Participar para mudar:
a importância da participação social no combate à pobreza

O ex-presidente Lula durante cerimônia na prefeitura de Roma (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Em 8 de maio de 2015, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi homenageado pelo prefeito de Roma, Ignazio Marino, com a Lupa Capitolina, o símbolo máximo da cidade. Lula fez um discurso sobre participação social. Leia a íntegra da fala:


Fiquei muito honrado com o convite do Prefeito Ignazio Marino para fazer a palestra de lançamento desse belo projeto “Roma para o Planeta”.

É digno de louvor que o prefeito Marino, além de cuidar com zelo e carinho da cidade que governa, estimule os seus concidadãos a refletir sobre os grandes desafios e esperanças do mundo de hoje, que dizem respeito cada vez mais a todos os povos e países.

Essa talvez seja a missão mais importante — e urgente — do humanismo contemporâneo: pensar o local articulado com o universal, o destino de cada comunidade em sintonia com o destino do planeta.

E não há cidade com vocação mais universal que a nossa querida Roma.

O mundo, como sabemos, se integra com incrível rapidez. A conexão e a interdependência dos povos é cada dia maior. O que acontece em um país, por mais distante e menos poderoso que ele seja, acaba afetando de algum modo a todos os demais.

O ritmo vertiginoso desse processo, junto com o constrangimento exercido pelo chamado “pensamento único”, faz com que mudanças tão cruciais para a vida de bilhões de pessoas não sejam debatidas com a devida autonomia e profundidade.

Alguém já disse, com muita razão, que não estamos apenas em uma época de mudanças e, sim, em uma mudança de época.

Isso, no entanto, só será positivo para o futuro da humanidade se for acompanhado de uma forte consciência planetária e de novas responsabilidades assumidas em conjunto.

Não faz sentido, por exemplo, globalizar os mercados sem ao mesmo tempo universalizar os direitos de cidadania. E não deixa de ser uma contradição, do ponto de vista civilizatório, dar total liberdade à circulação dos capitais e restringir a circulação de pessoas.

Não faz sentido globalizar os mercados sem ao
mesmo tempo universalizar os direitos de cidadania

O mesmo vale para as instituições globais. Todas as regiões do mundo — Europa, África, América Latina, América do Norte, Ásia — já constituíram os seus blocos econômicos e políticos. Mas até agora as pressões conservadoras e hegemonistas não permitiram a reforma e a democratização das instâncias mundiais de poder, que foram criadas em Breton Woods, há mais de 70 anos, e estão completamente defasadas em relação às realidades e necessidades do mundo contemporâneo.

A paz mundial não passa somente pelas questões de segurança. Depende da difusão e prevalência de uma verdadeira cultura de solidariedade no planeta. E, sobretudo, da democratização das oportunidades de progresso material e humano para todos os povos.

É sempre com alegria que volto à cidade eterna. Mas hoje a minha alegria é ainda maior porque tenho a oportunidade de dialogar também com uma parte da juventude romana aqui presente.

Estou convencido de que a contribuição dos jovens — com seu espírito rebelde, ousado, transformador — é fundamental para que a humanidade se liberte do egoísmo e da indiferença e seja capaz de dar um novo sentido à vida no planeta. Um sentido necessariamente mais sustentável, tanto do ponto de vista moral como social e ambiental.

Estou também muito contente por reencontrar aqui diversos amigos italianos, companheiras e companheiros de tantas jornadas em defesa da liberdade, da democracia e da justiça.

Quero compartilhar com vocês algumas reflexões sobre a experiência brasileira de luta contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E, principalmente, sobre o papel decisivo da participação social nas enormes conquistas que obtivemos em doze anos de governos progressistas.

Estou convencido de que a contribuição dos jovens — com seu espírito rebelde, ousado, transformador — é fundamental para que a humanidade se liberte do egoísmo e da indiferença e seja capaz de dar um novo sentido à vida no planeta

Não tenho dúvida de que o êxito alcançado em matéria de desenvolvimento social e econômico durante os meus dois governos e o da Presidenta Dilma Rousseff se deve, em larga medida, ao engajamento direto da sociedade civil, à participação ativa, cotidiana, entusiasmada de milhões de homens e mulheres na construção de um novo país.

Sem essa extraordinária mobilização cidadã, não teríamos dado o salto histórico que o Brasil deu no último decênio, tornando-se uma nação muito mais desenvolvida e menos desigual. E, por isso, efetivamente mais respeitada no mundo.

Durante muito tempo, nosso país foi governado apenas para uma parcela minoritária da população, que praticamente monopolizava a riqueza nacional e as atenções do Estado.

Para a grande maioria do povo, esquecida pelos governos, quase excluída das políticas públicas, sem oportunidades reais de se libertar da pobreza, a democracia não se realizava concretamente.

Lula recebe do prefeito Ignazio Marino a Lupa Capitolina, honraria máxima da cidade de Roma (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Basta dizer que, quando assumi a Presidência da República, em janeiro de 2003, mais de 50 milhões de pessoas — quase um terço da nossa população na época — viviam com menos de 1 dólar por dia, abaixo da linha de extrema pobreza, segundo todos os critérios internacionais. Viviam sujeitas à fome e às doenças da subnutrição.

E a fome não é uma abstração; não se resume às estatísticas. Ela tem rosto, tem braços, tem alma. Ela atinge principalmente as crianças e as mulheres. E, no Brasil, a fome era majoritariamente negra.

Chegando à Presidência, deixamos claro que o país seria governado para todos, sem discriminar ninguém, mas que o nosso maior compromisso — não apenas político, mas de vida — era com os pobres e os excluídos.

Não hesitamos, por isso mesmo, em virar a página insensata e sombria do neoliberalismo, cuja principal consequência foi a chamada “década perdida”, e implementar um novo modelo de desenvolvimento, baseado na inclusão social, colocando o combate à fome e à pobreza no centro da agenda do país.

Esse novo modelo não foi proposto por nenhum tecnocrata iluminado nem seguiu as receitas dogmáticas de alguns organismos financeiros internacionais.

Nós o construímos, coletivamente, ao longo de 20 anos de caminhada, em diálogo direto e constante com os mais variados segmentos sociais. Não deixamos de ouvir um único setor, por menor que fosse a nossa afinidade política com ele. Todas as classes, regiões e gerações puderam opinar sobre a melhor estratégia para que o Brasil voltasse a crescer, gerando empregos, distribuindo renda e promovendo a tão sonhada inclusão social.

Foram incontáveis os encontros programáticos que tivemos com os trabalhadores da cidade e do campo, os empresários — não só os grandes, mas também os médios e pequenos –, os cientistas e intelectuais, a juventude, as mulheres, os negros, os indígenas, os religiosos, os ambientalistas.

Todas as classes, regiões e gerações puderam opinar sobre a melhor estratégia
para que o Brasil voltasse a crescer, gerando empregos, distribuindo renda e promovendo a tão sonhada inclusão social

Não é o caso de detalhar aqui cada uma das formas de interlocução que adotamos, muitas vezes sugeridas pela própria população, de acordo com os seus usos e costumes.

Mas tenho uma lembrança especial das Caravanas da Cidadania que realizamos nos primeiros anos da década de 1990. Nelas percorremos nada menos que 70 mil quilômetros do território nacional, de um extremo a outro do país, durante meses inteiros, conversando e debatendo com as comunidades, com suas bases e lideranças, ouvindo queixas, aspirações e propostas.

Sobretudo, conhecendo de perto as experiências de resistência material e espiritual do nosso povo, os seus exemplos de auto-superação, a sua quase inacreditável energia produtiva e criativa. Um jornalista brasileiro disse que as Caravanas da Cidadania eram uma inédita viagem ao coração do Brasil.

Assim nasceu o projeto que implementamos ao chegar à Presidência da República, fruto de um verdadeiro mutirão cívico e político, com a contribuição de todos os setores sociais, dos pobres, dos trabalhadores, das classes médias, do empresariado, aproveitando o que havia de melhor e mais avançado no saber popular e no saber científico do país.

Tínhamos consciência de que era preciso cumprir, ao mesmo tempo, uma dupla missão: de um lado, resgatar a tremenda dívida social do Brasil com seu próprio povo, herdada dos séculos XIX e XX; e, de outro, modernizar a estrutura econômica e o sistema educacional, para responder aos desafios de qualidade e competitividade do século XXI.

Os pobres deixaram de ser vistos como problema e passaram a ser
tratados como parte fundamental da solução

Com menos de dois anos de governo, já havíamos retomado o crescimento econômico, reduzido drasticamente a inflação, expandido as exportações e o mercado interno, aumentado os salários, democratizado o acesso ao crédito e criado políticas permanentes de transferência de renda para os pobres.

Os pobres deixaram de ser vistos como problema e passaram a ser tratados como parte fundamental da solução. Foram, pela primeira vez, de fato incluídos no orçamento do Estado. Além de ser um imperativo ético e um dever civilizatório, as políticas de transferência de renda, combinadas com a geração de empregos e a valorização do salário, impulsionaram fortemente a retomada do crescimento econômico.

Quando adquirem direitos de cidadania e passam a ter uma renda básica assegurada — o que por si só já justificaria tais políticas –, os pobres se tornam também consumidores, e com isso geram um círculo virtuoso na economia. Foi por essa razão, aliás, que o mercado interno brasileiro simplesmente dobrou ao longo dos nossos governos, sem prejuízo das exportações, que também cresceram, tornando a economia brasileira muito maior e mais sustentável.

O resultado da nova estratégia de desenvolvimento foi que o Brasil conseguiu vencer a fome, e em 2014 a FAO, das Nações Unidas, declarou nosso país livre dessa terrível mazela. Além disso, libertou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza e elevou mais de 40 milhões ao padrão de renda e consumo da classe média, no maior processo de mobilidade social da nossa história. Sem falar que, no mesmo período, entre 2008 e 2014, enquanto o mundo rico desempregou 62 milhões de trabalhadores, no Brasil foram criados 11 milhões de novos empregos formais, fazendo com que o país chegasse a apenas 4% de desemprego em dezembro de 2014, o menor índice na nossa história.

Ao lado dos três ministros do Bolsa Família, Lula comemora três momentos históricos do Brasil num encontro em Roma que reuniu José Graziano, criador do Programa Fome Zero e atual-diretor da FAO, Patrus Ananias, que sucedeu Graziano no ministério e Tereza Campello, atual ministra do Desenvolvimento Social.

Ao mesmo tempo, investimos fortemente em educação e ciência e tecnologia, abrindo as portas das universidades também para as classes populares, e fomentando a pesquisa de ponta no país.

Criamos 18 novas universidades públicas e 148 novos campi universitários distribuídos por todos os estados e regiões. Com isso, o número de estudantes universitários mais do que dobrou, passando de 3,5 milhões para mais de 7 milhões. Criamos também 365 novas escolas técnicas de nível médio, o triplo do que havia sido feito durante todo o século anterior.

O orçamento do Ministério da Educação, que não passava de R$ 22 bilhões (o equivalente a US$ 7,5 bilhões), quando assumi a presidência, havia alcançado 103 bilhões de reais (cerca de R$ 35 bilhões) quando a deixei.

A nossa querida Presidenta Dilma Rousseff, fiel aos mesmos valores éticos e políticos, foi além e criou um extraordinário programa de qualificação profissional — o PRONATEC — que já atende a 8 milhões de alunos, em sua maioria jovens.

Quanto à ciência, tecnologia e inovação, também obtivemos resultados importantes, que nos permitirão avançar ainda mais nos próximos anos.

O país passou a contar com um plano nacional para o setor, elaborado em conjunto pelo governo e a comunidade científica. Tive a honra de participar pessoalmente de alguns encontros nacionais com esse objetivo, reunindo milhares de pesquisadores. O orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia teve um notável crescimento, e o número de novas patentes registradas no Brasil aumentou de modo exponencial.

Avançando no mesmo rumo, a Presidenta Dilma criou em 2011 o programa “Ciência Sem Fronteiras”, que já permitiu a mais de 80 mil estudantes brasileiros se aperfeiçoarem nas melhores universidades do mundo. E aqui na Itália deve ter milhares de estudantes no programa.

O país recuperou a sua autoestima e assumiu um comportamento soberano e criativo no âmbito internacional. Participamos ativamente do processo de integração latino-americana, estreitamos os laços de cooperação com a África, cumprimos papel destacado na criação dos BRICS, apoiamos com vigor as negociações de um amplo acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, para dar apenas alguns exemplos.

Lula na Prefeitura de Roma (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Essa verdadeira — e pacífica — revolução social, como afirmei no início, não teria acontecido sem o forte empenho civil na construção e na execução das políticas públicas.

Estabelecemos uma nova relação entre o Estado e a sociedade, que considero um dos maiores legados do meu governo.

Digo a vocês, com muito orgulho, que nunca se exerceu tanto e com tamanha profundidade a democracia no meu país.

Porque, além da inclusão social, promovemos também uma vasta inclusão política, incorporando à vida democrática numerosos setores populares que antes ficavam inteiramente à margem das escolhas dos governos.

A sociedade não pode ficar na arquibancada, assistindo à partida. Deve entrar no jogo e participar durante os 90 minutos. E até na prorrogação, se necessário

Não se constrói uma sociedade mais ética e justa sem uma nova forma de fazer política.

A forma, nesse caso, é parte do conteúdo.

Para nós, a sociedade civil não pode ser um objeto passivo das decisões governamentais, por melhores que elas sejam.

Eu, que sou apaixonado por futebol, — aliás, torci para a Juve ontem [Juventus de Turim, na final da Liga dos Campeões] — dizia e digo sempre: se queremos construir um país mais solidário e fraterno, a sociedade não pode ficar na arquibancada, apenas assistindo à partida. Deve entrar no jogo e participar dele durante os 90 minutos. E até na prorrogação, se necessário.

A mobilização das pessoas e dos movimentos é imprescindível para enfrentar e vencer a resistência das forças conservadoras, sempre apegadas aos seus preconceitos e privilégios.

Acreditamos que, na democracia contemporânea, é indispensável aproximar o cidadão do Estado, criando canais e instrumentos para que ele acompanhe, fiscalize e, principalmente, possa opinar sobre as decisões de governo também fora dos períodos eleitorais.

Quanto mais ativos os cidadãos, maior a força e a legitimidade real da democracia. Nesse sentido, a chamada democracia participativa, longe de competir com o parlamento e com o poder executivo, pode contribuir– e muito — para torná-los mais eficazes e respeitados.

Além disso, o envolvimento e a co-responsabilidade dos cidadãos e dos grupos sociais contribui para diminuir os riscos de alienação, de indiferença e de negação da política. E quando dialogamos mais e com mais pessoas, o risco de errar é menor.

Daniel Balaban, diretor e representante do Centro de Excelência Contra a Fome, do Programa Mundial de Alimentos da ONU, afirmou que Lula é referência mundial no combate à fome. Ele destacou os programas sociais criados durante o governo do ex-presidente, como o Fome Zero

Já havíamos praticado com sucesso a democracia participativa em nossos governos locais e regionais a partir de 1982. A partir de 2003, passamos a adotá-lo igualmente no governo federal.

Todas as decisões importantes para o país passaram a ser construídas em diálogo com a população, seja diretamente ou por intermédio de suas entidades e movimentos representativos. Programas que mudaram para melhor a vida de milhões de pessoas — como o Bolsa Família, principal instrumento do Fome Zero — foram concebidos e implementados em parceria com a sociedade civil.

Um estudioso do nosso país sintetizou essa nova forma de fazer política dizendo que o Palácio do Planalto, sede da Presidência da República, abriu-se — literalmente — para toda a população brasileira.

Não apenas para as grandes lideranças empresariais, políticas, religiosas, sindicais, mas para aqueles que nunca haviam sido reconhecidos como interlocutores do poder público, a exemplo dos moradores de rua, dos sem-terra, dos trabalhadores dos lixões, das mulheres camponesas, das prostitutas, dos favelados, dos jovens da periferia, dos homossexuais, das empregadas domésticas, dos índios, dos ribeirinhos da Amazônia e até meus amigos italianos, como Antonio, que entrou mais vezes no Palácio do Planalto, do que no palácio do governo da Itália.

Criamos diversos canais de interlocução da sociedade com o Estado — conferências, conselhos, mesas de diálogo, audiências públicas, ouvidorias — que foram aos poucos constituindo um verdadeiro sistema nacional de democracia participativa

E toda essa gente entrou no Palácio não só para pedir, mas também para contribuir; não apenas com carências e dores, mas também com saberes e convicções; e foi recebida pelo Presidente da República e a equipe de governo para apresentar, sim, as suas legitimas reivindicações, mas, sobretudo, para opinar pela primeira vez em nossa história sobre os destinos do país.

Criamos, na verdade, diversos canais de interlocução da sociedade com o Estado — conferências, conselhos, mesas de diálogo, audiências públicas, ouvidorias — que foram aos poucos constituindo um verdadeiro sistema nacional de democracia participativa.

Em oito anos de governo, realizamos 74 Conferências Nacionais de Politicas Públicas. Elas começam nos municípios, passam pelos estados até se concluírem em grandes conferências nacionais.

Mais de 5 milhões de pessoas participaram de conferências que debateram temas tão diversos como política industrial, geração de emprego e renda, inclusão produtiva, educação profissional, saúde indígena, meio ambiente, juventude, segurança pública, direitos das mulheres, reforma agrária, diversidade sexual, igualdade racial, democratização da cultura, entre tantos outros.

As políticas decididas dessa forma passaram a ser acompanhadas periodicamente avaliadas pelos conselhos de participação social hoje existentes junto a todos os ministérios.

A presidenta Dilma Rousseff deu continuidade ao processo participativo durante o seu governo. Neste ano de 2015, serão realizadas 15 novas conferências, sobre temas como segurança alimentar, juventude, direitos da infância, direitos humanos, entre outros.

Além de importantes conquistas quanto aos direitos fundamentais — emprego, salário, previdência social, educação e saúde públicas — esse formidável exercício de democracia participativa produziu também resultados extraordinários no que se refere aos chamados novos direitos, que passaram a constar da pauta emancipadora da sociedade brasileira nas últimas décadas: igualdade étnica e de gênero, respeito à diversidade sexual, reconhecimento das demandas próprias da juventude, dos idosos, das pessoas com deficiência.

Em parceria com as entidades feministas, o movimento negro e as organizações de defesa da diversidade sexual, nosso governo inovou profundamente nesse sentido. Enfrentou preconceitos arraigados e dogmas elitistas sobre a suposta neutralidade do Estado, investindo corajosamente nas chamadas políticas afirmativas.

Nos inspiramos, para isso, nas palavras lúcidas do grande educador Paulo Freire: não devemos temer as ações afirmativas, que privilegiam os setores historicamente discriminados. Tratar igualmente os desiguais é que seria um grave erro, pois isso só perpetua a desigualdade.

Foi com essa convicção que adotamos o sistema de cotas para garantir o acesso da população negra, dos indígenas e dos alunos de escolas públicas nas universidades mantidas pelo governo.

O Brasil é o país com a maior população negra no mundo fora do continente africano, só perdemos para a Nigéria. E foi exatamente sobre os negros que recaiu a maior carga de injustiça e desigualdade ao longo de 500 anos de história.

Não devemos temer as ações afirmativas, que privilegiam os setores historicamente discriminados. Tratar igualmente os desiguais é que seria um grave erro, pois isso só perpetua a desigualdade.

O fim do regime de escravidão, em 1888, esteve longe de representar a plena cidadania dos descendentes de africanos no Brasil. A imensa maioria dos antigos escravos e suas famílias foi simplesmente expulsa das fazendas para as cidades, sem oportunidade de exercer um trabalho digno.

O ciclo de exclusão dos negros perpetuou-se ao longo do século XX, de forma que os descendentes de africanos passaram a constituir a parcela mais pobre da população brasileira, vítima da fome, da insalubridade e do desemprego, realizando os trabalhos menos qualificados e com os menores salários.

Não havia como romper esse círculo de exclusão sem adotar políticas afirmativas abrangentes, como é o caso do sistema de cotas nas universidades.

Podemos dizer o mesmo dos povos indígenas, muitas vezes reduzidos à pobreza nas aldeias ou à miséria nas cidades.

Essas políticas vêm se estendendo paulatinamente a outros setores. Já temos cotas para negros na diplomacia e está em discussão no parlamento a adoção de cotas no serviço público de maneira geral.

Nos programas de financiamento à pequena e média agricultura, abrimos linhas de crédito especiais para as mulheres e também para os jovens do meio rural.

Desde os primeiros anos de governo nós incentivamos a participação dos jovens nas políticas públicas — tanto naquelas de seu interesse direto como nas de caráter mais abrangente para a sociedade.

Criamos em 2004 a Secretaria Nacional da Juventude e o Conselho Nacional da Juventude. Mais de 500 mil jovens participaram da Conferência Nacional de Juventude. Essas três instâncias foram fundamentais na implantação de um programa pioneiro, o Projovem, que combinava educação, ação comunitária e qualificação profissional, em parceria com as prefeituras das maiores cidades.

O ex-presidente Lula e o prefeito de Roma, Ignazio Marino (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

A participação juvenil também foi importante na elaboração e implantação do Prouni, um programa que criou quase um milhão e meio de vagas para jovens de baixa renda nas faculdades particulares, em troca de impostos federais devidos por estas instituições.

Quero concluir falando sobre a fé que tenho na democracia, fruto de todas essas lutas e conquistas do povo brasileiro.

Devemos levar em conta que a sociedade entrou na era digital e a política permaneceu analógica. Se as instituições democráticas souberem utilizar criativamente as novas tecnologias de comunicação, como instrumentos de diálogo e participação, e não de mera propaganda, poderão oxigenar o seu funcionamento, sintonizando-se de modo mais efetivo com a juventude e todos os setores sociais.

Querido prefeito, queridos companheiros, queria dizer para vocês que nós temos um desafio no século XXI, que é não permitir que a sociedade, e principalmente os jovens, negue a política. É muito importante que as pessoas compreendam que, fora da política dificilmente haverá solução para os problemas que nós queremos resolver.

Toda vez, tanto na história antiga como na recente, em que tentamos negar a política, o que aconteceu depois foi pior.

Queria terminar falando especialmente aos meninos e meninas que estão aqui. Eu era jovem, e em 1978 achava que era muito bonito quando eu fiz as primeiras greves no ABC. Fui presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, muito importante no Brasil em São Paulo. Quando fiz as greves, em 1978, eu dizia que não gostava de política e não gostava de quem gostava de política. Eu achava aquilo maravilhoso, que eu era radical. A imprensa me elogiava muito, porque finalmente tinha nascido um operário que só queria fazer greve e não queria o poder. Fui muitas vezes capa dos jornais quase que como operário-padrão. Sinceramente, ao invés de sabedoria, cheguei à conclusão que era pura ignorância minha falar aquilo.

Dois anos depois, eu já estava dentro de um partido político e já estava sendo candidato. E por que estou contando essa história: normalmente, na cabeça de um jovem, sentado na sua casa, lendo jornal, vendo a internet ou televisão, não tem nenhum político bom. Todo mundo é corrupto, todo mundo trabalha contra o povo, todo mundo só pensa em si. Aí, a juventude começa a ficar rebelde, começa a dizer que não gosta de política, que não quer votar, que não acredita no partido político.

Quando vocês estiverem desanimados com a política, acharem que o presidente da república não é bom, que acharem que o prefeito não é bom, que o primeiro-ministro não é bom, que Senado não tem ninguém que valha nada, que não tem um deputado que valha nada, quando vocês estiverem prostrados, sentados no sofá ou no computador, desacreditando de tudo, eu digo para vocês: mesmo assim vocês não podem desanimar.

Ex-presidente Lula posa para foto com jovens romanos (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Porque, quem sabe, o político perfeito que vocês querem, o político trabalhador, o político honesto, o político competente que vocês desejam, quem sabe, esteja dentro de vocês. Então coloquem esse político para fora, participem dos partidos políticos, criem partidos se tiverem que criar, mas participem. Participem reclamando, participem protestando, mas participem também construindo. Porque uma coisa é quando a gente está de fora fazendo julgamentos. Outra coisa é quando a gente tem que fazer as coisas. Um candidato, em qualquer cidade do mundo, quando ele está fora do governo é tudo muito fácil. Quando perguntado sobre alguma dificuldade, uma hora ele fala “eu acho”, outra hora ele fala “eu penso”, outra hora diz “eu acredito”. Quando ele senta no poder, ele não acha, não pensa, não acredita: ele faz ou não faz.

O exercício da democracia é a coisa mais extraordinária que o mundo criou. Eu digo, prefeito, para todo mundo: não tem nada que ensine mais que a democracia do que o casamento. Sou casado há 40 anos. O casamento, como diria um companheiro napolitano, que é casado há 60 anos, é um exercício de democracia todo santo dia. Porque todo santo dia você tem que conquistar uma coisa e todo santo dia você tem que conceder. Porque se você não conceder, o casal se separa. A arte de fazer concessão, a arte de negociar, a gente aprende dentro de casa, com as mulheres e com os filhos.

Vejam vocês: fui eleito presidente da república com 62% dos votos do meu país. O Congresso Nacional tem 513 deputados e 81 senadores. Eu tinha 81 deputados. Para votar qualquer coisa e ganhar, precisava ter 257. Eu tinha 12 senadores; para ganhar qualquer votação, tinha que ter 41. Para conquistar a diferença, tinha que negociar. Porque o ideal na política, era se você pudesse ganhar a prefeitura e todos os outros vereadores, os deputados, fossem todos do seu partido. Ainda assim, você ia ter muito problema.

Acontece que o povo é mais sábio. Ele vota em quem quer. Muitas vezes ele não quer saber se é de direita ou esquerda, se é neoliberal ou progressista. Muitas vezes esse cidadão em que ele vota não nada a ver com o que ele pensa. Ele vota porque conhece a pessoa. E, depois, o administrador tem que negociar. Como é que vai aprovar as coisas?

Esse é o resultado extraordinário do processo democrático que, vocês jovens, não podem abdicar. Você conversar, conversar e conversar até conseguir a um denominador comum que permita você fazer as coisas. Obviamente que, muitas vezes, o sonho da gente se torna um pesadelo, as pessoas em quem a gente vota não tão honestas quanto a gente pensava que eram, não fazem as coisas tão boas como a gente pensa que deveriam fazer. Isso não é motivo para desistir, isso é motivo para escolher o melhor outra vez. É por isso que vocês são essenciais na discussão do futuro da nossa querida Roma e do planeta.

O que está acontecendo no mundo hoje? Os economistas irão dizer que as conquistas do povo italiano e europeu dos anos 50 e 60 estão sendo perdidas agora com a crise econômica. Ou seja, há um acúmulo de riqueza nas mãos dos poucos, significa que os ricos encontraram um jeito de fazer com que as conquistas sociais e o estado de bem-estar social que se conquistou na Europa — que nós ainda não conquistamos na América Latina , que ainda não foi conquistado na África— vocês já estão perdendo o que nós ainda nem ganhamos. Significa, meu querido prefeito, que a luta é eterna. E, vocês jovens, não podem desanimar. Sobretudo aqui na Europa, porque vocês não podem perder o que os pais e os avós de vocês conquistaram.

Vocês jovens, não podem desanimar. Sobretudo aqui na Europa,
porque não podem perder o que os pais e os avós de vocês conquistaram

Quando estiverem desanimados, sentem com a mãe e o pai de vocês, para que eles contem como é que eles fizeram para chegar onde chegaram. Ou perguntem para os seus avós. Quantas vezes tiveram que enfrentar a polícia, correr da polícia, serem presos. Porque hoje a Europa parece que está tranquila, mas essa foi uma região de muita luta, de muita conquista, de muita greve, de muita violência contra o povo trabalhador.

Então, queridas e queridos companheiros, eu queria mostrar esse exemplo da participação popular no Brasil, porque eu acho que, em vários lugares do mundo, há um certo desestímulo, uma descrença, má-vontade. As pessoas vão desanimando, desanimando, e um jovem não tem o direito de desanimar. Eu, com 69 anos, tenho o direito de levantar desanimado. Até porque o meu tempo de vida está ficando muito curto. A natureza é implacável. Vocês não tem o direito de desanimar. Não têm o direito de ficar sentado no sofá ou na frente do computador passando Whatsapp não sei para quem.

Ninguém pode ficar rebelde se não tiver objetivo. Senão acontece o que aconteceu no Egito. Derrubam um presidente, derrubam outro, e estão lá os militares.

Não tem nada melhor do que a gente se organizar, juntar a nossa turma e ir atrás do que a gente quer. Se os partidos que estão aí servem, crie outro. Mas saibam que exercer a democracia é compartilhar decisões democraticamente com quem a gente sequer gostaria de conversar. Esse é o aprendizado extraordinário da democracia. E eu quero que vocês, os italianos, que têm história para ensinar ao mundo, história para contar, continuem servindo de exemplo. Vocês têm muito a contribuir. O povo italiano é um dos povos mais solidários que eu conheço nesses meus 69 anos de idade. Vocês não podem abrir mão dessa coisa extraordinária que está no sangue de vocês.

Um abraço,


O Instituto Lula foi criado para ampliar a cooperação entre Brasil, África e América Latina e dar continuidade ao trabalho político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Site: institutolula.org

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