Eu olhei todo aquele troço na minha frente e era muito grande. Maior que os muros que eu já tinha pulado, juntos. Um em cima do outro. Era escuro como um monolito, mas parecia transparente e aquela noite tava tão escura que podia ser meus olhos me zuando. Claro que eu não ia tocar. Estava alguns metros à frente, na água do mar, e eu sabia que ele tava lá pois a água batia nele e deixava eu saber que ali tinha volume e não era mentira.
Pior que não tinha ninguém por perto pra ver. A praia tava tão vazia quanto qualquer aniversário meu nos últimos 5 anos. Tava ventando forte pra caralho e as poucas luzes do lugar eram dos postes ali da calçada, uns postes velhos, que piscavam de vez em sempre. Tinha, claro, uns apartamentos ali em volta, já que era beira de praia e todo mundo adora morar na beira da praia, e maior o número do apartamento melhor. Mas nenhum deles tava com a luz ligada, e nem tinha nenhum carro estacionado ali por perto. Óbvio que eu não ia gritar pra rua toda ouv-

“Você está me vendo, não está?”

O troço falou comigo de um jeito que parecia que tava sussurrando no meu ouvido e isso me fez virar rapidinho pro lado. Nada. Imóvel. Paradinho. Igual um muro. Eu me afastei um pouco e fiquei pensando o que porra tinha dado na minha mente pra eu poder ir tão perto da praia e daquilo numa hora daquelas. Não era nada de sobrenatural, eu não tinha ouvido vozes, sonhado coisas, recebido um e-mail misterioso, nada disso. Eu só tava querendo dar um rolé na praia pra acalmar as ideias.

“C-Cê falou comigo?”, daí eu gaguejei mesmo.
“Sim, você pode me ouvir?”
“Sim, mas não posso te ver…”

O que eu tou falando?

Daí uma luz estranha começou a sair do troço. Não era uma luz sobrenatural, estranha, absurda, sei lá… foi como um led acendendo. Não longe, não no alto, mas bem na altura da minha mão, só uma luz e pronto. Depois outra, e outra, e mais uma. E logo parecia uma coisa mais humana, uma silhueta, toda vermelha.
Mas não dava medo, sabe? Era como se fosse um espelho, como se fosse uma criança olhando pra mim, sei lá.

“Oi!” daí saiu uma voz completamente distorcida e computadorizada, de onde devia ser um alto falante, não sei. “Eu sou Golias, qual o seu nome?”

Ronald Golias?

“Eu sou Clóvi-” Eu saltei pra trás quando vi umas coisas saindo do troço, como se fossem uns tentáculos mais rígidos, e conheço muito bem o que geralmente acontece com gente que mexe com tentáculos.
“Não se preocupe, são sensores de calor e movimento, são inofensivos.” E mais leds e leds acendendo, mas como se fossem scanners lendo minhas roupas e meu cabelo e meu rosto e puta merda, como isso incomoda.

Eu tentei ficar o mais parado possível, tenso pra caralho com as coisas me observando e o próprio tro- o próprio Golias me olhando sei lá como.
Aos pouquinhos, o muro preto foi virando um globo preto, rodando de leve, e os sensores iam voltando pro corpo do Golias. Foi aí que eu pensei: fudeu tudo.
O vento começou a ficar frio, depois quente, depois forte, e o globo começou a rodar mais rápido, espalhando as ondas pra todo lado e me deixando cagadão, claro. Então o Golias saiu de dentro do globo do nada e eu me joguei no chão, com a cara mais engraçada do mundo, já que eu tava me acabando de horror vendo aquela coisa saindo do nada dali.
Não era muito diferente do que tinha no muro. Só era… sei lá, humano. Era completamente vermelho, bem forte, chegando a iluminar a areia toda ali onde a gente tava. Ele saiu da esfera como se tivesse saindo de uma banheira, pisando com calma e tal e eu ia meio que ciscando pra trás, assustado demais. Eu sentia uma vibração vindo dele, como uma sensação estranha, meio ruim, meio tranquila. Dava pra ver que, nas costas dele, saiam uns fios extremamente finos e vermelhos do meio jeito. Eu pensava que ia ser alguma coisa tipo Exterminador do Futuro, mas nem fumaça saia dele. Nada. Parecia como uma pessoa qualquer.
Ele olhou em volta com aqueles olhos que não estavam ali, como se fosse uma criança num parque de diversões sem saber em que brinquedo ir primeiro. Aí ele deu outro passo e alguns carros começaram a alarmar. Pronto. Eu já tava lacrimejando de medo, cara. Quanto mais eu ia pra trás, mais eu queria ver o que ele ia fazer e como ele era e tudo mais. Era muito incrível pra eu não ficar de olho.

“Golias chegou!”, ele gritou, e puta que pariu. Um som de deixar surdo ecoou por toda a rua e todos os carros por perto alarmaram juntinhos, muito alto; as luzes dos postes acenderam até estourar e um transformador de um dos postes explodiu e começava a pegar fogo. E tudo que ele disse foi “Opa!”
“Caralho…”

Os fios que saiam das costas dele eram como se fossem teias de aranha, mas de computador. Não pareciam os cabos de computador de filmes ou daqueles que a gente vê em casa espalhados pelo chão, como os meus. Daí eu me dei conta que, desde que ele saiu da esfera, eu tava ouvindo ruídos no meu ouvido. Iguais aqueles chiados de tevê fora de sintonia, entrando pela minha cabeça aos pouquinhos. Daí eu consegui enxergar o que parecia ser a boca do Golias, que era um alto falante, que era escondido pelo que quer que fosse que era o corpo dele; os olhos pareciam lentes de câmeras e os dedos emitiam luzes fortes, como leitores de código de barras de banco.
Claro, eu só fui perceber isso depois que ele passou por mim e como bom homem que sou, fiquei imóvel e paralizado de medo. Minhas pernas deviam ter desligado em algum momento e tava difícil de reiniciar. Mas dava pra ver que tinha gente saindo dos apartamentos, devido aos alarmes apitando loucamente altas horas da madrugada. Uns carros já piscavam todas as luzes, abriam e fechavam as janelas, ligavam o limpa-brisa, pára-brisa, sei lá o nome; e algumas casas já tinham as luzes piscando. Daí, claro, né, a gritaria.

“O que é aquilo na praia? Socorro!”
“É o capeta saindo das águas! É o fim dos tempos!”

E outras coisas, tão idiotas quanto, mas que eu não consegui entender, já que eu consegui levantar e me afastar um pouco daquilo. O poste que tava pegando fogo começou a cair e todos os fios chicotearam pelos ares, cheios de energia elétrica, dando um show de luzes. Algumas pessoas ainda relutavam em ficar olhando, mas a maioria já corria desesperada pra dentro de casa. Meus cabelos estavam arrepiados e devia ser por conta da estática, não sei. Só sei que eu tava feliz de estar longe dos carros e da confusão que- ah, cara, ele tava chegando perto da calçada.

Então o mundo acabou. Ali, naquele instante.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated kasu™’s story.