente do debate.

De acordo com dados divulgados pela DMRH, 1,2 milhão de jovens se candidatou para 6000 posições, oferecidas nos processos seletivos da Companhia de Talentos, posições estas que não foram completamente preenchidas. Ela afirma que apesar de a concorrência para as vagas estar em constante crescimento, o que se tem percebido paralelamente é o crescimento das dificuldades de identificação de perfis profissionais aderentes às qualificações exigidas.

Nesse contexto, ela ressaltou que dadas as dificuldades de contratação, as empresas têm tentado reduzir o escopo das competências profissionais exigidas, buscando garantir as suas demandas operacionais. Por exemplo, algumas empresas têm necessitado até de abdicar da exigência de fluência em Língua Inglesa, para garantir a contratação de perfis profissionais que apresentam maior desenvoltura nas Soft Skills, ou seja, competências e atributos intra e interpessoais que tornam as pessoas mais capazes de lidar tanto com os problemas quanto com as pessoas presentes nos diversos âmbitos da sociedade.

Como especialista e pesquisadora de Tendências em Gestão de Carreiras e Futuro do Trabalho, Sofia relatou que tem percebido muito fortemente nos perfis profissionais a ausência de qualidades que podem ser traduzidas como o brilho no olho, a garra, e as atitudes positivas perante aos desafios. Ela também ressaltou a importância da Flexibilidade Cognitiva ou seja, da capacidade de decodificar informações, adaptando-as a diferentes contextos, o que Sofia define como ‘pensamento estruturado’, competência esta fundamental ao desenvolvimento de outra habilidade importante constantemente solicitada pelo mercado: A resolução de problemas.

“O conhecimento técnico é muito importante mas também muito volátil. As Soft Skills, como atitudes, valores, cultura e autoconhecimento parecem ser atemporais tendo em vista as demandas futuras”, afirmou Sofia ao refletir sobre as atuais e futuras demandas do mercado. Para ela, apesar de os profissionais brasileiros já apresentarem significativos avanços no desenvolvimento de competências como trabalho em equipe, comunicação e empatia, a capacidade de análise de situações e a sustentação pessoal de ideias e argumentos são competências que ainda precisam ser desenvolvidas por eles.

Por sua vez, Maurício Garcia, Vice-Presidente de Planejamento e Ensino da Devry Brasil, afirma que com a Revolução Tecnológica, surgiu também o Neoludismo, corrente que prega que a tecnologia aparentemente subjugou as pessoas, as substituindo e roubando seus empregos. Mensagem esta que tem sido constantemente marcada nos discursos de algumas instituições do ramo de emprego e trabalho, que tem alardeado o desaparecimento de 2 bilhões de empregos, cujas atividades serão substituídas por máquinas.

Fotografia: Analice Paron

Maurício, que é membro da diretoria da Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Superior, ao posicionar-se sobre o papel da universidade mediante a formação do profissional do futuro, relata que não é mais possível negar o contexto tecnológico em que a sociedade está inserida e no qual, possivelmente precisaremos intervir.

“As pessoas estão conectadas o tempo inteiro, o que muitas vezes pode aparentar uma diminuição do contato humano”, afirmou ele ao relatar as preocupações trazidas por algumas pessoas com respeito às mudanças que a humanidade tem sofrido com a evolução das tecnologias da informação e comunicação. Para ele, é preciso que estejamos discutindo uma educação que seja capaz de desenvolver competências que não podem ser automatizadas, ou seja, substituídas por máquinas.

Contrário ao que tem sido evidenciado em grande parte das universidades, que tem centralizado a aprendizagem no desenvolvimento de competências técnicas em detrimento das competências socioemocionais, é preciso desenhar estratégias que ampliem as condições de desenvolvimento de competências e habilidades relacionadas à criatividade, inovação e raciocínio lógico, por exemplo.

Para Maurício, é preciso que as universidades se preocupem em desenvolver abordagens de construção de conhecimento, que preparem as pessoas para tomar decisões, lidar com situações inusitadas e usar o raciocínio lógico diante dessas situações. Entretanto, o que se tem percebido é que as instituições de ensino superior tem tratado as Soft Skills por demanda, em departamentos periféricos e tem centralizado as suas ações no desenvolvimento dos Hard Skills, competências mais relacionadas ao desempenho de funções e aplicações de técnicas, por exemplo.

Entretanto, é preciso consciência de que, apesar de estarmos imersos em um contexto tecnológico e muitas das nossas demandas por inovação nos cenários educacionais advirem dessa realidade, inserir tecnologias nos cenários já existentes não os torna inovadores. “A tecnologia é a última camada de tinta no processo de educação no processo de inovação educacional”, afirmou Maurício, ao falar sobre o papel da tecnologia na inovação educacional. Sobre isso, ele acrescenta que dos processos educacionais que tem acompanhado, só tem percebido sucesso nos que se iniciam pela Pedagogia.

Segundo Anna Penido, diretora do Inspirare, as demandas do mercado não têm sido respondidas, dentre outras coisas, pela inadequação dos processos de formação profissional, fato que tem sinalizado a necessidade de transformação das práticas pedagógicas de instituições de ensino superior. Sendo assim, na Educação Básica também é possível evidenciar tais necessidades.

Fotografia: Analice Paron

Anna também afirma que além de pensar na formação do profissional do Século XXI, precisamos pensar em como deve ser a escola que prepara as pessoas para a formação profissional. Para ela, algumas das competências mencionadas anteriormente precisam ser desenvolvidas desde a primeira infância, fase em que as sinapses nervosas ainda estão sendo formadas.

É importante que se considere a importância da construção de uma escola que prepare as pessoas para o inusitado, para tomar boas decisões e usar o raciocínio lógico no dia a dia, pois é de fundamental importância que eles já possam exercitar tudo isso quando são muito novos. É preciso considerar a importância de uma escola que dê espaço para o desenvolvimento dessa autonomia. Para tanto, Anna salienta que é preciso levar essa concepção de Educação e das pessoas que necessitamos formar, como evidências para o planejamento das atividades das escolas e universidades. Aspecto esse no qual a Educação no Brasil tem apresentado grandes dificuldades, pois tem planejado suas ações a partir de dados desatualizados e de modelos que muitas vezes não correspondem à realidade.

Entretanto, em sua opinião, com a Base Nacional Comum Curricular, documento que determina as competências que todos os alunos devem aprender ao longo da educação básica, abriu-se uma janela de oportunidades em relação ao currículo nacional. Documento este que traz, desde o texto de introdução, um conjunto de 10 competências inseridas a partir de pesquisas realizadas nas universidades e movimentos sociais, competências estas que têm sido evidenciadas como ausentes nas novas gerações. Além disso, currículos de vários países foram reunidos a essas competências que hoje constituem, que garante direitos dos estudantes como o pensamento crítico e reflexivo, a argumentação, e o direito de ter senso estético e repertório cultural para trabalhar com as subjetividades, como arte e cultura, não somente quanto identidade, mas também como produtores dessas subjetividades.

Apesar disso, Anna ressalta que mesmo que seja possível identificar a valorização das Soft Skills no documento, há um descompasso entre elas e o que é proposto no desenvolvimento de conteúdos, propostas estas que reproduzem os modelos tradicionais de ensino, focando no tratamento disciplinar de conhecimentos pouco práticos ou úteis.

Para ela, o desenvolvimento de competências dessa natureza requer uma revolução tanto das práticas quanto do ambiente escolar. “Ninguém vai ensinar empatia com aula expositiva. E ninguém vai aprender empatia com quem não é empático”, afirmou. Então, qual é a formação que precisamos dar a esses professores para que de fato desenvolvam as competências necessárias em suas abordagens pedagógicas e em outras atitudes dentro da sala de aula?

Assim, seja nas Instituições de Ensino superior ou nas de Educação Básica, é preciso que sejam construídos ambientes propícios ao desenvolvimento de competências convergentes com as demandas profissionais do futuro, que sugerem a organização de espaços amplos em que alunos possam ser estimulados a propor ideias, resolver conflitos e tomar decisões com ética, autonomia e responsabilidade. Para isso, a educação precisa se reinventar urgentemente.

O CESAR atua na área de Educação com uma abordagem focada em mercado, com a visão de que é necessário contribuir com a redução do abismo que existe entre o que é ensinado nas escolas e universidades, e o que é esperado e exigido no mercado de trabalho. Dessa forma, desenvolve projetos educacionais em parceria com empresas de todo o Brasil, e também por meio da sua faculdade, oferece cursos de extensão, pós-graduação e mestrados profissionais.

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