Mulheres e eleições 2018: representatividade x números

Intermedia
Sep 3, 2018 · 5 min read

Na noite do dia 1 de setembro, o candidato Ciro Gomes (PDT) inaugurou sua agenda pelo estado do Paraná vindo à cidade de Londrina, onde realizou sua primeira atividade de campanha na Sede do Sindicato dos Eletricitários. Previamente à fala do presidenciável, foram divulgadas algumas candidaturas locais, com destaque para mulheres e pessoas LGBTI+ — apresentadas pelo ex-prefeito Barbosa Neto (PDT), que, repaginado, concorre a deputado federal.

Contudo, com a chegada de Ciro, a composição da mesa chamou a atenção da reportagem. Apesar das falas realizadas previamente, denotando a preocupação do partido em incluir segmentos tradicionalmente menos representados na política, ao lado de Ciro Gomes estavam os candidatos Roberto Requião (MDB), que concorre ao senado, e João Arruda (MDB), que concorre ao governo do Estado, além de outras lideranças locais, que em comum tinham o fato de serem todas figuras masculinas. As duas únicas mulheres presentes no palco misturaram-se aos demais militantes do partido, atrás do presidenciável.

(Vídeo: Isabella Alonso)

O protagonismo feminino nas eleições de 2018 sem dúvida é um assunto que tem se destacado. A exemplo, temos dois episódios nos quais a diferença salarial entre homens e mulheres foi colocada em destaque face posicionamentos do candidato Jair Messias Bolsonaro (PSL).

Mulheres x Bolsonaro

Na sabatina realizada no Jornal Nacional no dia 28 de agosto (veja no vídeo a partir do minuto nove), quando indagado pela jornalista Renata Vasconcellos sobre manifestações pretéritas quanto à desigualdade salarial entre homens e mulheres, o candidato, em sua resposta, buscou exemplificar suas premissas sugerindo que William Bonner receberia uma remuneração superior à de sua colega de bancada — o que poderia ser justificado pela função de Bonner ser, além de âncora, editor-chefe e Vasconcellos “apenas” âncora. A resposta da jornalista, contudo, foi enfática:

Eu poderia, até como cidadã, como qualquer cidadão brasileiro, fazer questionamentos sobre os seus proventos, porque o senhor é um funcionário público, deputado há 27 anos e eu como contribuinte ajudo a pagar o seu salário. O meu salário não diz respeito a ninguém e eu posso garantir ao senhor que como mulher, que eu jamais aceitaria receber um salário menor do que um homem que exercesse as mesmas funções e atribuições que eu.

Logo em seguida, o candidato tentou voltar atrás, no intuito de descolar de si a ideia de que defenderia a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Em outra ocasião, após o debate entre os presidenciáveis realizado pela RedeTv no dia 17 de agosto, um dos trechos que viralizou nas redes sociais focaliza o momento em que a candidata Marina Silva (Rede) confronta Bolsonaro. Indagada sobre a questão do armamento, Marina Silva aproveitou a oportunidade para rebater pronunciamento anterior do candidato a respeito das diferenças salariais entre os gêneros:

Você disse que a questão dos salários menores para as mulheres é uma coisa que a gente não precisa se preocupar porque já está na CLT. Só uma pessoa que não sabe o que significa uma mulher ganhar um salário menor do que um homem e ter as mesmas capacidades, a mesma competência, e ser a primeira a ser demitida, ser a última a ser promovida, e quando vai numa fila de emprego, pelo simples fato de ser mulher, não é aceita. Então não é uma questão de que não precisa se preocupar, tem que se preocupar sim, porque quando se é presidente de República, a gente tem que fazer cumprir o art. 5º da Constituição Federal, que diz que nenhuma mulher deve ser discriminada, não fazer vista grossa, dizendo que não precisa se preocupar. Precisa se preocupar sim. Um Presidente da República tá lá pra combater injustiça.

Apesar do posicionamento na entrevista, a carta de diretrizes da chapa Marina-Eduardo Jorge (Rede-PV), que contém as principais propostas e ideias de sua campanha, veiculada no seu site oficial, menciona diversas políticas para mulheres, na seção de Direitos Humanos, juntamente com diretrizes programáticas para outros grupos politicamente menos representados na sociedade — população negra, LGBTI+, comunidades tradicionais, dentre outros.

Apesar do teor progressista das propostas, a análise da trajetória política da ex-senadora acreana leva a uma direção diferente. Desde 1989, quando foi eleita vereadora em Rio Branco-AC, Marina, que foi senadora, ministra do meio ambiente no governo Lula (2003–2008) e enfrentou três disputas presidenciais (2010, 2014 e agora 2018), historicamente não costuma pautar as lutas clássicas dos movimentos feministas — desde as mais liberais, como a igualdade salarial, até as mais radicais, como a descriminalização do aborto.

Mulheres na política

Recentemente, no cenário político-eleitoral, o apoio às causas identitárias — que são as causas ligadas a grupos políticos como mulheres, pessoas negras e população LGBTI+, por exemplo — tem se tornado importante ferramenta de projeção política entre eleitores mais progressistas. Questões que até pouco tempo eram tratadas como secundárias ante as discussões econômicas hoje podem se tornar determinantes para as pesquisas sobre determinado candidato.

A filósofa Nancy Fraser, alerta, entretanto, em seu artigo “O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história”, para a cooptação da luta feminista (e dos demais movimentos identitários) pelo regime neoliberal, processo que se dá na medida em que os embates entravados pelos movimentos visam muito mais o reconhecimento do que a conquista real de direitos iguais. Na última eleição dos Estados Unidos, por exemplo, Hillary Clinton, uma “neoliberalista progressista”, apesar de ser a mulher na disputa contra Trump, era considerada uma opção, por movimentos feministas do país, melhor do que seu adversário, mas ainda longe de ser uma representante da luta das mulheres.

Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, o cientista político e professor da Universidade de Columbia, Mark Lillia defende que o enfoque nas questões identitárias tem priorizado o reconhecimento cultural e simbólico em detrimento de políticas viáveis que teriam o condão de efetivamente garantir os direitos dos grupos minoritários. Inclusive, para o professor, a ascensão de lideranças como Putin na Rússia, Orbán na Hungria e Trump nos EUA também se utiliza do conceito de identidade (especificamente, do nacionalismo), como forma de projeção — como fizeram, historicamente, diversos outros movimentos de extrema direita.

A isso se soma a estatística de que, apesar de toda a projeção nas redes sociais, as mulheres ainda são contingente minoritário entre os candidatos. Conforme estatística publicada no site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), apenas 31,3% das candidaturas registradas para o pleito de 2018 são de mulheres, percentual que fica pouco acima do mínimo estabelecido em lei.

Não à toa, para as eleições desse ano, através do julgamento da ADI 5617 foi incluída ao mínimo de 30% de candidaturas femininas a obrigatoriedade de destinação das verbas partidárias na mesma proporção — o que ratifica a necessidade de adoção de medidas concretas ante um quadro de desigualdade real — e a expectativa, segundo o Estadão Dados, é que elas recebam 140% mais dinheiro do que tiveram em 2014, quando as legendas repassaram, em média, apenas 12,5% dos recursos disponíveis.

No universo de 147 milhões de eleitores brasileiros aptos a votar no dia 7 de outubro, estão 77 milhões de mulheres. Se elas são a maioria da população geral (51,6%) e também da votante (52,5%), dentre os políticos elas ainda são minoria. Nas eleições de 2016, foram eleitos 50 mil vereadores homens e menos de 8 mil mulheres. Nas assembleias estaduais, elas são cerca de 11% e, na nacional, 12%.

A igualdade de gênero é um dos 17 objetivos da Agenda 2030 para Desenvolvimento Sustentável da ONU (Organização das Nações Unidas), mas ainda está longe de ser alcançada numericamente; se formos levar em conta quem são as mulheres na política e se elas representam as lutas históricas dos movimentos feministas (vide Clinton nos EUA e Marina no Brasil), a discussão vai muito além.

Isabella Alonso e Guilherme Bernardi.

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