Uma ode à ex-amizade

(ou, um breve relato sobre as péssimas relações ao longo da minha vida)

Em nossa contemporaneidade super exposta, onde a intimidade é a nossa redenção pessoal, doses cavalares pieguice, declarações de amor em redes sociais, as separações sempre tem um lugar especial nas fofocas cotidianas. Nesse subgrupo de separação, a mais negligenciada talvez seja a dos ex amigos. Explico: enquanto separação de namorados ou de casamentos e noivados são exaustivamente lembrados, comentados e dissecados, a relação entre ex amigos não é tão discutida, ou simplesmente não gera tamanha repercussão.

O amigo representa, ao contrário do namoro, uma relação afetiva genuína. Há uma pureza na amizade que não há no namoro. Essa pureza nos leva a momentos maravilhosos de companheirismo em nossa existência, uma troca de afeição e compreensão que atingimos poucas vezes. Há uma série de filmes, séries e livros que falam sobre a importância da amizade. A amizade, enfim, é linda e pura. Não seríamos nada sem amizade, certo? Errado.

Na adolescência, principalmente para as meninas, é praticamente obrigatório ter uma melhor amiga. Aquela que íamos passar o final de semana na sua casa, aquela que escrevíamos cartinhas, aquela que ficávamos juntos o recreio inteiro. Telefonávamos, avaliávamos os nicks do MSN, falávamos sobre garotos, nos arrumávamos juntas para sair- e obviamente comentávamos tudo o que aconteceu depois. Uma época terna.

Mas também aquelas que eu gostaria de não ter vivido. A noção de traição não conheci com um garoto, primeiramente. Foi com minha BFF, que viu que poderia ser amiga de uma garota mais populares para poder chegar ao seu crush do que a desajeitada socialmente que vós escreve. Na verdade, em 2006, nós adolescentes não escutávamos muito sobre feminismo e sororidade, como a juventude contemporânea. A amizade era praticamente uma imitação dos filmes adolescentes americanos.

Depois de um período, quis apenas ter amizades masculinas, achando que isso me permitiria sair desse círculo de amizades femininas, onde estética e questões sentimentais eram o principal foco de conversa. Para uma menina fora do padrão que eu era, essas amizades me enriqueceram. Eu me sentia aliviada de não necessitar ter uma melhor amiga, nem aqueles papos chatos. Mas, eventualmente descobrimos que somente algumas mulheres sabem o que passamos (bom, esse é um outro papo né).

O pós-namoro é mais simples que a pós-amizade. Quando o namoro acaba, claramente sabemos quem foi o culpado, naturalmente ocorre uma informal “divisão de amigos”. Além disso, pode-se falar mal do ex namorado deliberadamente, pode-se evitar o ex namorado de forma efetiva e não ser julgada por isso. Não há o famigerado “oi sumido” quando uma amizade acaba, não há um amigo na espreita para carregar o título de melhor amigo, não há que apagar as fotos dos ex amigos. Essas ficam como lembranças, amargas, porém ficam.

Agora com a amizade não é assim. Não há que tomar um porre porque perdeu um amigo. Na verdade é difícil até saber quando a amizade de fato terminou. A relação vai morrendo aos poucos. Geralmente, se há um marco específico para selar, trate-se apenas de um motivo, uma vez que a amizade já estava corroída antes. Aí vem a tarefa ingrata: enquanto para achar um namorado ou um ficante, peguete é só ir para a baladinha, barzinho, baixar aplicativos, ainda não há um Tinder para achar um amigo. E além disso, para se chegar ao estágio de melhores amigos demora um bocado.

Hoje, tenho bons (e poucos) amigos que me ajudam e são meus companheiros de vida. Não os vejo sempre, mas de alguma forma estamos juntos, se passarem muitos anos. Uma ou um melhor amigo para sempre é uma ilusão que só gera tristeza. Exageramos e canalizamos as expectativas em uma única pessoa e a transformamos em um ser tão irreal, que quando nos deparamos com falhas, sequer podemos lembrar que é uma pessoa predisposta ao erro igual a nós mesmos.

Além disso, temos também aquelas relações que simplesmente não nos fazem bem, só nos fazem pior. São as chamadas amizades tóxicas, que só geram competitividade, raiva e frustração. Não vale a pena manter o contato com pessoas que não nos fazem bem. Mantê-los em nosso cotidiano com a promessa que um dia a relação vai se normalizar é um erro. O fim dessa relação geralmente é rápida e indolor, onde se apagam os números e bloqueiam-se os contatos. Dessas não há luto quando terminam, mas apenas alívio.