Sobre falta de espaço, Carnot e alguns dados alarmantes
por Aêgla Benevides
É a terceira vez que faço limpeza de praia sozinha, e, nas três ocasiões, me deparei com o mesmo problema: não tem mais espaço na sacola. Não importa se eu utilizo sacos plásticos de supermercado — que estão na lista de itens mais agressores do meio ambiente, diga-se de passagem — , uma ecobag ou minha própria mochila, a quantidade de lixo recolhido sempre será superior ao espaço que tenho disponível. O “lado bom” é que, quando isso acontece, posso facilmente descartar o que já tenho em mãos e começar tudo de novo. Uma outra alternativa é fazer diversas ações durante a semana para conseguir recolher mais lixo, ou mesmo convocar alguns amigos para me ajudarem. Embora seja uma pedra no sapato (ou um canudo na areia, trazendo pra nossa temática), a falta de espaço não me impede de fazer muita coisa. Sei que, semana que vem, terei o mesmo problema: em menos de vinte minutos, não haverá mais espaço na sacola, e estou aprendendo a enxergar alternativas. A grande questão é: e quando não houver mais espaço na Terra?
No dia primeiro de agosto desse ano, nosso planeta entrou em falência. Quinze dias antes da data em que foi “comemorado” no ano passado, o dia da sobrecarga em 2018 veio como um lembrete: “é, meus amigos, o espaço por aqui também tá acabando”. Esgotamos todos os recursos disponíveis para doze meses em menos de sete e, desde então, estamos vivendo com o estoque do ano que vem. Basicamente, tendo cem reais de mesada para gastarmos em uma semana, chegamos na sexta-feira implorando à mamãe por mais alguns trocados. Sabemos que, até agora, a natureza tem nos sido uma mãe muito bondosa, que, sem exigir grandes justificativas, desembolsa mais do que pode para satisfazer nosso espírito de criança mimada. Infelizmente, o planeta não é uma máquina térmica ideal.
Quer dizer, oi?
Em algum ponto do século XIX, o queridíssimo-por-uns-e-odiado-por-grande-parte-dos-estudantes-do-ensino-médio Carnot começou a estudar o que hoje é conhecido por termodinâmica — juro que o texto não vai ficar chato, vai por mim. Em uma das suas célebres observações, Carnot falou sobre a máquina térmica ideal, que, numa situação hipotética, seria aquela com eficiência igual a um (ou 100%). Não à toa, utilizei o termo “hipotética”. A ciência explica: não há possibilidade alguma, dentro das condições existentes e conhecidas, de se construir um aparelho que ofereça zero desperdício e aproveitamento total. Vale ressaltar que Carnot não tirou essa conclusão de um sonho ou de uma única experiência: toda a sua vida foi dedicada, dentre outras coisas, a esse estudo. Bom, e aí vem o ser humano, em pleno século XXI, e acredita que os recursos oferecidos pelo planeta nunca acabarão e que viveremos para sempre num conto de fadas hollywoodiano onde os homens permanecerão em perfeita harmonia com os animais e com as lindas flores do campo.
Vamos aos dados: até 2050, haverá mais plástico que peixe nos oceanos, e, em 2015, cerca de 90% das aves marinhas possuía plástico no organismo. Acha que nosso país é quente? Se prepara, até o final do século é previsto um aumento de 7°C na temperatura da região semiárida do nordeste brasileiro por conta do aquecimento global. Atualmente, 92% da população mundialvive em áreas onde a qualidade do ar está fora dos padrões da Organização Mundial da Saúde (OMS), e, no Brasil, morrem pelo menos 100 mil pessoaspor ano em decorrência da poluição. A área desmatada na Amazônia, entre 1991 e 2000, é seis vezes maior que Portugal.
Ao meu ver, o planeta já vem dando a entender, há alguns anos, que não aguenta mais estar nesse relacionamento abusivo com os seres humanos. Cada vez mais cansada do papel de mãe boazinha e comprovando que está bem longe de ser uma máquina ideal, a Terra pede socorro. Na próxima vez em que for à praia e tiver problemas com o espaço na sacola, eu usarei o plano B. No entanto, fica a nós o lembrete: infelizmente, não há planeta B.
