o tritão gay e o afogado

Bella e As Leituras Ilimitadas

Bella me apresentou alguns livros. Em especial, para ela e agora para mim, ficou a obra ‘O Amante’, de Marguerite Duras. Na época, Bella disse que se identificava bastante e me mandou uma passagem do livro, com a qual se identificava mais. Não sei se por influência do primeiro contato, mas eu também me vi ali naqueles parágrafos, talvez de outro modo, sim, mas muito rápido me vi fisgado e logo acabei adquirindo sua edição pocket. Na passagem, Duras observa que desde muita nova tinha esse rosto premonitório que ganharia depois de começar a ingerir álcool. Talvez, muita gente também se identificasse com a descrição desse olhar adiantado, se lembrasse da própria perversidade infanto-juvenil; dos desejos que vez ou outra até podiam ser resumidos em ‘vontade de crescer, ser adulto e fazer o que quiser’, mas que iam muito além dessa objetividade.

Hoje eu posso ver, estava tudo lá. Cada escolha, cada estrada, os medos e a covardia para enfrentar a vida, os vícios e as extravagâncias sexuais, tudo. Até o vício em pornografia estava lá, mesmo que eu só tivesse acesso ao Cine Band Privê. Nenhuma revistinha, nada além do soft core de Emmanuelle e dos desenhos pornográficos, que eu às vezes fazia, mas depois descartava. Também aproveitava pra gozar sobre a folha, já que depois jogaria no lixo. Minha família ficaria chocada se visse algum daqueles desenhos, eu sempre fui muito tímido e quieto, era capaz de nenhum deles acreditar que aquilo saia de mim. E se tivessem a certeza, provavelmente, chamariam os presbíteros da igreja para uma reunião de oração comigo. Teria sido uma boa história pra contar na mesa de bar.

Além do mais, mamãe mexia em tudo, inclusive no lixo. Uma vez, peguei ela desdobrando uma bola de papel amassado. Fui rápido e tomei da mão dela, era um texto pornográfico meu, horrível como os que escrevo hoje, mas naquela época, ninguém podia saber — pois passei a queimar todos os meus papéis. Uma droga não tê-los, nem os do período que fiquei fascinado pela Daryl Hannah em Splash e só desenhava sereias e homens se afogando. Meu tio contava muito bem a história, de um dos desenhos que ele viu. Eu fiz um marinheiro se afogando em alto mar e uma encantadora sereia sobre uma pedra pensando alto — “Deus! Tenho que salvar este homem!”. Morria de dar risada da voz que ele fazia.

Talvez, um pouquinho, eu ainda seja uma espécie de tritão gay à espera de um homem afogado. Talvez, as sereias que eu desenhava, de verdade, desejassem serem salvas de volta, levadas para a terra, longe da instabilidade do mar e da solidão de estar à deriva... Sei que hoje é tudo mais complexo, vivo de utopias maiores, sou mais exigente. Se eu soubesse que tudo seria assim tão chato, teria sido menos obediente na infância e bastante perverso na adolescência, pra compensar. Dezessete anos é tarde demais para alguém ter o primeiro beijo, mesmo que a primeira transa com um homem tenha vindo menos de um ano depois.

Aliás, comecei versátil, mas os namoros sempre me levaram a ficar dando a bunda. Foi só depois de entrar pra solteirice, aos 23 anos, que as coisas começaram a mudar. Dentre outras coisas, comecei a frequentar baladas e acompanhar os novos sucessos das cantoras de pop e r&b, mas eu já não era mais o jovenzinho ingênuo do interior, como no início do último namoro. Eu não tinha mais os mesmos encantos, a leveza. Eu tinha outro timbre de voz, comecei a usar barba, fui ganhando uma expressão sisuda. O tritão não cantava como antes. De um dia pro outro, ativo nenhum se interessava por mim. Os que levei para casa, jurando que iam me comer, descobri já no hall de casa que queriam exatamente o contrário. Mas também, passei muito tempo fazendo improviso no teatro. Eu adorava e era bom nisso.

No início, eu nunca sabia direito o que estava fazendo, mas, afinal, já tinha feito e não há segredo, há? É claro que devia ser uma bosta. Juro que depois de um tempo tive até sintomas de depressão, mas também não durou. Comecei a gostar da ideia, ficar mais seguro e praticar. Na média, minha nota ficava em 7. Eu era um principiante, mas muito dedicado, eu me esforçava para ser no mínimo bom. Comecei a gostar ainda mais da ideia e já não sentia tanta falta de ser comido. Foi mais ou menos quando Bella e eu acabamos transando numa viagem. Apaixonado por ela eu já era, como um amigo. Mas colocamos sexo no meio e quando vi estávamos namorando. Uma relação aberta, claro, que também não durou muito.

Depois de um ano, terminamos o namoro para continuarmos apenas amigos, que transam sim, mas amigos. Foi natural o afastamento e eu segui para minha fase das extravagâncias. Pra compensar, sabe como é. Agora estou a caminho dos trinta anos de idade, mas não posso mesmo dizer que meus sonhos não mudaram. Com o passar do tempo, eles foram adquirindo contornos bem mais cabeludos, isso sim. E às vezes, só às vezes, não consigo sentir prazer com nada e acho viver muito difícil e me sinto triste. Um porre!

Aliás, é quando me afogo em bebida que costumo ficar mais carente de afeto ou sexo. É isto. Entre um porre e outro, eu gosto mesmo é de ficar sozinho.

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