Oi, eu sou a Dari e essa é a Alinha

Parece que foi ontem, mas já faz três anos desde que o Instituto Alinha começou a ser pensado e desenvolvido. Desde então, muitos amigos passaram a me contar com receio quando compravam uma roupa nova na marca x ou y, ou, então, passaram a me consultar sobre cada uma das marcas que costumavam comprar, na esperança de que eu “aliviasse” de alguma forma a angústia que sentiam por não terem certeza se a loja tinha ou não trabalho análogo à escravidão na sua cadeia.

A verdade é que eu não conseguiria garantir, mesmo com muita pesquisa e profundidade no tema, se a grande marca é mesmo 100% bacanuda. Isso porque o problema é muito mais complexo e muitas vezes a própria marca não tem conhecimento completo da sua cadeia. Temos, por exemplo, o app “Moda Livre” para dar aquela conferida em algumas marcas mais conhecidas, mas como entender a raiz do problema? Para os mais questionadores, escrevo aqui para compartilhar um pouco da experiência desses três anos de mergulho no mundo que para mim era completamente desconhecido.

Para começar, eu não tenho nenhuma formação em moda, me aprofundei no tema quando estudava Relações Internacionais e, no trabalho de conclusão de curso, acabei sendo conduzida por uma oportunidade de pesquisa remunerada a estudar o fluxo migratório de bolivianos que vinham para o Brasil trabalhar na cadeia da moda em condições precárias. Passei mais ou menos quatro meses visitando organizações de base, como o CAMI — Centro de Apoio e Pastoral do Migrante, acompanhando os atendimentos da organização para entender e conhecer melhor a realidade desses imigrantes, fazendo a melhor coisa que fiz nesses anos, conversar com os costureiros para entender a realidade a partir deles, além de mergulhar em leituras sobre a temática.

O processo de produção das roupas

O que eu descobri nessas conversas e pesquisas? Que basicamente a cadeia da moda é uma das mais informais que existem. Isso porque quem faz a roupa das marcas é o costureiro, mas o costureiro não é contratado diretamente pela marca. Olha a confusão! Vou exemplificar: imagine que você vá comprar um carro, você escolhe pela marca que vê estampada no veículo, mas a marca do carro não produz o carro, eles só vendem o que compraram de uma outra fábrica, que na verdade ninguém conhece, e essa fábrica terceirizou todas as peças de outros fornecedores. Você consegue imaginar uma marca de carro que não produz carro? É basicamente o que descobri que acontece com a moda. As grandes marcas dependem de confecções (que seriam as grandes fábricas), mas essas confecções muitas vezes terceirizam para outras oficinas menores que, às vezes, também não dão conta dos pedidos (que têm prazos apertadíssimos e geram multas para as confecções que não cumprem), e aí “quarteirizam” para outras oficinas menores ainda (e cada vez mais precárias).

É por isso que uma grande marca quando é multada — porque foi pega com sua etiqueta sendo costurada em uma oficina com trabalho em condições análogas à escravidão — diz que não sabia que isso acontecia, porque provavelmente ela não tinha controle sobre essas “quarteirizações”, o que de maneira nenhuma a exime da responsabilidade.

As precarizações acontecem muitas vezes por isso: essas pequenas oficinas não têm estrutura adequada para acessar um mercado formal e que está interessado em pagar um preço justo pelas peças, então elas ficam a mercê desses pedidos intermediados sem a menor condição de negociar um valor justo pela peça, aceitando os pedidos a qualquer custo (sempre baixo custo). Como uma oficina consegue manter-se regularizada e em condições ideais quando elas mal ganham o suficiente para sobreviver?

Isso tudo para te dizer que o grande vilão, na maioria das vezes, não é o dono da oficina, que na minha imaginação era um cara mau que “trancafiava” os costureiros e os obrigava a trabalhar. O problema vem de cima da cadeia e não da base.

Se a marca que você costuma comprar não tem nenhum programa de rastreamento ou transparência sobre como acontece a cadeia, então abra o olho, porque a falta de transparência e informação diz muito sobre a marca. Imagina que mundo lindo seria ter a marcas que deixam claro como elas negociam com os seus fornecedores e quem são eles?

A Alinha nasceu para tentar mudar essa realidade, formalizando e adequando pequenas oficinas para que elas possam se conectar diretamente com os estilistas e marcas interessados em fazer uma moda justa. Dessa forma, dar oportunidades para que as oficinas tenham recursos para investir em sua infraestrutura e formalização, dando qualidade de vida aos costureiros.

Em breve, teremos a etiqueta Alinha, para que os consumidores possam ter conhecimento das peças que foram costuradas em uma de nossas oficinas (que estão alinhadas na nossa plataforma), aí você pode ter certeza que foi uma peça que respeitou as condições de trabalho e de vida dos costureiros e costureiras ❤

Esse texto foi escrito pela Dari Santos, 25 anos, empreendedora social e ativista. Cofundou o @Engajamundo e a Alinha. É doghero nas horas vagas (junto com a Flá), pra juntar uma grana pra próxima viagem.

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